Embora ainda não tenhamos entrado na “estação idiota”, a tradução possível para silly season, uma parte da Linha do Estoril, a ocidente de Lisboa, acordou sobressaltada, uma destas manhãs, por um alegado desembarque de migrantes. Afinal, eram alunos de remo, em plena aula. O episódio, que rapidamente entrou no vasto anedotário das redes sociais, chegou ao programa Isto É Gozar com Quem Trabalha, de Ricardo Araújo Pereira, na SIC, obtendo, assim, uma espécie de diploma, ou certificado, na consagração do templo televisivo da comédia nacional. Apesar de tanta hilaridade, nunca esteve tão certa a expressão popular que diz: “Não sei se deva rir, se deva chorar.”
Claro que optamos sempre pelo riso, mas o episódio levanta questões inquietantes sobre o grau a que chegámos de paranoia, introduzida pelas narrativas populistas anti-imigração. Se fosse há dez anos e alguém visse uma embarcação em aparentes dificuldades, a primeira coisa que chamaria não era a GNR, era o Instituto de Socorros a Náufragos, para que pudessem salvar potenciais vítimas de naufrágio, depois de um passeio inocente, num barco a remos… que terá corrido mal. Mas não: o que vemos na linha do horizonte, quando uma embarcação parece não conseguir sair do mesmo sítio, por falta de perícia dos remadores (ou correntes traiçoeiras…), é a ameaça potencial de uma invasão de marroquinos ilegais – ou pior, de subsarianos armados de telemóveis 4G e facas nos dentes. O que se passou resume-se às linhas inspiradas do Correio da Manhã que, com a devida vénia, transcrevemos: “Uma aula de remo, com seis alunos e um monitor, numa embarcação, ao largo de Oeiras, causou um aparato policial e de socorro pouco visto, na manhã de sexta-feira. O remar deveria ser algo descoordenado e quem viu e deu o alerta para as autoridades, pelas 8 e 50, disse que era uma embarcação suspeita e aparentava estar a assistir ou a um naufrágio ou a um possível desembarque de migrantes numa das praias da Linha de Cascais. Os meios das autoridades surgiram de forma célere: a PSP mobilizou um grande aparato para a zona; a Unidade de Controlo Costeiro da GNR também foi ao local; e a Polícia Marítima de Lisboa e Cascais ainda patrulhou a água e as praias. Nem sinal de migrantes, ou da embarcação. Mas o mistério ficou desfeito quando alguém reconheceu a embarcação já atracada na marina de Oeiras. Era o barco de uma escola de remo.”
No filme de comédia de 1966 de Norman Jewison The Russians Are Coming, the Russians Are Coming, traduzido para português como Vêm Aí os Russos, o comandante de um submarino soviético resolve levar a embarcação de guerra até um ponto na costa dos EUA, para satisfazer a curiosidade e espreitar o país “inimigo”. Mas o submarino encalha numa ilhota de Massachusetts. Os russos tentam pedir ajuda, mas os habitantes da zona acreditam que estão a ser invadidos pela União Soviética, o que provoca o pânico, ao ponto de se chegar à beira da III Guerra Mundial. Este foi um dos poucos filmes norte-americanos, em plena Guerra Fria, a tratar os russos de forma positiva. Nele transparecem uma grande humanidade, receios, preconceitos, ideias feitas, discernimento, solidariedade e emoções contraditórias, com a pacificação final, resolvido o mal-entendido. Surpresa: os russos eram pessoas como nós. Tinham medo, sentiam-se perdidos, precisavam de ajuda, eram capazes − e eram suscetíveis − de empatia. E o filme acabou por causar impacto em Washington e em Moscovo, sendo exibido no Kremlin e, segundo alguns relatos, levando mesmo às lágrimas alguns responsáveis soviéticos. A abordagem de Jewison terá contribuído para o clima de détente que se verificou pouco depois.
A pequena dose de adrenalina vivida pelos mirones da Marginal Lisboa-Cascais é o resultado de uma espécie de ansiedade coletiva paralela à retratada naquele filme. Uma ansiedade que resulta, lá está, de se verem demasiados “filmes” e de se tropeçarem em demasiados cartazes do Chega. Esta propensão para a “migrantofobia” tolda o juízo dos mais avisados: ninguém parou para pensar, no caso concreto, na improbabilidade do desembarque de migrantes na Praia da Torre, tendo eles tão extensos areais algarvios, disponíveis, muito mais perto de casa. E também há um toque suplementar de xenofobia: como são migrantes, nem remar sabem…
Regressando às referências cinematográficas: num antigo filme português, protagonizado pela imortal Maria Matos, a personagem interpretada pela histórica atriz, também atormentada por uma ameaça imaginária, exige a presença de um polícia. Mas tem de ser um polícia “de pêra”! Isto é, de barba, proprietário de apêndice capilar facial que sugira severidade, imponha respeito e provoque temor. Um polícia inequivocamente senhor de inabalável masculinidade. E lá lhe desencantam um agente da autoridade com a barbicha imponente que a situação, alegadamente, impõe. Mas a postura é dúbia: ele treme por todos os lados. E Maria Matos interroga-o: “Porque escolheu ser polícia?” E ele, olhando de soslaio, receoso, em todas as direções: “Foi por medo dos ladrões…”
Ao aparato policial destacado para a linha de praia da Marginal, impelido pelo medo dos migrantes, para a receção aos temidos clandestinos, só faltou um Carlos Moedas equipado com o colete da Proteção Civil e armado com a mesma determinação com que enfrentou os últimos “terramotos” de Lisboa. De resto, estava lá quase tudo: a PSP, com grande aparato; a GNR, com a sua Unidade de Controlo Costeiro; a Polícia Marítima de Lisboa e Cascais em intensa atividade de patrulhamento em terra e na água. Só faltaram a Brigada de Minas e Armadilhas e o deputado Pedro Frazão.
De uma certa forma, é preciso reconhecê-lo: o episódio da escola de remo serviu como um exercício de alerta contra a imigração ilegal. Cada um na sua função, o sistema funcionou: cidadãos exemplares deram o alerta. Unidades especiais ativaram o protocolo. Polícias competentes acorreram à ocorrência. O País fica descansado: as nossas águas territoriais, ao menos as que distam até 50 metros da costa, estão bem patrulhadas. Sorte tiveram os jovens remadores: não foram alvejados nem afundados pelos obuses da artilharia costeira. Lá chegaremos.
Os portugueses precisam de um break. Calma! Bem sei que a vida está cara, o gasóleo não para de aumentar, o salário não chega para a renda da casa, o novo código laboral vai permitir que um cristão seja despedido sem apelo nem agravo e o Governo contrata programas de Inteligência Artificial para elaborar rankings de jornalistas ativos nas redes sociais. Mas também não é preciso dramatizar nem inventar ameaças onde elas não existem, ao ponto de confundir uma aula de remo com uma operação de imigração descontrolada. Afinal, há valores seguros que nos ajudam a dormir descansados: os juízes do Tribunal Constitucional serão indicados pelos três partidos. O Presidente da República e, quem sabe, Fernando Jorge, o popular “Emplastro” das imagens televisivas, exigem mais rapidez nos apoios. E a casa de Espinho está equipada com betão de primeira. No resto, é circular. Não há nada para ver.