A verdade desconfortável é que se lê pouco em Portugal. Precisamos de colocar os livros no centro da nossa vida coletiva. É uma urgência cultural, educativa, económica e democrática – e é também um compromisso que a APEL assume de forma clara ao organizar o BOOK 2.0 #The Future of Reading, um espaço de debate, reflexão e partilha sobre o futuro do livro, da leitura e da literacia.
Nos próximos dias 15 e 16 de setembro, vamos levar a quarta edição deste evento ao Grande Auditório do CCB, em Lisboa, com o objetivo de juntar mil pessoas naquele espaço para falarmos de livros. O evento é de entrada livre, mas como a lotação está limitada à capacidade da sala, pedimos ao público que se inscreva em https://book.apel.pt.
Porquê debater o livro? Porque temos de olhar para a nossa realidade de frente. Os indicadores mostram-nos algo que não podemos ignorar: Portugal continua a apresentar níveis muito baixos de leitura e de literacia no contexto da Europa Ocidental. Temos poucos leitores, poucas livrarias especializadas e resultados preocupantes nas competências de literacia dos adultos. Quando um país tem dificuldades em ler, interpretar, avaliar informação e formar pensamento crítico, toda a sociedade fica mais vulnerável.
Esta preocupação torna-se ainda maior num contexto de excesso digital, de desinformação e de atenção cada vez mais fragmentada. A tecnologia e a Inteligência Artificial fazem parte do nosso presente e do nosso futuro, não vale a pena fingir o contrário. Mas temos de ser capazes de lhes dar um lugar equilibrado, sem abdicar do que o livro oferece: tempo, concentração, profundidade, imaginação, conhecimento e liberdade.
Ler é uma ferramenta de capacitação individual e coletiva. É educação, é cultura e é economia. É também saúde: ler trabalha as nossas competências cognitivas, desenvolve as nossas faculdades mentais e ajuda-nos a construir uma relação mais atenta e mais humana com o mundo. E é, naturalmente, uma condição essencial para a defesa da democracia, da liberdade de expressão e da liberdade de publicação.
É por isso que Portugal precisa de uma estratégia nacional para o livro, a leitura e a literacia. Uma estratégia continuada, ambiciosa e partilhada, que envolva a cultura, a educação, a economia e a saúde – mas também as instituições públicas, as escolas, as bibliotecas, os editores, os livreiros, os autores, os média, as famílias e todos os que podem ajudar a fazer chegar os livros mais longe.
Não podemos esperar que o problema se resolva sozinho. Pelo contrário, já há sinais de inversão nos hábitos de leitura e de compra de livros na Europa, e essa tendência deve preocupar-nos ainda mais num país que parte de uma posição particularmente frágil. Temos de acelerar. De criar condições para que as crianças cresçam próximas dos livros, para que os jovens encontrem na leitura uma experiência de descoberta e para que os adultos não deixem de reconhecer no livro uma ferramenta indispensável para a sua vida pessoal, profissional e cívica.
É neste contexto que realizamos a quarta edição do BOOK 2.0 #The Future of Reading, um evento profundamente alinhado com a missão da APEL de promover o desenvolvimento sustentável do sector editorial e livreiro, assumindo o livro como um bem essencial para o País. Não é um evento comercial, nem um simples encontro do sector – muito menos um festival literário.

O BOOK 2.0 é um lugar onde queremos ouvir visões diferentes, incluindo aquelas com que nem sempre concordamos, porque é dessa discussão séria que podem nascer melhores respostas. Sob o tema Regresso às Origens. Regresso aos Livros, queremos voltar ao essencial. Queremos perguntar como podemos preservar uma relação mais profunda com a leitura num mundo em rápida transformação. Queremos discutir o futuro da edição, os novos formatos, a Inteligência Artificial, os desafios da educação, o impacto do digital, a saúde cognitiva e o papel dos livros na defesa das democracias.
No dia 15 de setembro, vamos ouvir Nuno Crato sobre o panorama da educação em Portugal, num momento em que a discussão sobre literacia exige, mais do que diagnósticos, respostas consistentes, políticas continuadas e a capacidade de criar condições para formar leitores desde cedo. Teremos também Markus Dohle, antigo CEO da Penguin Random House, numa conversa sobre a força duradoura do livro, e um painel dedicado à construção de um ecossistema nacional de leitura, com Emma House e Erin Cox. São conversas particularmente importantes porque nos obrigam a pensar a leitura como uma responsabilidade partilhada por todos.
Esse ecossistema depende também das livrarias e das bibliotecas. Quando falamos de livrarias como referências culturais, falamos de lugares de proximidade, de descoberta e de comunidade. E quando falamos do direito a ler e da reinvenção das bibliotecas, falamos de igualdade de acesso: todos devem poder encontrar livros e tempo para os ler. A intervenção de David Hayman, responsável pelo National Year of Reading 2026 no Reino Unido, será especialmente relevante para percebermos como a leitura pode ser assumida como uma prioridade nacional através de uma mobilização pública ampla e continuada.
O primeiro dia dará ainda espaço a uma discussão que nos parece urgente: a relação entre leitura, atenção e democracia. As conversas com Cara Hunter e Joel Halldorf mostram-nos como os livros permitem abordar realidades marcadas por violência, conflito e transformações. O debate com Adolfo Mesquita Nunes e José Manuel Fernandes sobre a atenção que devemos a nós próprios é, neste contexto, particularmente relevante, pois, perante a velocidade do debate público, a desinformação e a lógica da reação imediata, a leitura prolongada oferece-nos uma possibilidade de pausa, contexto e discernimento. Encerramos o dia com Marcelo Rebelo de Sousa, numa intervenção que sublinha o lugar da leitura como causa pública e como compromisso duradouro.
No dia 16, aprofundamos esta ligação entre palavras, cidadania e liberdade. A intervenção de Sanna Marin, antiga primeira-ministra da Finlândia, sobre a democracia e as palavras que moldam a liberdade, traz ao BOOK 2.0 uma perspetiva europeia particularmente pertinente. A leitura ajuda-nos a compreender o mundo, a avaliar argumentos, a resistir à manipulação e a participar na sociedade de forma mais livre e informada.
A educação e a infância estarão também no centro do programa. Queremos discutir como garantir que cada criança se torne leitora e encontre histórias em que se reconheça. O debate que reúne Stacy Ennis e Matt Trinetti convida-nos a pensar a leitura através da voz, da diversidade e da criação. A conversa sobre a crise da atenção, com Célia Oliveira, traz para o debate uma realidade que preocupa famílias, escolas e investigadores: como criar condições para a concentração e a leitura num ambiente marcado por estímulos permanentes?
No BOOK 2.0 queremos igualmente mostrar como os livros são uma ferramenta de resiliência, de adaptação e de integração na esfera da Diversidade & Inclusão, bem como em espaços não convencionais como prisões e comunidades fragilizadas, tantas vezes esquecidos e estigmatizados, e a leitura é um ato de inclusão, de afirmação de dignidade individual e um direito humano fundamental.
A Inteligência Artificial estará inevitavelmente presente nesta reflexão. O ministro Gonçalo Saraiva Matias abordará o tema da transformação digital e a agenda nacional, permitindo-nos discutir os desafios da IA a partir de uma perspetiva de políticas públicas, direitos, competências e cooperação entre Portugal e outros países europeus. A tecnologia pode abrir possibilidades importantes, mas não pode substituir a necessidade de formar leitores, cidadãos autónomos e pessoas capazes de interpretar o mundo que as rodeia.
A cultura será outro dos grandes eixos do segundo dia. Margarida Balseiro Lopes partilhará a sua visão de como podemos tornar a leitura uma verdadeira prioridade para as gerações futuras, e de que forma podemos discutir o livro dentro de um ecossistema cultural mais amplo, intercetando-o com diferentes expressões artísticas, para potenciar um investimento cultural gerador de oportunidades de aprendizagem e colaboração, com resultados mensuráveis. A sessão Um Mundo que Avança Mais Depressa do que os Seus Valores, com José Tolentino Mendonça, ajudará a introduzir uma dimensão que considero fundamental. Num mundo que acelera constantemente, precisamos de defender o tempo da reflexão, da memória, da interioridade e do encontro com o outro. Os livros continuam a oferecer esse espaço.
O programa inclui ainda uma masterclass dedicada à criatividade, ao marketing e ao negócio dos livros, com Matt Locke e Nathan Hull. É um momento particularmente útil para o sector, porque a sustentabilidade do livro depende também da sua capacidade de chegar aos leitores. Precisamos de pensar novas formas de descoberta, recomendação, comunicação e venda, sem perder de vista o valor cultural e transformador da leitura.
Estes dois dias de BOOK 2.0 representam, acima de tudo, uma convocatória. Queremos reunir quem escreve, edita, publica, vende, recomenda, ensina e lê; queremos envolver as instituições que decidem; e queremos colocar a leitura na agenda pública. Reforço uma ideia formulada algumas linhas acima: Portugal precisa de uma estratégia nacional para o livro, a leitura e a literacia. O BOOK 2.0 não pretende esgotar essa resposta, mas quer contribuir para que ela avance – não há tempo a perder.