Crónicas d.C.
Há um mundo antes, durante e depois do novo corona vírus. A comunidade organiza-se, a sociedade reinventa-se e a economia treme. Entre manifestações comoventes de humanismo e vestígios desoladores de um certo “salve-se quem puder”, tudo parece indicar que testemunhamos um momento histórico com poder para reformular o modo como vivemos. É, portanto, tempo de observar, antecipar e repensar a realidade d.C (depois de Corona), no sentido de garantir que saímos desta crise para um mundo melhor.
A revolução está no ar, ainda a saga do vírus não vai a meio. No regresso à anormalidade, o mundo pode não ter mudado, mas mudámos nós, e aquilo que seria imprevisível há três meses bate à porta. Milhões de pessoas manifestam-se hoje, ao vivo e na Internet, pelo derrube de uma sociedade racista e desigual, clamando a derrota de Trump e dos seus aprendizes planeta fora. Não é uma moda, é um futuro. A Humanidade questiona os seus dogmas, os discursos fervem, polarizando-se, e desta efervescência surgem gestos necessariamente imponderados. Neste campo, é essencial que, pelo bem das causas, a inteligência e a racionalidade persistam.
Ser antirracista é o normal de que precisamos. O debate sobre a realidade moderna, erguida aos ombros de um passado colonial que se construiu à custa de impérios esclavagistas é positivo, independentemente de algumas posições tristes. É um avanço. Apesar de os palpites serem tão bons, como por vezes péssimos, ao que parece, estamos finalmente todos a falar sobre o assunto e esse é um bom primeiro passo.
Em Portugal, a mobilização é histórica pelo modo como, aos activistas de sempre, se juntam pessoas recém-formadas na arte de sonhar com um mundo diferente. Mesmo admitindo que há, muitas vezes, algo de superficial em quem descobriu agora a pólvora, o momento é de viragem. Coragem! Nas ruas, há gente para quem a manifestação de sábado foi a tal primeira vez que nunca se esquece e há motivos para acreditar que terá sido apenas a primeira de muitas. Poderá este fenómeno ser a primeira grande consequência da Primavera COVID? Não sabemos. Há, todavia, razões para crermos que a pausa imposta pela pandemia nos fez questionar o ar que respiramos.
Saltemos para o centro da polémica do dia: as estátuas. Nunca objectos inanimados geraram tanto movimento. Em Bruxelas, a estátua de Leopoldo II, monarca cujo governo foi responsável pela morte de cerca de 10 milhões de congoleses, foi retirada da rua e transportada pelo município para um museu, depois de anos de contestação popular. Em Bristol, a estátua de um traficante de escravos foi atirada ao rio por um conjunto de manifestantes, à vista de todos. Em Londres, o mayor Sadiq Khan concordou em rever as estátuas feitas em homenagem a figuras diretamente envolvidas na escravatura, alinhando no debate sobre se é legítimo que esta homenagem se mantenha em 2020, como resultado da contestação aberta da comunidade. Esta é a questão principal na matéria. Não se trata de “apagar a história”, mas de a questionarmos. Continua a fazer sentido homenagear um traficante de escravos num jardim público, em 2020? Seja qual for a nossa opinião, esta é uma base de diálogo viável e honesta. É interessante pensar nisto. Na verdade, a interrogação é importante, remexendo a nossa relação com o passado no sentido de construir o presente. Porém, em Portugal, a história é diferente: alguém – sabe-se lá quem – pegou numa lata de spray e pintou a estátua do Padre António Vieira, na calada da noite. Aqui, faltam-nos condições para debater, logo a partir do momento em que não sabemos quem o fez, por que o fez, nem quantas pessoas se revêem no gesto. Terá sido um antirracista, de cabeça perdida? Alguém da extrema-direita, tentando descredibilizar a causa? Um internauta aborrecido, movido por hashtags? Lá está. É tão legítimo atribuirmos o ato a um militante de um movimento dito adulto, como a um miúdo gozão, na idade do armário, que se excitou com um episódio dos Simpsons. É um terreno movediço, não fazemos ideia. Todos os motivos são válidos para questionar um monumento público e esta estátua em particular – que suscita, desde o primeiro momento, bastantes dúvidas – mas algo cheira a esturro nestas pichagens anónimas. Quem se opôs à instalação da estátua em 2017 fê-lo publicamente, exercendo um direito (e até dever) cívico. Quem escolheu vandalizar a estátua em 2020 como quem escreve Benfica Sempre na parede de uma casa de banho fê-lo com outra intenção. Um é um movimento cidadão de questionamento do espaço público, com o qual podemos concordar ou não, outro é no máximo extremismo, no mínimo parvoíce. Ao fim e ao cabo, também é história. Não há mínimos sequer para entrar na polémica sobre a figura do Padre António Vieira. Ainda assim, é possível desvendar neste episódio uma diferença fundamental: o espírito crítico que almeja a mudança social, construído e alimentado pelo pensamento e pelo debate, não convive com o extremismo bacoco, nem com a cobardia das latinhas de spray, agitadas no breu. Os extremismos são inimigos das causas verdadeiras como o antirracismo e o combate às desigualdades, descredibilizando-as junto da população, aniquilando o debate. Basta ver que os primeiros a tentar tirar dividendos do incidente com a estátua foram os poucos tontos da nossa extrema-direita, nas redes sociais. No dia seguinte, uma mão “anónima” lançou uma petição online para demolir o Padrão dos Descobrimentos. Não será evidente quem tira partido destas polémicas? Quem terá interesse em que a opinião pública acredite que os antirracistas são uma turba de vândalos descontrolados?
Para que a nobre causa da inclusão seja ela própria inclusiva é central que os discursos de mudança e as instituições sérias se demarquem das histerias de uma minoria de radicais. Aqui, não se trata de arrefecer um movimento que se quer, e é, revolucionário e transformador, mas de o conceber sem deixar que o radicalismo dite a sua sabotagem. Muitos querem ver a esfera terrestre a tremer, é claro. A injustiça secular, o desespero e a sensação de que não temos nada a perder conseguem despertar em nós um certo gosto pelo cheiro a napalm pela manhã. Como é óbvio, ninguém tem o direito de dizer a alguém como deve revoltar-se contra as injustiças que sente na pele – não é disso que falo aqui.
Por cá, será tempo de reconhecer que sopram ventos de mudança e que impera fazer por não deitar tudo a perder em impulsos mecânicos. O desafio é gigante, em especial numa causa que mexe tanto com todos. Escolhermos o nosso papel na história também é isso.