Há 25 anos, o mundo mudou duas vezes num dia 11. Primeiro, em setembro, de forma brutal e assustadora, com os ataques terroristas ao coração financeiro, cultural e político dos Estados Unidos da América. Depois, em dezembro, de uma forma que na época passou quase despercebida, quando a República Popular da China foi formalmente aceite na Organização Mundial do Comércio. O mundo em que vivemos hoje, com todas as tensões que conhecemos, teve origem nessas duas datas, separadas por apenas três meses – mas que iniciaram, de facto, o século XXI e a era atual, marcada por conflitos crescentes, com profundas alterações no equilíbrio geopolítico, nas relações comerciais e no nosso quotidiano.
Em setembro de 2001, com o mundo suspenso a acompanhar os acontecimentos em Nova Iorque e em Washington, houve um momento em que “fomos todos americanos”, unidos na mesma condenação de um ataque ignóbil, pensado e executado para ser visto em direto nas televisões. Rapidamente percebemos também que tinha chegado ao fim a época que parecia alimentar as esperanças de um futuro mais justo e assente em regras internacionais capazes de se impor aos ditadores. Poucos meses antes, tínhamos visto Timor Leste ganhar a sua autodeterminação, sob mandato das Nações Unidas. Como também assistíramos, na abertura dos Jogos Olímpicos de Sydney, em setembro de 2000, ao desfile inédito das duas Coreias, sob uma mesma bandeira. Pura ilusão, como descobrimos depressa.
O 11 de Setembro de 2001 marcou um antes e depois em relação à segurança, alterando para sempre os procedimentos em aeroportos e em locais públicos. E fez os EUA enveredarem por uma deriva maniqueísta, em que a linguagem diplomática tradicional foi depressa substituída por proclamações morais e religiosas, sob a batuta de figuras neoconservadoras como Dick Cheney, Donald Rumsfeld e Paul Wolfowitz. A chamada Pax Americana transformou-se numa guerra americana contra o “Mal” – que atingiu o limite com a invasão do Iraque, em 2003, sem mandato da ONU e que, ainda por cima, fraturou os aliados ocidentais e representou uma violação grosseira do direito internacional. Com isso, rapidamente os EUA perderam grande parte da sua autoridade moral como defensores da democracia e dos direitos humanos. Mas não só: o clima criado a seguir ao 11 de Setembro de 2001 acabou por remodelar, de forma transversal, o tecido social, as liberdades civis e a arquitetura institucional das democracias ocidentais. E fez crescer a islamofobia, de um lado, e o ódio à América, do outro. Aos poucos, descobrimos que vivíamos num mundo de espionagem em massa, em que já não se respeitavam acordos nem aliados.
Quase em simultâneo, quando milhões de pessoas por todo o planeta acompanhavam as investidas das forças especiais dos EUA nas montanhas do Afeganistão, em busca de Bin Laden, um outro acontecimento de elevado fator sísmico se desenrolava em Doha, no Catar: a 11 de dezembro de 2001, a China tornava-se oficialmente o 143º membro da Organização Mundial do Comércio. Era o culminar de uma longa negociação que se tinha prolongado por década e meia, sob os auspícios do Presidente dos EUA Bill Clinton e do primeiro-ministro chinês Zhu Rongji (recentemente falecido).
E foi também um dos piores erros de cálculo da História recente, fomentado pela ilusão, em Washington, de que a integração da China na ordem económica mundial iria conduzir, obrigatoriamente, a uma liberalização política em Pequim. Depois, ainda por cima, o 11 de Setembro e o início da “guerra ao terror” levaram os EUA a alterar as suas prioridades estratégicas: Pequim deixou de ser visto como adversário sistémico e tornou-se um parceiro necessário no esforço de guerra – e, mais tarde, fundamental para atenuar alguns dos piores efeitos da crise financeira global do final dessa década.
Enquanto os EUA gastavam milhões de dólares a construir bases militares pelo mundo, em guerras de que depois se arrependeram, a China construía milhares de quilómetros de linhas de comboio de alta velocidade, erguia infraestruturas em vários continentes e criava, em simultâneo, a maior classe média do mundo.
Observadas agora a um quarto de século de distância, estas duas datas demonstram como nem sempre os momentos mais marcantes da História são aqueles que prendem mais a nossa atenção. O 11 de Setembro de 2001 foi o aviso sonoro em relação às certezas de segurança do mundo ocidental, fazendo despertar a paranoia, o fecho de fronteiras e a vertigem da guerra. O 11 de Dezembro de 2001 foi o tiro de partida para o redesenho dos fluxos de dinheiro, do trabalho do comércio. O primeiro representou o fim da ilusão pós-Guerra Fria, o segundo lançou os alicerces sobre os quais se ergue a grande disputa geopolítica do século XXI.