O século XXI impôs uma nova métrica para a soberania das nações. A relevância geopolítica e a independência económica de um país já não se medem apenas pelas suas fronteiras geográficas ou pela sua capacidade industrial clássica, mas sim pelo controlo estratégico das suas tecnologias de fronteira.
Num mundo dividido por tensões nas cadeias de abastecimento e por uma corrida acesa pela liderança em Inteligência Artificial, biotecnologia e novos materiais, a Europa — e Portugal por extensão — enfrenta uma escolha existencial: ou se posiciona como um líder na produção de “Deep Tech” ou terá de se resignar ao estatuto de colónia tecnológica e regulatória das grandes potências globais.
O continente europeu, e Portugal em particular, detém uma enorme massa crítica de talento científico. Produzimos ciência de excelência, acumulamos conhecimento e dispomos de infraestruturas de topo. No entanto, o nosso ecossistema continua a falhar sistematicamente no passo mais crítico: a tradução desse génio científico em soberania económica e impacto industrial à escala global. Criamos propriedade intelectual que, por falta de visão estratégica e de escala, acaba frequentemente na gaveta ou por ser capitalizada noutras geografias. O diagnóstico é conhecido, mas a sua superação exige uma frontalidade que o debate público teima em adiar.
A soberania tecnológica não se decreta em gabinetes governamentais através de pacotes financeiros voláteis, subsídios de curto prazo ou quadros regulatórios asfixiantes que paralisam a inovação antes mesmo de ela sair do laboratório. A verdadeira independência constrói-se na solidez de uma estratégia unificada de longo prazo e na quebra radical dos silos institucionais. Nos ecossistemas globais mais competitivos, a premissa é puramente pragmática: os agentes competem intensamente no mercado, mas operam em bloco na defesa dos seus interesses estratégicos e regulatórios. No panorama europeu, e muito particularmente em Portugal, contudo, a tendência para o isolamento ainda prevalece, com universidades, centros de investigação e o tecido empresarial a funcionarem como ilhas isoladas.
Adicionalmente, a verdadeira “Deep Tech” caracteriza-se pela sua transversalidade e flexibilidade intrínseca. Uma tecnologia de base disruptiva não pode ser refém de uma única aplicação setorial. Por exemplo, plataformas avançadas de engenharia e biotecnologia não devem servir apenas o avanço da medicina personalizada. O seu potencial pode e deve ser canalizado com agilidade para outros setores, como garantir a segurança e resiliência dos solos na agricultura, otimizar a sustentabilidade alimentar ou responder a necessidades críticas nos setores da Defesa e da segurança soberana. Isolar estas áreas em gavetas burocráticas independentes é condenar a inovação à irrelevância económica.
O futuro pertencerá às geografias que demonstrarem agilidade regulatória e capacidade de cooperação em rede. Se a Europa não liderar na definição das novas regras do jogo científico mundial — por exemplo, na validação de novas metodologias regulatórias — limitar-se-á a adotar, de forma passiva, os padrões ditados por mercados mais agressivos.
O associativismo forte e as redes de cooperação institucional deixaram de ser uma opção corporativa para passarem a ser uma infraestrutura crítica de soberania. Se queremos colocar o conhecimento desenvolvido em Portugal na vanguarda do mundo, o ecossistema tem de ter a coragem de derrubar as suas barreiras internas e avançar em bloco. Só através de um ecossistema integrado e sem silos poderemos garantir que o talento estratégico permanece no País, transformando ciência em real poder económico e independência nacional.
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