“Houston, temos um problema.” A frase do comandante Jack Swigert, quando reportou ao Centro de Comando da NASA uma explosão na nave durante a missão Apollo 13, ficou famosa e é frequentemente utilizada para anunciar uma emergência grave… um eufemismo que dilui a gravidade.
A reação à onda de calor que submergiu a Europa parece idêntica… Ups, temos um problema… Como se fosse uma surpresa o aquecimento global e não uma realidade científica que todos nos habituámos a fingir não ser assim tão grave.
A dimensão da catástrofe, que não ignoramos, é tão avassaladora que, individual e coletivamente, reagimos com um instinto de sobrevivência de curto prazo… Não falar… Não ver… Não ouvir.
Na Europa aprovaram-se regulamentos que obrigam as empresas a divulgar as suas metas de sustentabilidade, na esperança de que fosse o consumidor atento a optar pelas empresas mais “verdes”.
Nos Estados Unidos, contrataram-se empresas de publicidade que descobriram que as pessoas não se assustavam da mesma forma com a expressão “climate change” (alterações climáticas) e assim renomearam o problema.
Em ambos os casos o efeito foi semelhante. Não existe qualquer incentivo para as empresas alterarem os seus comportamentos. Pelo contrário, não obstante o problema já ter sido identificado no século XIX e desde, pelo menos, os anos 70 a ciência ter demonstrado o impacto dos gases com efeito de estufa, o consumo de combustíveis fósseis não abrandou. Pelo contrário, somos hoje ávidos consumidores de energia e de derivados do petróleo. E se há mais energia “limpa”, também há mais consumo. E a tendência apenas irá acentuar-se.
Afinal os data centers, que processam a nossa vida virtual e que irão permitir que os LLM se tornem ainda mais competentes e… imagine-se, até prometem resolver o problema das ditas “alterações climáticas”, são os mais recentes grandes consumidores de energia (e água).
Depois de, na Europa, o consumo ter caído durante 15 anos em resultado da introdução de equipamento energeticamente mais eficiente e dos choques provocados pela crise financeira de 2007/08, pela pandemia Covid-19 e pela invasão da Ucrânia, o consumo está a aumentar de forma exponencial. De acordo com o relatório elaborado pela Goldman Sachs em 2025, caso venham a concretizar-se todos os projetos de data centers já anunciados, o consumo de energia por tais centros será equivalente a 1/3 do consumo total na Europa, a níveis de 2024.
Os promotores prometem alimentar os data centers com energia “renovável”, mas estes usam a rede e esta também depende de energia fóssil, cujos custos, numa ordem internacional cada vez mais complexa, tendem a aumentar e não a diminuir, contaminando a fatura de pequenos e grandes consumidores.
Ao custo em euros soma-se o custo ambiental, esse sofrido por todos, mas não custeado pelas empresas que desenvolvem e exploram os modelos de LLM. É caso para perguntar o que ganha a Europa em aceitar a construção de data centers de big techs americanas?
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