Na ilha do Corvo, nos Açores, com uma média de 400 habitantes, e até há poucos anos, com uma única “venda”, “ir às compras” nunca foi uma tarefa lúdica e uma oportunidade de convívio. E quando surgiram os catálogos, esse precursor das vendas à distância, manteve-se uma atividade solitária… pontuada pelo desalento do “isto não era bem assim na foto”.
Em Portugal, no final dos anos 1990 e no início de 2000, multiplicaram-se os centros comerciais e estes tornaram-se local de romaria de famílias e espaços de convívio de grupos de adolescentes. Eram espaços limpos e organizados, que contrastavam com os centros das cidades, desertos de pessoas, com muitos prédios abandonados.
O Chiado já não era o centro de vida do tempo de Os Maias e foi preciso a Troika, a lei do arrendamento “Cristas” e o boom do turismo para revitalizar a Baixa lisboeta. Mas as Baixas de Lisboa, do Porto e de muitas outras cidades por esta Europa tornaram-se parques temáticos… espaços para turistas, onde é difícil circular e as lojas são banais, entre o fast fashion e o souvenir. Estão mais bonitas, é certo, mas ainda um pouco longe de serem um chamariz para o convívio dos locais.
E por isso, no dia a dia, entre a intensidade turística da Baixa e um centro comercial incaracterístico, estamos cada vez mais, como os corvinos, sós nas compras. Já não folheamos catálogos, mas zombificamos no scroll infindável das muitas opções online. Encomendamos mais do que precisamos e devolvemos muito… pois as fotos continuam a prometer mais do que a realidade.
Regozijamo-nos com os preços mais baixos, sobretudo na cosmética e na perfumaria. Tudo conveniente, entregue na nossa porta, e por mais dois ou três euros, até no próprio dia ou no dia seguinte. Não surpreende que em alguns países perto de 40% das vendas já sejam online.
Esquecemos o outro lado da moeda. No Reino Unido, por exemplo, perderam-se 380 000 postos de trabalho no sector do retalho. Aumentou a procura de trabalhadores para armazéns e centros de distribuição, mas o tipo de trabalho não é o mesmo.
Multiplica-se a precariedade. Os horários em part-time, em períodos noturnos, fisicamente muito mais exigentes e onde a vigilância sobre o trabalhador é orwelliana… câmaras controlam os movimentos, a velocidade a completar as tarefas e os tempos de repouso.
A pegada ecológica também assusta. Entre o empacotamento (com cinco vezes mais consumo de materiais do que numa compra tradicional) e a entrega no domicílio, os custos ambientais acumulam-se.
Os fornecedores sabem que “time is of essence” e que tempos de entrega longos desmotivam compras futuras. Por isso não há uma gestão eficiente dos transportes, que circulam abaixo da sua capacidade, consumindo combustível e congestionando as estradas.
A fase da entrega em casa, “o last mile”, representa 53% dos custos logísticos. São as entregas e as devoluções, estas últimas são mesmo muitas: cerca do triplo das de vendas nas lojas tradicionais.
E nas devoluções, face ao custo de higienização, entre 10% e 40% (dependendo da categoria de bens, mas sobretudo no caso de cosméticos, sapataria e roupa) acabam em lixeiras e incineradoras.
A somar… as gargalhadas que perdemos a experimentar algo mais excêntrico, as conversas no café na pausa de repouso, as confidências que uma tarde de convívio proporciona.
Não sei se o habitante da ilha do Corvo, nos anos 90, transplantado de repente para 2026, partilharia este nosso fascínio pelo ecommerce… se não diria: “Mas porque não vai com a sua mãe ou os seus amigos deambular pelas ruas, partilhar um gelado e, eventualmente, comprar algo de que efetivamente precisa e que lhe fica bem?”
Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.