O filme Projecto Global, do realizador português Ivo M. Ferreira (n. 1975), chega às salas com a embaraçosa elegância de quem sabe que está a mexer num assunto que Portugal nunca resolveu lá muito bem: a violência política depois da Revolução dos Cravos, protagonizada pelas Forças Populares 25 de Abril, as FP-25, ao longo da década de 80. Não é um desses exercícios de memória domesticada que cabem bem em efemérides e discursos oficiais comemorativos, mas vem, de certo modo, repor alguma verdade e, sobretudo, mostrar a ambiguidade de um momento histórico que Portugal continua a preferir arrumar em gavetas mal fechadas. Dir-se-ia mesmo que é outra coisa: mais suja, mais complexa, mais desgastante. E, por isso mesmo, muito mais interessante de ver nas suas quase duas horas e meia de duração. Estreado mundialmente na competição Big Screen do Festival de Roterdão, Projecto Global acompanha Rosa, Queiroz e Jaime, militantes ligados às FP-25, e também Marlow, polícia e antigo amante de Rosa, num retrato ficcionalizado dos chamados anos de chumbo portugueses, com produção de O Som e a Fúria e da luxemburguesa Tarantula.
Portugal nunca fechou esta ferida
