1. Com frequência me lembro do Manuel António Pina. Penso nele por diversas razões, nem sei qual a dominante. O natural é mesmo variarem muito. Porque ele foi o poeta, o jornalista, o cronista, o dramaturgo, o autor de livros infanto-juvenis, o contador de histórias, o querido amigo, etc. Em tudo, de uma forma ou de outra, singular. Absolutamente singular. Também por diversas razões, algumas das quais não saberei explicar. Mas, fora de dúvida, com o enorme talento e a poderosa imaginação, a capacidade de ver as coisas sob uma perspetiva original ou sob diferentes perspetivas, o humor inteligente e a escrita tantas vezes encantatória.
Mas adiante. Se com frequência me lembro do Pina, como só assim os seus próximos o tratávamos, isso ainda acontece mais quando, por agosto e setembro, chego à Póvoa e a Freamunde. Porque por esta altura tínhamos sempre encontros marcados, uns jantarzinhos seguidos de conversas ou paleios graças a ele deliciosos, até às tantas. Graças a ele, em geral com a colaboração do nosso também comum velho amigo e camarada dos jornais Germano Silva, que em geral o acompanhava e em variadas histórias contadas pelo Pina fazia parceria com ele – sobretudo nas do Jornal de Notícias (JN), onde ambos sempre trabalharam. Por exemplo, histórias do velho chefe de redação, Manuel Ramos, 47 anos de “casa”, que dava ao Pina daquelas fotografias que nos jornais se usavam para encher espaço ou assinalar a chegada da primavera e do outono, coisas do género, dizendo-lhe para ele fazer as legendas… “no seu estilo paneleirinho”.
2. Uma vez, já lá vai bastante tempo, quando os dois chegaram à Póvoa, por um fim da tarde de agosto, disse ao Pina que tinha uma grande surpresa para ele: “Agora tens cá uma estátua!”. Ele, silencioso, piscou os olhos miúdos por trás dos seus inseparáveis óculos de aros finos, com o seu constante sorriso enigmático. “Vamos lá ver”, acrescentei. E seguimos pelo Passeio Alegre em direção ao Casino. No vasto espaço em frente, com os canteiros verdes dispersos, a fonte e os repuxos de água ao centro, quase na extremidade do lado norte, virado para o mar, lá estava: “Senhor Poeta”, escultura de Francisco Simões, em mármore branco da Turquia, 3,10 metros de altura. O bigodinho, os óculos, a quase calvície, o ar – para mim, o Pina; para o autor, Fernando Pessoa – como, aliás, inscrito na pedra.
A estátua foi oferecida à Póvoa pela Estoril-Sol, então concessionária do Casino, que decerto a comprou ao artista. Com quem sempre tive boas relações (e que colaborou no JL sempre que lhe solicitei), o que me permitiu dizer-lhe que para mim aquele era mais o Pina do que o Pessoa. Era, continua a ser e se necessário fosse essa constituiria mais uma razão para aqui ainda mais vezes me lembrar do amigo, do conversador e contador de histórias ímpar, do poeta de “todas as palavras”, do cronista…
3. É, o cronista… Absolutamente único, como o todo Manuel António Pina absolutamente singular. E foi o cronista que neste verão de 2015 ainda para mim o tornou mais presente: na memória, na leitura e no lamento. Lamento de não haver hoje a escrever – em particular em relação à realidade do país e sua política – crónicas, com “opinião”, como as que ele escreveu, até quase à sua morte, em 2012, com 69 anos. Como, ou sequer delas se aproximem: em qualidade, em criatividade, em concisão – e, assim, em eficácia, ou até contundência, com ironia ou mesmo sarcasmo mas sem agressividade, com a elegância possível.
Ora aconteceu ter a feliz ideia de incluir, entre os diversos livros que trouxe para ler, e em geral não leio, um que tinha a certeza leria, não do princípio ao fim, de forma seguida, sistemática, mas mais ao menos ao acaso, abrindo onde calhasse ou escolhendo pelos títulos dos seus 244 textos reunidos. Título do livro: Crónica, saudade da literatura. Antologia de crónicas de Manuel António Pina, publicadas entre 1984 e 2012, seleção e prefácio de Sousa Dias, Edição Assírio & Alvim em abril de 2013, ou seja: meia dúzia de meses após a morte do autor (e livro que, só me lembrei por umas notas nas suas margens, eu próprio “apresentei” no anfiteatro do JN, no Porto).
E, de facto, foi o que li com mais sabor e sempre renovado prazer. Considero o Pina, desde há muito, o melhor e mais completo cronista português – e quase a par, ou mesmo a par de Ruben Braga, de língua portuguesa. De resto os leitores iniciais da VISÃO decerto se recordam das admiráveis crónicas suas aqui publicadas. Não houve, aliás, nenhuma publicação em que tivesse funções de direção que não tivesse feito todos os esforços para ter o Pina como colaborador, só lamentando não o poder ter em exclusivo. E assim, por exemplo, colaborou no JL, jornal de letras, artes e ideias desde o nº 1 – além de, como poeta, lhe termos dedicado numerosas matérias e algumas capas, muito antes de lhe ter sido atribuído o Prémio Camões – uma boa surpresa, para ele completamente inesperada. E de lhe termos dedicado também uma capa quando saiu o atrás citado livro de crónicas, o único do “género” que teve esse destaque, em toda a nossa longa história.
(Aliás, considero a crónica um relevante género jornalístico, e em simultâneo literário. No Brasil com uma grande tradição e importância, em Portugal durante décadas – sobretudo durante a ditadura – quase inexistente, tendo depois tido uns bons períodos, para o que o JL deu um grande contributo; mas atravessando agora – como tudo na generalidade dos media?… – de novo um momento pior… Quando presidente do Clube de Jornalistas, tendo em conta aquela relevância, criamos um Prémio Gazeta também de crónica – em minha opinião mais tarde, por razões orçamentais, erradamente extinto, ao contrário do de Imprensa Regional, então também criado.)
4. Se a propósito do Pina se pode falar da “prosa dos seus versos”, também se pode falar, em certo sentido, da “poesia da sua prosa”, mormente de tantas das suas crónicas. Aliás, nas suas crónicas, além do escritor e poeta, está inteiro também o jornalista, a dimensão humana e cívica do homem e cidadão. Só a simultaneidade e globalidade destas várias condições e qualidades, a sua sábia, embora involuntária, simbiose ou mistura, explica a excelência do cronista.
E digamos que, voltando ao princípio, se tivesse que dizer porque tanto me lembro do Pina, esse aspeto humano e cívico teria uma presença significativa. E até, se calhar, até a teria, terá, aquela figura especial, tão “diversa”, do adorador de gatos e sportinguista ortodoxo, do homem culto e capaz de citar grandes autores de todas as épocas mas com a mesma naturalidade simplicidade com que fala de futebol, ao homem de convívio animado, divertido, com a morte sempre tão presente no mais profundo de si e na sua obra poética.
O Pina a que telefonava às vezes dizendo-lhe que esperava estivesse bem, por haver descoberto ter uma nova doença. Porque era o Pina que dizia: “Tenho todas as doenças, só não sou hipocondríaco”. O Pina, cuja obra toda importa (re)ler. E para isso, no que concerne às crónicas, editar uma nova antologia, das reunidas no volume atrás referido e nos anteriores.