Como combater o excesso de peso, o envelhecimento, a dor física? Como ser musculado sem ir ao ginásio, bronzeado sem idas à praia ou mesmo ao solário? Os influencers têm um Peptide (peptídeo) para si. Instagram, TikTok, WhatsApp foram nos últimos meses invadidos por um novo elixir da juventude e do bem-estar. Prometem fórmulas instantâneas para resultados que exigiriam muita dedicação…
A insulina é um peptídeo, assim como o semaglutido, presente em medicamentos como o Ozempic (aprovado para o tratamento de diabetes) ou Wegovy. Este e os medicamentos Saxenda (liraglutido) e Mounjaro (tirzepatida) são também peptídeos usados no tratamento da obesidade e do excesso de peso (informação disponível no apomeds.com).
Mas se estes medicamentos apenas podem ser receitados por médicos, que asseguram a sua utilização segura, os promovidos pelos influencers não são sujeitos a qualquer controlo de qualidade que garanta a pureza dos componentes. Não foram sujeitos a testes clínicos que tenham demonstrado a sua eficácia e a sua segurança. Não têm estabelecida nenhuma dosagem segura.
Nos grupos de WhatsApp circulam páginas de Excel a comparar peptídeos fornecidos por diferentes fabricantes chineses, e sugerem-se dosagens, que, aparentemente, terão sido eficazes.
Os frascos, comprados online, em sites promovidos pelos influencers (sem que estes revelem quanto beneficiam economicamente com a promoção), indicam que se destinam a utilização em laboratório e não são próprios para consumo humano. Vídeos no YouTube e no Instagram ensinam como realizar o preparado solúvel e injetar.
Poderíamos desconsiderar este frenesim com complacência… Meia dúzia de tolos dispostos a tudo. Mas a generalização do fenómeno revela muito sobre a confiança nas instituições, sobre a dificuldade do legislador em acompanhar o desenvolvimento tecnológico e das forças de segurança em combater a venda de substâncias, no mínimo, não aprovadas para consumo humano.
Foram os tech bros de Silicon Valley os primeiros grandes entusiastas dos peptídeos. Percecionam esta nova droga como inovadora e consideram que a sua utilização está a ser adiada pelos defensores da regulação… esses perigosos agentes antiprogresso. As plataformas, isentas de qualquer responsabilidade pelos conteúdos, não promovem a divulgação dos casos que correm mal. Afinal o algoritmo está desenhado não para esclarecer e informar, mas para nos manter online.
O círculo completa-se com o anonimato que as vendas online permitem. Um site, alojado num qualquer servidor, permite vender, com lucros, substâncias, para qualquer ponto do planeta, com um risco legal residual.
Na União Europeia, a legislação regula a comercialização de medicamentos, mas está elaborada para empresas e instituições que investigam e comercializam. O DIY (do it yourself – faça você mesmo) escapa à regulação.
Mas os riscos e custos, partilhamo-los todos. Não apenas porque todos suportamos o custo dos “tratamentos” que correm mal, mas porque implicam um risco de contaminação do meio ambiente. É, por isso, urgente não apenas regular o do it yourself na biotecnologia, com a introdução de regras mínimas, mas também responsabilizar as plataformas que aceitam ser um veículo para a promoção de substâncias não seguras para a saúde pública.
Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.