“Esse decote é para mim?”; “Não me digas que não estás interessada. Afinal, vens de minissaia para quê?” Tentei ignorar as provocações. Respondia de forma esquiva. Não sabia como lidar com aquilo. E nem me parecia assim tão ameaçador até perceber que a minha rejeição podia ter consequências. Era uma miúda e, quando alguém mais velho e com muito mais currículo do que eu começou a tentar sabotar-me profissionalmente depois de ter deixado claro que não estava interessada nele, hesitei sobre o que fazer. Podiam não acreditar em mim. Podia parecer um delírio meu sugerir que havia alguma relação entre as apreciações ao meu trabalho e estas conversas privadas. Podiam achar que estava a fazer-me passar por vítima. Ou que era uma convencida, alguém que se achava irresistível. Todas as opções pareciam más. Mas acabei por falar com quem me chefiava. Uma conversa tida quase em surdina. Eu com a cabeça baixa, quem me ouvia apressando o fim de uma troca de palavras mutuamente embaraçosa e desconfortável.
Não aconteceu nada a seguir a isso. Quem queria prejudicar-me não conseguiu. Não foi feita nenhuma queixa formal, nem houve ninguém chamado à pedra. Não foi preciso. Quem me chefiava garantiu que quem me assediava não conseguia prejudicar-me. E isso bastou-me. Escrevi agora o verbo “assediar”, mas foi só uns bons tempos depois deste episódio que me apercebi de que tinha sido alvo de assédio sexual no trabalho. Dito assim, parece uma coisa pesada. Talvez mais pesada do que a senti. Mas, olhando para trás, percebo que só não saí prejudicada desta história porque trabalhava com pessoas que escolheram confiar em mim e proteger-me e que, acima de tudo, o meu trabalho já tinha dado provas suficientes para eu não poder ser posta em causa por quem queria prejudicar-me por despeito.
Não sou uma vítima. Não tenho feitio para ser vítima. Aprendi cedo a ter jogo de cintura, a ignorar o que não me interessa, a lutar por aquilo em que acredito, a olhar de frente quem tenta intimidar-me. Não sei se é sorte ser assim. Não sei se será fruto do caminho que fiz. Sei que nem toda a gente é assim. Nem toda a gente aguenta a pressão, nem toda a gente se esquiva dos golpes, nem toda a gente passa à frente sem ficar a remoer no que lhe dizem. E essas pessoas não estão erradas, não são fracas, nem têm aquilo que merecem.
Escrevo “pessoas”, mas devia escrever “mulheres”. E antes que venham dizer-me que há muitos homens que sofrem com isto (eu sei que há), deixem-me que vos lembre o que não passa pela cabeça de quase nenhum homem.
Ainda mal a puberdade desponta e passar por um andaime de obras é um pesadelo para uma menina. Quando os seios começam a notar-se, aprendemos a arquear as costas para não dar nas vistas, se não gostamos de comentários ordinários ouvidos nos corredores da escola. Sentimo-nos sujas e culpadas quando nos dizem coisas porcas na rua ou nos tocam num bar e ficamos paralisadas e sem reação.
Aprendemos a não andar com determinadas roupas em determinados sítios. Aprendemos a usar as chaves nas mãos entre os dedos, quando andamos sozinhas à noite. Aprendemos a pedir a alguém que nos acompanhe quando o caminho é escuro. Aprendemos a baixar os olhos quando apanhamos um transporte de noite. Aprendemos a partilhar a localização no telefone com amigos quando marcamos um encontro ou um motorista de TVDE nos deixa inquietas. Aprendemos a mandar mensagens às amigas a perguntar se chegaram bem a casa depois de uma noite de saída ou a enviar mensagens aos amigos a garantir que estamos já em segurança.
Aprendemos a desconfiar das mulheres que dão nas vistas. Aprendemos a não dar nas vistas. Aprendemos a viver com a desconfiança de ter subido na vida por ter ido para a cama com alguém. Aprendemos a ver a cumplicidade dos colegas homens, em saídas das quais somos excluídas. Aprendemos a ser postas em causa quando somos mães, porque nos dedicamos demais ao trabalho ou porque estamos sempre a sair demasiado cedo para ir buscar os filhos.
Se por esta altura do texto já se sentem cansados com a descrição, imaginem como se sente quem está continuamente a pisar o gelo fino da condição feminina. E pensem por um momento em como é difícil navegar por estas águas, antes de começarem com a conversa de “nem todos os homens” ou “isto agora não se pode dizer nada”, “estas gajas são mesmo umas flores de estufa”. Não, esta gaja não é uma flor de estufa. Nem confunde a sedução com o assédio ou o piropo com a ameaça. Não vale a pena confundirem tudo para fazer parecer que nada disto isto existe. Porque existe. E mesmo quem nega sabe que existe.
Na semana passada, Espanha ficou chocada perante os (muito gráficos) relatos de duas antigas trabalhadoras de Julio Iglesias que o acusam de assédio e abuso sexual. Iglesias é uma instituição espanhola. Acusá-lo do que quer que seja está, para muitos, ao nível da blasfémia. E deve ser preciso uma coragem imensa para alguém vir a público descrever situações que, não só são muito embaraçosas de contar (e de ouvir), mas que põem em causa a sacrossanta imagem de um ídolo nacional.
Logo começaram a circular imagens antigas do cantor num programa de televisão a tentar beijar à força uma apresentadora, sem se incomodar com o facto de tudo aquilo estar a acontecer em frente às câmaras, em cima de um cenário televisivo. E isso, se não serve para mais nada, serve pelo menos para ilustrar, por um lado, a impunidade de quem se comporta assim e, por outro, a complacência com que sempre se olhou para este tipo de comportamentos.
O mais impressionante foi, porém, a forma como a alcaldesa de Madrid, Isabel Díaz Ayuso, reagiu às notícias. “A Comunidade de Madrid jamais contribuirá para o desprestígio dos artistas e muito menos do cantor mais universal de todos: Julio Iglesias.” Deixo-vos um momento para pensarem na forma como uma mulher decidiu comentar quase de imediato as alegações feitas por outras duas mulheres.
E, para que não pensem que há aqui uma sombra de ataque a “todos os homens”, fica registado que o líder do partido de Ayuso, Alberto Núñez Feijóo, não alinhou pelo mesmo diapasão da madrilena. Feijóo disse-se “muito surpreendido” pelas “graves” acusações feitas ao cantor, pedindo que se aguarde pela investigação que entretanto foi aberta para “saber o que realmente há de verdade” nelas, como nos conta o El País.
O relatório Género e Violência em Portugal: Um Retrato da Desigualdade, Balanço Social 2024 cita vários estudos internacionais que situam as falsas denúncias de agressão sexual (e aqui estamos a falar de violação) entre os 2% e os 10%. Elas existem, claro. Mas o que nós não sabemos, nem temos maneira de saber, é quantas se calam, por medo, por vergonha ou por saber da impunidade de que gozam estes comportamentos.
Por isso, da próxima vez que decidirem atirar para a fogueira uma mulher que se queixa, pensem em como esse comportamento fará muitas outras calarem-se. E pensem se é mesmo isso que querem fazer quando saem em defesa de alegados agressores com a conversa do “ele a mim nunca me fez nada”, como se fosse preciso que o fizesse a todas para ser verdade que o fez a alguém. No mínimo, deem a quem se diz vítima o mesmo benefício da dúvida que dão a quem é acusado de ser agressor e se diz inocente. É capaz de não ser preciso mais do que isso para que alguma coisa mude.