Israel apresentou as três fases da guerra. Na primeira, em curso logo após o choque do ataque do Hamas, fez uso do seu poder aéreo destrutivo de infraestruturas e, inevitavelmente, de muitas vidas inocentes, capturadas pelas velhas táticas do terrorismo, que as expõem à morte sem remorsos, e pelo cerco gerado pelo controlo fronteiriço egípcio e israelita. Desde o dia 8 de outubro, cerca de um milhão e meio de palestinianos foi obrigado a uma deslocação forçada de norte para sul de Gaza, escapando como pôde à morte. A continuar esta fase da guerra, não é crível que estes, num fluxo contínuo pedido por alguns, aguentem muito mais sem ajuda humanitária de emergência, para a qual é necessário um cessar-fogo exigido por outros. No decorrer desta discussão, que nem sequer consensos alcança num e noutro grupo, como se viu pelo recente Conselho de Ministros de Negócios Estrangeiros da União Europeia, perde-se a janela de oportunidade para fazermos valer o mínimo de humanitarismo sobre aqueles que têm, também eles, de ser resgatados dos braços terroristas, sob pena de os estarmos a empurrar, irreversivelmente, para o seu colo. Não deixa de ser paradoxal que o poder financeiro da UE, campeã na ajuda a territórios palestinianos, não sirva como mecanismo de influência decisiva, quando se precisa mais dela.
É assim tão complicado antecipar uma posição articulada entre as instituições europeias sobre um conflito tão recorrente como o que opõe Israel ao Hamas, o quarto grande choque desde que, em 2007, este passou a controlar Gaza? É assim tão inusitado olhar para a crescente vulnerabilidade europeia perante os encantos energéticos e comerciais do Qatar, sem acautelarmos os riscos da proteção política que Doha tem dado à cúpula do Hamas? É assim tão surpreendente que o Irão mantenha ativa uma rede de cerco a Israel, do Líbano à Síria, do Iraque ao Iémen, depois de anos sem aproveitarmos as revoltas daquele povo jovem e corajoso contra a teocracia dos ayatollahs e de não termos conseguido reerguer a monitorização do seu programa nuclear, depois de Trump o ter rasgado? É assim tão estranho observar o cinismo dos países árabes para com os palestinianos, com solidariedades pífias, ajudas de circunstância e números diplomáticos tão eficazes como os que o Ocidente também protagoniza?