Com pompa e circunstância, Sam Altman anunciou, em março passado, que a Open AI tinha desenvolvido um novo modelo de LLM (os sistemas de Inteligência Artificial que permitem o ChatGPT e seus concorrentes) capaz de criar uma obra literária. O conto foi publicado e, de facto, não é mais uma pequena história criada pelo ChatGPT ao estilo de Shakespeare ou de outro autor de renome.
Sam Altman preferiu, no entanto, omitir como tal foi possível. Os bastidores são demasiado controversos, eticamente dúbios e envoltos numa batalha legal, que ofuscaria o brilhantismo tecnológico e nos poria a todos bastante ansiosos com o impacto de mais este avanço tecnológico.
No episódio I dos Ciber Piratas, tentei explicar como as Big Tech enriqueceram com base num modelo de negócio que, vendendo a nossa atenção aos comerciantes, pelo caminho transformou a forma como consumimos notícias, afetou a sustentabilidade do jornalismo, tornou as sociedades polarizadas e menos democráticas.
Na sequela desta saga, onde os protagonistas são os mesmos, os ganhos… e as perdas são ainda mais elevados.
As Big Tech estão a treinar os LLM com obras intelectuais – livros, artigos – sem pagarem qualquer quantia pelo uso dos mesmos. Para tal utilizam bibliotecas online ilegais, com livros e artigos pirateados. Nos Estados Unidos da América já por duas vezes a Library Genesis (LibGen) foi condenada em milhões de dólares e o seu encerramento ordenado. No entanto, não só não é possível identificar quem são os proprietários do site (e por isso as multas permanecem por pagar), como rapidamente abrem noutro endereço. Muitos continuam a utilizá-la, indiferentes ou inconscientes de serem cúmplices num crime.
Não apenas obras escritas são utilizadas ilegalmente, mas também outras criações artísticas, como música, obras de arte gráficas e plásticas.
Embora o prazo de proteção do direito de autor varie de país para país (regra geral, entre os 50 e os 100 anos após a morte do autor), a legislação foi pensada em termos de direito de reprodução – no caso da obra escrita e de música – ou de partilha da valorização económica da obra, no caso das artes plásticas, onde o preço inicial não reflete a posterior valorização, fruto do reconhecimento público do génio artístico.
Uma primeira ação judicial contra a Meta, a OpenAI, a Microsoft, a Anthropic (e outros) foi interposta pela Authors Guild, nos Estados Unidos da América. Dos documentos apresentados em tribunal já é evidente que a Meta utilizou a LibGen.
Mas não se trata apenas de uma remuneração pelo trabalho/génio artístico, a questão é mais vasta. A corrida para os LLM atingirem a inteligência genérica, como se de um humano se tratasse, está em marcha. Tal permitirá substituir grande parte do trabalho intelectual e criativo. O assalto não é apenas ao nosso passado coletivo, é ao nosso futuro como sociedade.
Importa, por isso, que a decisão de utilizar e de como utilizar a inteligência genérica não seja exclusivamente tomada pelos donos das Big Tech, mas sim por nós, através dos nossos representantes eleitos.
Ao contrário do que nos repetem incessantemente, dispor de uma tecnologia não nos obriga a utilizá-la, quando o consideramos eticamente condenável ou tememos o impacto na sociedade. É hoje tecnicamente possível clonar seres humanos, mas a legislação proíbe tal prática. Estamos à beira de clonar a inteligência humana, pelo que se impõe discutir se tal é eticamente legítimo e deve ou não ser permitido pela legislação. Impõe-se uma discussão alargada dos riscos envolvidos e medidas de mitigação, sobretudo em termos de impacto no mundo do trabalho. Urge tornar este tema dominante na agenda política, nacional e europeia. Só tal permitirá uma reação atempada das instituições democráticas, guiada pelo bem comum.
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