A imaginação ao poder. Eis o que clama, nesta entrevista à VISÃO, Graça Fonseca, 55 anos, ex-ministra da Cultura (2018-2022), ex-secretária de Estado da Modernização Administrativa (2015-2018), ex-vereadora da Câmara Municipal de Lisboa dos pelouros da Economia, Inovação, Reforma Administrativa e Educação (2009-2015) – sempre com António Costa –, e agora chief imagination officer da Futura Foundation. A também socióloga é cofundadora da novel instituição (reconhecida pelo Governo há apenas nove meses) com um casal norte-americano de filantropos – a médica Ruth Shaber e o jurista e poeta Glenn D. Barnes, que escolheram Portugal para viver e que a financiam. Ponto de partida: “Não conseguimos fazer o que não conseguimos imaginar”, diz Graça Fonseca. A principal iniciativa será uma “residência dedicada ao futuro”, durante um ano e só para mulheres de “elevado talento”. Porquê só mulheres? Leia-se na entrevista a convincente resposta. Com extensão à cultura, através da publicação da The Lisbon Literary Review, a Futura foge do “curto prazo”, dos “próximos 30 segundos de uma rede social”, exemplifica a ex-ministra.
Em que circunstâncias apareceu a ideia de criar esta fundação?
A ideia surgiu quando conheci a Ruth Shaber, que já tem uma fundação nos EUA. Ela vive em Portugal há uns anos e, quando fomos apresentadas, perguntou-me qual era, na minha opinião, o desafio mais complexo de Lisboa e do País. A Ruth é uma pessoa muito particular, que se apaixonou por Portugal, de que fez a sua casa, e tinha uma grande vontade de fazer um give back ao País. Ela queria perceber como é que podia contribuir para isso. E eu, na altura, o que lhe disse foi que, na minha perspetiva, o maior desafio era a crise habitacional, por todo um conjunto de razões, de sociais a económicas. A partir daí, começámos a falar sobre que projetos e programas poderiam contribuir para apoiar pessoas mais jovens, que não conseguem viver na cidade de Lisboa – nem sequer conseguem arrendar casa. Falámos sobre o que poderia ser desenvolvido para dar uma parte de uma resposta – naturalmente, não se pretende resolver todo o problema, não é possível – a partir de uma fundação. E foi assim que surgiu a ideia. Constituímos um grupo de pessoas de diferentes nacionalidades que, à volta de uma mesa, começou a desenvolver a ideia de haver uma residência dedicada ao futuro, focada em mulheres em início de carreira ativa. De que maneira podemos imaginar o futuro de uma forma diferente? Que ferramentas são necessárias, e como é que podemos construí-lo? A partir de questões como estas, o projeto foi-se desenvolvendo.
Para lá da ideia da “residência dedicada ao futuro” que referiu?
Sim. O que inicialmente era uma ideia de uma residência – num prédio em Lisboa, que vai agora entrar em obras – cresceu para algo que é muito mais vasto do que apenas um local de residência. Ao longo do tempo, fomos imaginando o que era necessário para criar uma fundação de que o País poderia beneficiar. E, hoje em dia, a Futura é muito mais do que apenas uma casa.
Há quanto tempo exatamente a fundação está em atividade?
O caminho tem pouco mais de dois anos. Mas a fundação só foi reconhecida pelo Governo em novembro passado. Nunca é simples e rápido constituir uma fundação. Demorámos mais de um ano até termos o reconhecimento.
A quanto ascende o orçamento de arranque?
Ronda os 500 mil, 700 mil euros. Estamos em fase de instalação e, naturalmente, o foco do investimento no que é o projeto acontecerá mais a partir do momento em que tivermos constituído o prédio em que iremos funcionar. Os números que referi não incluem, claro, as obras no prédio. Quando esse edifício estiver pronto, aí sim, o tema financeiro e orçamental é mais elevado. Estamos basicamente a construir uma residência para 12 mulheres.

E há condições para o orçamento crescer?
Há.
Obtidas como?
Já respondo, mas não acho que esse seja o ponto mais importante do projeto. Neste momento a fundação é um projeto da Ruth e do seu marido, o Glenn Barnes, que decidiram fazer um investimento em Portugal de filantropia, de mecenato puro e duro. Por exclusiva decisão deles, a fundação depende do investimento que conseguem e querem dar.
Falou na construção de uma residência para 12 mulheres. Porquê esse descartar do masculino, que pode ser encarado como uma discriminação de género?
Não há nenhum descartar do masculino.
A “residência dedicada ao futuro” que referiu é só para mulheres, como disse…
Sim, mas a comunidade é bastante diversa. Explicando o projeto de forma mais pormenorizada, a fundação tem como missão ser um lugar onde se imagina o futuro. Nos tempos em que vivemos, estamos focados no presente, nos próximos 30 segundos de uma rede social. Na fundação acreditamos que esse é um dos principais problemas que a sociedade e a Humanidade têm. Não conseguimos ter locais onde as pessoas têm espaço, ferramentas, apoio e comunidade para poder imaginar o futuro. Pensemos, por exemplo, no problema do plástico nos oceanos. Para tentar resolvê-lo temos duas maneiras possíveis: ou desenvolvem-se soluções hoje, com o que se conhece no presente, ou procura-se construí-las a partir de ferramentas que existem e que nos permitem antecipar o futuro. Havendo uma solução que pode representar um avanço na remoção do plástico dos oceanos, como se faz o desenvolvimento até lá, mesmo que seja em 2075? Esta é a missão da Futura – partir de uma pergunta. Quais são os principais desafios de Portugal a 50, 100 anos, problemas esses que têm relevância global na democracia, no clima, na biodiversidade, na coesão social, na igualdade? Consideramos que estes são os grandes desafios do País e da Humanidade, e, a partir da pergunta, a Futura construirá uma comunidade e dará instrumentos para que um grupo de mulheres portuguesas, até aos 35 anos, possa estar durante um ano, nas nossas instalações, a pensar em respostas e a desenvolvê-las. Este fellowship inicia-se em 2027/28 e, como apoio, a comunidade integrará mentores e patrocinadores, homens e mulheres.
Voltando à questão anterior: porquê só mulheres na admissão para a residência?
Por várias razões, além de que as organizações fazem escolhas e a nossa é só por mulheres. Isto tem também muito a ver com a história da Ruth, que é ginecologista de formação e trabalhou sempre muito com os direitos das mulheres. Atualmente, nos EUA, é investidora em projetos liderados por mulheres, e publicou um livro sobre os efeitos positivos que ocorrem quando assim acontece. Isto por um lado. Por outro, e olhando para as estatísticas do País, dou apenas um exemplo: Portugal está nos lugares cimeiros quanto à apresentação de patentes por mulheres. E porquê? Porque a Academia no País é muito feminina, as mulheres são maioritárias na entrada no Ensino Superior e, a seguir, nas carreiras de investigação. Mas, depois, nas patentes registadas pela indústria em Portugal, verifica-se que elas são maioritariamente masculinas, de projetos liderados por homens. Há uma perda evidente do talento feminino. Com o nosso projeto, embora limitado, parece-nos que podemos contribuir para contrariar essa enorme perda de talento feminino que existe numa determinada fase, pós-universitária e no início da vida ativa, que as estatísticas indiciam. Daí a residência para mulheres, em que vamos selecionar candidatas com talento, potencial e paixão para, quem sabe, desenvolver aqui uma solução inovadora, disruptiva, no tema da democracia ou no da astrofísica, dependendo daquilo em que estiverem a trabalhar. Haverá uma oferta curricular sobre literacia do futuro: o que é isto de imaginar o futuro, quais são as ferramentas para o fazer. Depois, os patrocinadores, homens e mulheres, vão apoiar o grupo no que pode ser, por exemplo, a entrada no mercado e a ligação à indústria ou a um centro internacional da área em que trabalham.
Através de startups?
Não. A ideia não é de incubação nem de empreendedorismo. Não é de todo desse universo. A Futura quer ser, no fellowship, o espaço onde mulheres de elevado talento têm, pelo menos durante um ano, os recursos para poderem construir um projeto, uma ideia de futuro, de acordo com o que quiserem do ponto de vista das suas carreiras, do seu trabalho e das suas formações. Isto numa fase da vida em que o País mais talento feminino perde.
Como é possível ter ideias passíveis de aderência à realidade concreta num prazo tão longo – daqui a meio século, por exemplo?
Existem ferramentas para isso. Aliás, as faculdades de Economia e Gestão têm cursos chamados de foresight, que estudam tendências e antecipam como se consegue construir um caminho até uma determinada situação no futuro. Mas há um ponto muito importante aqui que é este: não conseguimos fazer o que não conseguimos imaginar. Se continuarmos assim, não conseguiremos sair do curto prazo em que todos vivemos. Pela forma como o espaço e o tempo se comprimiram nesta contemporaneidade, perdemos a capacidade de imaginar. E será cada vez pior, porque a Inteligência Artificial vai retirar ainda mais espaço às novas gerações para a imaginação – que é algo fundamental e que tem ferramentas científicas para se concretizar. Mas não usamos essa capacidade para transformar a vida da sociedade, dos governos e das organizações, apesar de as Nações Unidas considerarem a literacia do futuro como uma das qualificações cruciais do século XXI.
A ideia de espaço para imaginar soa algo romântica…
Pode parecer uma coisa que não se percebe bem, mas há que ver que no nosso dia a dia não paramos para pensar, não paramos para imaginar, os governos não param para imaginar. Não há tempo para isso. E, às vezes, imaginar é tão fundamental como algo que pode parecer mais concreto. Costumo dar este exemplo: as portas automáticas, que hoje vemos com grande naturalidade, tiveram origem em filmes de ficção científica. Há muitas outras coisas na nossa vida que só existem porque alguém as imaginou num mundo que não era o mundo da nossa realidade quotidiana. Por isso, para nós, na Futura, é muito importante ter este espaço de imaginação e de tempo. Para saber, por exemplo, se é possível recuperar uma espécie que desapareceu há 50 anos. Se calhar, não é possível. Mas o ato de imaginar, ter tempo para imaginar, para falar com outros, ter uma comunidade com quem se pode discutir a ideia, falar com os cientistas, só isso pode abrir a porta ao desenvolvimento de algo inovador. O construir, como já sublinhei, tem de começar pelo imaginar. Se não for assim, não se consegue fazer.
Recentemente, no Porto, a fundação organizou a primeira sessão de uma iniciativa itinerante a que chama Máquina do Tempo, para que os participantes dissessem como querem que a cidade seja em 2050. Foi profícua?
Sim. Enquanto o edifício onde irá ficar a sede da fundação e a residência não estiver pronto, decidimos fazer um conjunto de programas e de projetos que permitem trazer já para o terreno o tema de imaginar o futuro, e de qual é a sua importância. Porque também faz parte da missão da fundação ser um local de pensamento estratégico, onde reside o conhecimento do que está a acontecer, incluindo projetos em Portugal que já estão a pensar no futuro. Com essa iniciativa, a Máquina do Tempo – que, depois do Porto, passará, em outubro, por Coimbra, e, em 2027, por Évora e por Lisboa –, temos o objetivo de trazer as pessoas para a ideia de que o futuro deve ser participado. Ou seja, a ideia de que cada um de nós pode e deve fazer parte deste movimento de construção de um futuro diferente. Na Máquina do Tempo, que decorre durante dois dias, há um processo que se chama “futuro participativo”, em que convidamos os participantes a juntarem-se e a desenharem o mapa do futuro da cidade onde estamos. E, da parte da manhã, fazemos um minifellowship com mulheres, como já aconteceu no Porto, para estudarmos melhor as nossas ideias. Depois, no final, entre o trabalho das fellows e o dos participantes, uma nossa equipa constrói as ideias das pessoas, como sucedeu no Porto. Entregámos o que designamos de “mapa” ao reitor da Universidade do Porto, Pedro Teixeira, nossa parceira nesse evento, e à vice-presidente da Câmara Municipal, Catarina Araújo [que também tem os pelouros de Urbanismo e Espaço Público e de Ambiente e Sustentabilidade].
No essencial, que propostas estão nesse “mapa”?
Cada cidade tem um desafio diferente e no Porto foram as políticas azuis e verdes, ligadas à estratégia de biodiversidade e de relação com a água. Já em Coimbra, será a cidadania. No Porto, debateram-se estratégias para um cenário em que sabemos que o aquecimento global terá um impacto gigante sobre as cidades. Por exemplo, um dos nossos convidados nesse evento, o professor José Miguel Lameiras, que trabalha muito sobre o tema das cidades resilientes, tem o projeto de transformar a VCI [Via de Cintura Interna, no Porto e em Vila Nova de Gaia] numa infraestrutura verde. Ele demonstra como as cidades têm um problema muito complexo face às ondas de calor. E como devem desenvolver soluções para as enfrentar. Nesse mapa do Porto existem várias: os abrigos climáticos, os espaços verdes a “x” metros de cada bairro, como deve ser feita a integração da infraestrutura verde na cidade, e por aí adiante. O que pretendemos é que estas ideias das pessoas se transformem na visão para o futuro da cidade, que possam inspirar, neste caso na Câmara do Porto, as soluções que estão a ser desenvolvidas. A vice-presidente da Câmara do Porto disse-nos que muitas das propostas que estão no “mapa” são ideias que, de alguma maneira, têm estado a ser pensadas e escutadas dentro da autarquia. Vamos ver agora a evolução.
Uma ideia de futuro sua, o Orçamento Participativo Nacional, que tentou que avançasse como secretária de Estado da Modernização Administrativa, e que seria exemplar único no mundo, soçobrou. Como encarou essa adversidade?
Com naturalidade. Lá está: o facto de os governos e as organizações viverem no pensamento e em políticas de curto prazo remete para como a contemporaneidade se encontra a ser desenvolvida. Se calhar, foi um projeto que não apareceu no tempo certo. Mas estou convencida de que voltará. A cidadania não pode limitar-se ao exercício do voto em eleições, de quatro em quatro anos. É para ser exercida todos os dias. Esse é também um dos objetivos da Futura: envolver os cidadãos nesta ideia de imaginar o futuro, um passo fundamental para mudar o que hoje, no presente, está a acontecer.
Quem olhar para os perfis dos fundadores da Futura dirá que é uma instituição politicamente de esquerda. Concorda?
Não. A fundação não tem orientação política, nem partidária, nem outra alguma. É constituída por pessoas que defendem a democracia, como um sistema em que todos nascem livres e iguais. Aqui preocupamo-nos com o futuro do planeta, com a relação entre nós e todos os seres. Portanto, a fundação tem um conjunto de preocupações universais, nessa perspetiva. Não é de esquerda ou de direita. Aliás, conheço muitas pessoas de direita que defendem exatamente o mesmo. Esse, para nós, não é um tema. O nosso tema são os valores que partilhamos, humanistas e de progresso.
O cargo que ocupa na fundação tem a curiosa designação de chief imagination officer. Que funções são essas?
Procuro trazer caminhos que nos permitam sair do habitual e imaginar futuros diferentes que não sejam vistos como exercícios de ilusão, de magia, de ficção científica, o que for. Sinto há muitos anos que vivemos demasiado presos ao presente. O curto prazo aprisiona-nos, não nos permite ir mais além, não nos permite imaginar algo diferente. Por exemplo, a Ciência é clara quando diz que a Europa é o continente que está a aquecer mais. Neste momento, onde se prevê um aquecimento global de mais dois graus, na Europa pode significar mais três. E sabemos que a maioria das pessoas vive nas cidades, e que as cidades são locais onde o aquecimento se sente ainda mais. Porque também sabemos pela Ciência que o facto de vivermos em locais que são alcatroados com cimento faz com que as cidades sejam mais quentes do que qualquer outro sítio onde se possa estar. A partir daqui, esperamos que existam soluções e que se tomem medidas para que o que a Ciência nos diz seja aplicado e transforme a nossa vida na cidade. Exemplo: nos Países Baixos, a ideia da despavimentação tornou-se quase um desporto nacional. Há concursos para verificar qual foi a cidade que despavimentou mais. E há locais onde tiraram o pavimento e passaram a deixar que a terra voltasse, que a natureza regressasse, e só isso significa menos dois graus nos dias mais quentes nesses sítios. No nosso país, temos também de começar a pensar assim: e se, em vez de repavimentar, deixássemos que um curso de água que foi interrompido voltasse?
Como se pode convencer as nossas populações da bondade de mudanças como essa?
O professor José Miguel Lameiras diz muito isto: uma ideia um pouco mais disruptiva tem tipicamente um período de maturidade social de dez anos. Ou seja, desde que é colocada no mundo até que consegue ser concretizada, e as pessoas aceitam que é uma boa ideia. Mas às vezes tem de se começar com projetos mais pequenos, que permitam, por exemplo, que uma família vá passear de bicicleta sem receio dos carros, num lugar que era de uma estrada secundária, e onde, se uma criança cair, não se magoa no alcatrão. “E se?” – esta é a pergunta que deve começar por se fazer às pessoas.
Qual é a razão para o inglês predominar na linguagem e na comunicação da instituição, quando é uma fundação portuguesa?
A Futura, na verdade, é uma fundação portuguesa e americana. Não temos qualquer espécie de apoio público, nem pretendemos ter, e a fundação é financiada por um casal norte-americano que escolheu Portugal para viver e que acredita que a maneira de contribuir para a comunidade onde vive é investir no talento local, nas equipas locais, em compreender quais são os desafios locais e ajudar a encontrar soluções para esses desafios, e fazê-lo de uma forma absolutamente desinteressada, sem esperar qualquer espécie de troca. Por isso, na Futura, o inglês e o português têm ambos um papel muito importante, porque refletem esta ligação, esta construção conjunta.