Na reta final da campanha eleitoral mais decisiva para o futuro da Hungria, o primeiro-ministro Viktor Orbán contou com alguns pesos-pesados para influenciar os eleitores: JD Vance, o vice-presidente dos Estados Unidos, rumou a Budapeste, levando consigo Jesus, as “leis de Moisés e as leis de Roma”, os “direitos naturais concedidos por Deus” (a saber: a vida, a liberdade e a propriedade), tudo isso para defender a civilização ocidental. “A forma como rezamos, como criamos as nossas famílias, o nosso sentido de lei e ordem e a forma como aplicamos a justiça. Todas essas são verdades enraizadas nas escrituras”, explicou Vance.
Fica aqui a faltar a forma como aplicamos o mandamento “ama o próximo como a ti mesmo”, o “vós sois todos irmãos e irmãs” (Mateus 23:8) ou o “aquele que nunca pecou atire a primeira pedra” (João 8:7), pois nenhum destes mandamentos se enquadra na forma como Viktor Orbán, que governou 16 anos, perseguiu imigrantes e homossexuais, manipulou o sistema eleitoral e o sistema judicial, silenciou à força a imprensa livre, substituindo-a pela sua propaganda. Acima de tudo, deitou-se na mesma cama com alguns dos grandes “demónios” do nosso tempo, como Vladimir Putin ou Jair Bolsonaro.
O povo húngaro, uma população de pouco menos de dez milhões de habitantes, mais do que banhos de civilização ocidental, estava a precisar de ar para respirar. Os valores desta grande civilização europeia que adoramos criticar mas onde amamos viver não ficaram, felizmente, presos nas “leis de Roma” – a democracia, os direitos humanos e a liberdade custaram caro e ainda custam todos os dias. É justamente a inestimável possibilidade de a criticar que a torna suportável. Seríamos mesmo felizes sob lideranças que nos impedem a expressão livre? Já nos esquecemos de como foi antes, de como o sufoco não vinha apenas das difíceis condições de vida, mas da proibição de as partilhar?
Na Hungria como na Europa, a questão não é esperar o Messias, D. Sebastião ou Godot para nos salvar e redimir. Péter Magyar, o homem que, no domingo, derrotou nas urnas Viktor Orbán, não é “algo completamente diferente”. Foi, aliás, formado no mesmo barro, nas fileiras do partido Fidesz, e o facto de ser pró-europeu não o torna o “bom da fita” só por si. Homem de direita, religioso, soube usar a primeira pessoa do plural de forma adequada no seu discurso de vitória. “Nós conseguimos! Juntos, derrubámos o regime de Orbán, juntos libertámos a Hungria.”
É a democracia, a mesma que Viktor Orbán tentou destruir durante anos com legislação que manipulava os círculos eleitorais de modo a garantir a sua manutenção no poder. Em resposta, os húngaros foram em peso às urnas, numa participação recorde que ultrapassou os 77%. O Tisza, partido de Magyar, conseguiu uma “supermaioria”, assegurando dois terços do Parlamento.
“O resultado da eleição é claro e doloroso”, reconheceu Viktor Orbán, enquanto as ruas de Budapeste se enchiam de multidões em festa. Depois desta noite, a vida até pode seguir dificílima como tem sido, com a economia estagnada, a enorme dependência energética da Rússia e os combustíveis a custarem os olhos da cara. Mas os húngaros sentiram que precisavam de respirar porque a ideia de liberdade é alimento primordial. Que Péter Magyar saiba estar à altura dela.