Há uma pergunta que me faço cada vez mais vezes quando acompanho a política portuguesa: será que alguém pode preocupar-se em governar?
Não estou a dizer que os casos não interessam. Interessam. O poder tem de ser escrutinado, os erros têm de ter consequências e quem exerce funções públicas tem de prestar contas.
Mas talvez tenhamos confundido escrutínio com governação.
António Costa ganhou uma maioria absoluta. Tinha a estabilidade política que tantos governos gostariam de ter para poderem governar. Ainda assim, aquela maioria acabou consumida por uma sucessão de “casos e casinhos”, demissões e crises. TAP, Galamba, SIS, indemnizações, declarações, conflitos, Operação Influencer. A certa altura, já quase ninguém discutia o que o Governo queria fazer. Discutia-se quem tinha feito o quê, quem sabia quando e quem tinha de sair.
A história não terminou aí.
Mudou o Governo, mudaram os protagonistas, mas parece que continuámos presos à mesma fórmula.
Agora temos a Spinumviva, que chegou a provocar uma crise política e a queda de um Governo, apesar de a averiguação preventiva do Ministério Público ter, entretanto, sido arquivada por não ter sido encontrada notícia de ilícito criminal.
E temos agora o caso Luís Neves, que já ganhou vida própria: atrelados, contratos, património, auditorias, inquéritos, Tribunal de Contas, comissão parlamentar, moção de censura. Um verdadeiro novelo político.
Tudo isto merece ser esclarecido. Mas será que é isto que pode ocupar quase todo o espaço da política? Porque enquanto discutimos os casos, há um país à espera de respostas.
Podemos falar de habitação?
Não apenas da medida da semana ou do anúncio seguinte. Podemos discutir porque é que uma geração trabalha e continua sem conseguir comprar uma casa. Porque é que arrendar se tornou, para tantos, uma espécie de prova de resistência. E que país queremos construir quando uma parte significativa dos jovens não consegue imaginar uma vida autónoma.
Podemos falar do trabalho?
A Inteligência Artificial já está a transformar profissões e empresas. Não será altura de discutir o que queremos fazer com esta transformação, como vamos preparar trabalhadores, escolas e empresas e que impacto terá na produtividade, nos salários e no próprio conceito de emprego?
Podemos falar da Segurança Social?
Do envelhecimento, da natalidade, das carreiras contributivas e da sustentabilidade de um sistema que não pode ser discutido apenas quando chega a altura de apresentar mais uma conta.
Podemos falar da Administração Pública?
De como a tornar mais simples, mais rápida e mais capaz. De como aproveitar a tecnologia sem transformar o cidadão num número de processo. De como atrair pessoas qualificadas e deixar de confundir burocracia com Estado.
Podemos falar de saúde, educação, justiça, território, produtividade, demografia?
Podemos falar, enfim, do futuro?
É que a política parece ter-se transformado numa espécie de novela em que todos os dias precisamos de saber qual é o novo episódio, quem é o protagonista, quem falou com quem e quem vai sobreviver ao próximo capítulo. E talvez seja por isso que estamos a perder uma coisa essencial: a capacidade de discutir ideias.
Um Governo não deveria ser avaliado apenas pela sua capacidade de sobreviver a polémicas. Deveria ser avaliado pela capacidade de transformar o País.
E aqui não há uma crítica apenas ao Governo. Há uma responsabilidade que atravessa Governo, oposição, comunicação social e todos nós. Também nós consumimos política como entretenimento.
Queremos o escândalo, a declaração incendiária, a demissão, a polémica. O caso seguinte chega sempre antes de termos tempo para discutir o anterior. E os problemas estruturais, esses, não fazem manchetes todos os dias.
A habitação não deixa de ser um problema porque desapareceu da abertura dos telejornais. A Segurança Social não fica mais sustentável porque durante uma semana discutimos um ministro. A Administração Pública não se moderniza porque houve mais uma comissão parlamentar. O mercado de trabalho não fica preparado para a Inteligência Artificial porque conseguimos saber quem falou com quem.
O País continua lá. Talvez esteja na altura de exigirmos mais à política. Mais governação e menos sobrevivência. Mais estratégia e menos reação. Mais futuro e menos novela.
Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.