O dia de trabalho acabou e está sentado no sofá. Baixou os estores para escurecer um pouco a sala e a televisão está desligada, a acreditar no que o ecrã lhe diz. Pelo menos antigamente era assim, desligar a televisão significava exatamente aquilo que parecia: desligar a televisão. Hoje, talvez a questão seja um pouco mais complexa, porque aquele aparelho que continua em destaque na nossa sala já não é apenas uma televisão. É um dispositivo com ligação à Internet, com aplicações, capacidade de comunicar com outros equipamentos e, em alguns modelos, microfone e reconhecimento de voz. O último grito em conforto para o utilizador. Por outras palavras, pensamos que comprámos uma televisão, mas trouxemos para casa mais um computador.
Uma investigação recente colocou novamente esta questão no centro da discussão. Segundo os investigadores, alguns televisores inteligentes, de uma conhecida marca, analisados durante os testes, identificavam equipamentos existentes na rede doméstica. A investigação levantou ainda questões relacionadas com recolha de áudio, reconhecimento de conteúdos e informação utilizada para fins publicitários. A marca em questão contesta várias das conclusões e afirma, entre outros pontos, que os seus televisores apenas processam dados de voz em situações específicas. Ou seja, determinadas funcionalidades dependem da escolha do utilizador e a descoberta de outros dispositivos na rede faz parte do funcionamento normal de equipamentos inteligentes.
A discussão sobre aquilo que aconteceu, como aconteceu e em que condições, continuará certamente. Mas há uma pergunta que não depende do resultado dessa discussão: teremos consciência do que fazem todos os dispositivos que ligámos à nossa rede doméstica?
Tendo a pensar que não. E não, não estamos só a falar de televisões. Câmaras de vigilância, campainhas, tomadas, colunas, lâmpadas, aspiradores, entre outros, passaram a integrar aquilo a que chamamos justamente Internet of Things (IoT). O conceito é bastante simples: objetos do nosso quotidiano passaram a ter a capacidade de comunicar através de uma rede. E nós adorámos o hype!
Quem não aprecia ligar o aquecimento antes de chegar a casa? Confirmar, no smartphone, quem está à porta. Solicitar à coluna para reproduzir aquela música relaxante. E a televisão que recomenda aquilo que provavelmente queremos ver. Neste sentido a IoT traz uma promessa de conforto. O problema é que, em cibersegurança, o confortável traz consigo, quase sempre, uma dose de insegurança.
Quando compramos uma televisão, queremos ver televisão. Quando compramos uma lâmpada, queremos luz. Em nenhuma das situações nos passa pela cabeça fazer atualizações ou, sequer, pensar em segurança. E é precisamente aqui que surge uma diferença importante: a televisão tornou-se inteligente, mas o nosso comportamento perante o televisor pode não ter sido devidamente atualizado.
Ligamos o novo equipamento ao Wi-Fi, instalamos uma aplicação no nosso smartphone, criamos uma conta, aceitamos algumas opções e começamos a utilizá-lo. Tal como (quase) ninguém gosta de ler manuais, alguém regressa mais tarde às definições para perceber que informação está a ser recolhida? E verificar permissões ou saber durante quanto tempo aquele equipamento continuará a receber atualizações de segurança?
Não se trata necessariamente de desleixo. Continuamos a olhar para uma televisão como uma televisão e para uma campainha como uma campainha. Mas talvez tenhamos de começar a fazer outras perguntas: necessita realmente este dispositivo de estar ligado à Internet? Que informação recolhe? Tem microfone ou câmara? Continua a receber atualizações? Está ligado à mesma rede onde temos computadores e outros equipamentos com informação importante?
Não temos de converter a nossa casa num bunker digital. Nem tão pouco esquecer o IoT e recuperar a velha televisão que ainda poderá estar guardada algures na garagem. Precisamos apenas de recuperar alguma capacidade de decisão. E podemos começar com ações simples: manter os dispositivos atualizados e alterar as palavras-passe predefinidas sempre que existam. Rever as definições de privacidade e desativar funcionalidades que não utilizamos. E, se o router permitir, podemos colocar os dispositivos IoT numa rede separada daquela onde estão os nossos computadores e equipamentos mais importantes.
Acima de tudo, podemos fazer uma pergunta antes de ligar o próximo dispositivo à Internet: Preciso realmente que isto esteja online? A resposta até pode ser sim. A conectividade trouxe-nos vantagens reais e seria contraproducente negá-las. Mas conforto e segurança tendem a não ser sinónimos, e cada equipamento ligado acrescenta mais uma porta a uma casa digital que raramente conseguimos ver por completo.
Independentemente da discussão sobre as conclusões concretas da investigação aos televisores inteligentes, devemos olhar de outra forma para algo que durante décadas foi extremamente simples: carregávamos num botão e a televisão ligava. Carregávamos novamente e a televisão desligava.
Hoje, entre o ON e o OFF, existe software, dados, servidores, contas e comunicações que o utilizador comum dificilmente conhece. E, muito importante, vale a pena considerar que talvez estejamos a utilizar IoT antes de conseguirmos acompanhar tudo aquilo que essa inteligência implica.
Por isso, da próxima vez que comprar um dispositivo inteligente, não pergunte apenas o que ele consegue fazer por si. Pergunte também o que este conseguirá saber de si. Porque ligar um dispositivo à Internet demora segundos. Perceber aquilo que acabámos de ligar à nossa vida exige um pouco mais de atenção.
Segurança não é técnica. É humana.
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