A campanha para as Diretas no PSD está na reta final, com os candidatos a desdobrarem-se em entrevistas e várias ações internas até sábado. O mote para o day after já está lançado pelo atual presidente do Partido: se ele ganhar, é uma vitória dos militantes livres, se ele perder, é uma vitória do aparelho.
“Rangel conseguiu alguns apoios internos importantes e leva vantagem no aparelho, nas distritais – conseguiu Braga, Porto, Lisboa. Já Rui Rio tem uma máquina quase boca a boca a funcionar para captar votos e está a dar tudo na Madeira”, explica Mafalda Anjos. “Uma coisa é um Conselho Nacional, e outra é ganhar nas Diretas. Rangel até pode ganhar o partido, mas não ter o País. Basta olhar às sondagens, que dão um favoritismo a Rui Rio face a Rangel. É claro que ainda não provou o que vale em campanha legislativa e tem apenas dois meses para convencer, é muito pouco tempo. Cavaco Silva chegou e rompante e teve cinco meses.”
Ficam claras as diferenças entre os dois nas moções apresentadas, sendo a principal a estratégia pós-eleitoral de governação
Com a queda do governo, fruto do chumbo do orçamento, estas eleições serão marcadas pelo debate sobre como se vai governar o país. Com que partidos e com que alianças? “À direita, Rangel foi mais claro do que Rui Rio em relação ao Chega: traçou uma linha vermelha com e recusou acordos de incidência parlamentar. Rio coloca-se na mão de Ventura, que diz tudo e o seu contrário, ao dizer que o assunto está arrumado porque quer membros no seu governo e isso ele não aceita. Em relação ao PS, Rui Rio tem sido bastante transparente sobre as suas intenções: está disponível para viabilizar um governo socialista. Paulo Rangel tem insistido na busca por uma maioria absoluta, sem esclarecer acerca do que fará caso não vença e o PS tenha maioria relativa. “Será muito difícil a Rangel manter este tabu até ao final da campanha. As sondagens dão ao PSD com a direita sem Chega entre os 30% e os 35%. É natural que se pergunte o que vai fazer”, antecipa o jornalista Nuno Aguiar. Se vencer o PSD, Rangel “irá confrontar-se várias vezes com essa pergunta: viabiliza ou não um orçamento do PS?”
Mafalda Anjos discorda: “Estrategicamente, não lhe interessa falar agora nem tem de o fazer. Os acordos são feitos depois de lidos os resultados eleitorais e, nessa altura, procurar pontos de entendimento possíveis”.
O tema do bloco central está em cima da mesa, mas na verdade, não é disso que se trata, como sublinha Filipe Luís. “Ninguém está a falar em Bloco Central, nem Rui Rio. O que está em causa é a viabilização do programa de Governo e do Orçamento, do PS ou do PSD. Como Fez Marcelo, com os orçamentos de António Guterres, ou Seguro, com o primeiro orçamento de Passos Coelho”. E acrescenta: “O Bloco Central favorece o crescimento dos extremos? Não aconteceu isso, durante a única experiência de Bloco Central, entre 1983 e 1985, e foi possível recuperar o País da bancarrota. Mas a verdade é que, nesse período assistiu-se à implantação de um partido fora do sistema: o PRD, que teve, em 1985, cerca de 18% dos votos!…
Uma possível lição destes anos de liderança de Rui Rio é procurar perceber se é possível ser bem-sucedido tendo grande parte das elites do partido contra si, como também se está a assistir no CDS. “Rui Rio ostracizou uma série de pessoas que ocupavam lugares com bastante mediatismo no tempo de Passos Coelho. Basta ver na televisão e na imprensa quantos dos comentadores ligados ao PSD o apoiam”, refere Nuno Aguiar. “É sua responsabilidade agregar o maior número de pessoas. Está por provar que esta estratégia seja viável.”
Outro tema em análise no Olho Vivo foi a evolução da pandemia e as medidas de contenção que sairão hoje do Conselho de Ministros que começou esta manhã.
“Os números estão a subir, o natal está à porta, e o que correr mal agora pode fazer ganhar ou perder votos a 30 janeiro. É de saúde pública que falamos, sim, mas também de política. Não se trata de salvar o Natal, trata-se de salvar votos”, sublinha Mafalda Anjos.
“Tome as medidas que tomar, para travar a pandemia, o Governo está numa posição eleitoralmente delicada: se ‘fechar’ o Natal, é impopular. Se não houver restrições e correr mal, o impacto vai sentir-se durante a campanha eleitoral… É um timing terrível!”, diz Filipe Luis.
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