A reabertura do ano político foi uma encenação de ópera bufa parlamentar em que o Chega parecia um disco riscado, tonitruante mas roufenho e cansativo, e o Governo aproveitou o ensejo para comprar mais um ano de vida “salvo a ocorrência de um qualquer cataclismo”, citando Miranda Sarmento, o improvável ministro mais popular do executivo.
Tivemos o habitual estrondoso esbracejar da vozearia requentada dos populistas, que se alimentam do caos, da agitação e da degradação das instituições democráticas, a reafirmação do espírito “qual é a pressa?“ pelo PS, a querer mostrar que é o adulto na sala e a contar com a ajuda do tempo e do vento até ao dia do milagre da revelação da sabedoria popular a seu favor, e um Governo em prematuro registo outonal, que superou a tormenta com o espírito de sobrevivência Spinumviva e o anúncio de dois fogachos de brindes de Natal para pensionistas e contribuintes.
A prioridade inicial da governação Montenegro era a imediata resolução do caos na Saúde. Mas, esta semana, foi abandonado até ao final da legislatura o objetivo, fixado para 2025, de dar médico de família a todos os utentes. Foi revelado que faltam 600 anestesistas no SNS, mas que só se formam cerca de 100 por ano, o tempo de espera em algumas urgências da Grande Lisboa voltou a superar as 10 horas e só depois de um queixume público do diretor executivo do SNS contra o Ministério das Finanças foi dada a autorização que poderá abrir o caminho para a contratação dos 950 enfermeiros que Ana Paula Martins reconheceu estarem em falta. Ninguém ligou e é sem emoção que se aproxima a nova greve do INEM na semana em que a Assembleia vai voltar a ouvir a então Secretária de Estado Cristina Tomé sobre as suas responsabilidades no impacto da greve de 2024.
Ainda estão alunos sem classificações, está a decorrer uma bizarra 3ª época de exames do ensino secundário, existem mais de 2500 professores por colocar (mais do que há um ano) e não foi feito o balanço da caótica digitalização da correção dos exames de junho. Mas o espírito de deixar andar e empurrar com a barriga parece ter já serenado a onda que ameaçou Fernando Alexandre no início do verão.
Celebram-se esta semana dois anos sobre a espetacular fuga de presos de Vale dos Judeus. Na altura, o mérito da recaptura dos evadidos foi para Luís Neves, mas nunca mais se ouviu falar da sobrelotação prisional, dos fracassos nos concursos para novos guardas prisionais, ou do plano de substituição da penitenciária do Parque Eduardo VII, enquanto as torres de vigilância prometidas continuam adiadas e só agora entraram em testes os inibidores de sinal telefónico em Vale dos Judeus. Mas também aqui o escrutínio foi esquecido e Rita Júdice só é notícia pela abertura de inquérito ao agora colega de Governo.
A época balnear aproxima-se do final, mas, apesar das bem-intencionadas declarações de Graça Carvalho, o acesso às praias que são de todos continuou a ser vedado ou fortemente condicionado em muitos areais do Algarve ou do eixo Tróia-Melides.
No apoio às vítimas das tempestades de inverno, ficaram 100 empresas de Leiria fora do programa Reindustrializar por esgotamento da verba, tardam os apoios à recuperação das casas destruídas, prometidos por Castro Almeida para daí a poucos dias, e ainda há estradas cortadas ou casas sem telefone, mas já tudo parece distante para a excitação mediática.
A agenda parlamentar e mediática é marcada pelas imprudências do ministro Luís Neves nos seus tempos de Diretor Nacional da PJ, pela terrível ameaça das burcas, pela revisão da lei da identidade de género e pela boataria criada com o falso desembarque de migrantes na Praia do Meco.
Mas enquanto o crédito bancário com garantia do Estado continuar a permitir o endividamento dos jovens com a compra das casas mais caras de sempre, enquanto a compra de automóveis continuar a superar recordes e a falta de trabalhadores impulsionar o crescimento, ainda que cada vez menor, dos salários reais na construção e no turismo, o desencanto com um Governo em que dois terços dos portugueses não confia não deverá ultrapassar o desejo de evitar eleições, pouco mobilizadoras e geradoras de quadros de governabilidade muito incertos.
Neste cenário de modorra sem motivos de satisfação, perante um quadro internacional muito instável e o esgotamento da margem de manobra orçamental que permitiu a gestão em tom de campanha eleitoral dos dois anos anteriores, a única estratégia do Governo é a de comprar tempo, sem qualquer alteração na arrogância com que despreza o diálogo democrático com o PS, ou no reiterado engolir das aleivosias da extrema-direita, e a solução é a repetição do anúncio de brindes sempre em toada pré-eleitoral.
A moção de censura do Chega não pretendia resolver nada e foi afogada com 800 milhões de euros de promessas de uns trocos de alívio de IRS, em novembro, e um extra para os pensionistas para as prendas de Natal dos netos.
Enquanto os juros da dívida sobem, o Governo celebra a melhoria do rating da República, fruto das herdadas “contas certas”, e ganha fôlego com as receitas de IRS do pleno emprego e com o vilipendiado excedente da Segurança Social, sem esquecer os ganhos no IVA com a gestão hipócrita dos aumentos dos combustíveis, para mais estes dois anúncios de brindes de final de ano. Pela eficácia da discreta gestão politico-orçamental, o ministro Miranda Sarmento ganha o prémio Laranja sem Sumo da prevenção política do “cataclismo”.
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