Com a secção ‘Sociologia do Quotidiano’ pretende-se tratar acontecimentos do dia-a-dia, através de uma análise dos processos do funcionamento e transformação da sociedade, dos diversos comportamentos e práticas (individuais e de grupos) da vida quotidiana, incluindo as interações sociais e políticas, onde se jogam os interesses (que por vezes conflituam) dos diferentes agentes sociais.
No tempo do Império Romano, havia uma festa dedicada ao deus grego Saturno, denominada de Saturnalia, que marcava o solstício de inverno. Era uma data muito importante para os povos agrícolas, como era o caso dos romanos. Uma festa popular, para agradar os deuses e para pedir que o inverno fosse brando e o Sol retornasse ressuscitado, no início da Primavera, marcando o renascimento da vida. Era um período de suspensão do trabalho, de visitar parentes e amigos, de ser generoso, solidário, de oferecer prendas. Isso lembra o Natal, não é?
No século IV, o politeísta imperador Constantino, influenciado pela sua mãe Helena, converte-se, oficializa o Cristianismo e nasce, assim, a Igreja Católica, que absorveu e ressignificou práticas pagãs diversas; neste caso, transformou o festejo pagão da Saturnalia numa celebração cristã. O Papa Gregório XIII, no século XVI, com a criação do calendário gregoriano, fez o resto. A partir daí, a data de nascimento de Jesus (que ninguém sabe exatamente quando foi) começa a ser, simbolicamente, celebrado pelos cristãos entre os dias 24 e 25 de dezembro.
Para além da adaptação de um mito politeísta romano numa prática cristã, nos tempos modernos, o Natal passou a ser difundido e valorizado por razões económicas. É hoje, na verdade, uma celebração ao ‘deus consumo’. Capturada pelo comércio, a data é para vender coisas, na sua grande maioria supérfluas. Uma agressiva propaganda na televisão, jornais, revistas, na internet, provoca uma azáfama, planos, listas de compras, centros-comerciais lotados, lojas abarrotadas de consumidores, ávidos para comprar. Este ano, nem a trágica pandemia do Covid-19 mudou este consumismo desenfreado. Por ironia, as prendas compradas são (quase) todas fabricadas na China (a fábrica do mundo), um país suspeito de ter criado a besta (o vírus) para ganhar ainda mais dinheiro.
O Natal é uma data favorita dos políticos, que, na generalidade, passam o ano a gerir mal os impostos dos contribuintes. É o momento de enfeitar e iluminar as ruas (esbanjando milhares de euros), mandar belas mensagens e participar em jantares junto com os pobres, com os sem abrigo, miseráveis estes que os próprios políticos e agentes do governo criaram (ou ajudaram a criar) ao desviar o dinheiro que poderia garantir a comida e o bem-estar deles o ano inteiro. É lógico que esta ‘solidariedade’ dos políticos deve ser sempre acompanhada por uma ampla cobertura da imprensa. Esperem para ver o exibicionismo televisivo.
É a época privilegiada também das pessoas famosas, do jet-set, atores/atrizes, jogadores de futebol, que passam o ano a ganhar milhões e a sonegar impostos (prejudicando os contribuintes e os mais pobres), também aparecerem na TV em programas ‘beneficentes’ para dar a entender que são caridosas com os mais necessitados. Os próprios canais de televisão, que criam linhas telefónicas e contas bancárias para pedir doações, são ‘solidárias’ com o dinheiro alheio. Mas ficam todos sempre bem vistos perante a sociedade. Mas não sejamos injustos. É o ‘espírito natalício’ que bate nos seus corações.
O que podemos fazer então para celebrar o Natal? Simples: é ser (genuinamente) solidário com os mais necessitados e, seguindo os verdadeiros ensinamentos de Jesus, respeitar e amar uns aos outros. E, se pensarmos bem, por que é que temos de esperar pelo Natal para fazermos isso? Ah, e o mais importante de tudo: não precisamos de dizer a toda a gente e postar nas redes sociais as fotos da nossa ‘generosidade’. Como estamos a falar de um evento cristão, consultemos o que a Bíblia diz sobre isso: “Guardai-vos de fazer a vossa esmola diante dos homens, para serdes vistos por eles… Quando, pois, deres esmola, não faças tocar trombeta diante de ti, como fazem os hipócritas… para serem glorificados pelos homens… quando tu deres esmola, não saiba a tua mão esquerda o que faz a tua direita” (Mateus 6:1-3).
Boas Festas!