As férias acabaram. Regressamos ao trabalho, voltamos aos horários, aos despertadores, aos emails e às rotinas e, para algumas pessoas, surge esta sensação de continuarem cansadas. Ou até mais cansadas do que antes de irem de férias.
Significa isto que as férias não serviram para nada? Não. O impacto positivo das férias no bem-estar parece ser maior e prolongar-se por mais tempo do que anteriormente se pensava. De acordo com uma meta-análise publicada em 2025, que reuniu 32 estudos, o afastamento psicológico do trabalho e a atividade física durante as férias surgem entre os fatores que mais podem contribuir para esses benefícios.
Por isso, mesmo quando os primeiros dias de regresso são cansativos, isso não significa que a pausa tenha sido inútil. Mas há uma pergunta que vale a pena fazer quando regressamos: descansámos realmente daquilo que nos estava a cansar?
Se passámos duas semanas entre viagens, jantares, noites tardias e programas sucessivos, divertimo-nos, conhecemos lugares, estivemos com amigos e criámos memórias, cumprimos aquilo que queríamos das férias. Mas talvez não tenhamos descansado.
E pode não haver nada de errado nisso. Há quem entre de férias com vontade de aproveitar ao máximo e quem chegue tão cansado que aquilo de que verdadeiramente precisa é de parar.
É importante deixarmos de pensar nelas como uma espécie de reparação de emergência: trabalhamos até à exaustão durante meses e esperamos que duas ou três semanas por ano consigam resolver tudo. Há vantagens óbvias nas férias, mas o descanso e o sono têm de ser valorizados todo o ano.
De que tipo de descanso precisamos?
Esta é uma pergunta a fazer ainda antes do início das férias. Nem todo o descanso significa ficar parado. Também importa perceber de que tipo de esforço precisamos de recuperar. Uma pessoa cujo trabalho exige atenção permanente, tomada de decisões e grande esforço cognitivo poderá não descansar verdadeiramente a mente se preencher todo o tempo livre com outros estímulos mentais, entre séries, jogos, redes sociais e notificações. Uma caminhada, nadar ou outra atividade física pode exigir esforço ao corpo e, simultaneamente, representar uma forma de descanso mental.
O descanso pode passar por mudar o tipo de atividade a que submetemos o cérebro.
E há uma forma de cansaço que levamos facilmente connosco para férias: o trabalho. Podemos estar longe do escritório, mas uma mensagem de WhatsApp, um email ou uma notificação são suficientes para voltar a convocar a nossa atenção.
Este é um hábito que prolongamos para a noite também. Se não dermos ao cérebro oportunidade para abrandar, não podemos esperar que passe de um estado de ativação permanente para um sono que seja reparador num estalar de dedos.
Por isso, desligar do trabalho também exige ações concretas: arquivar temporariamente conversas profissionais, silenciar notificações, ativar uma resposta automática no email, avisar que não estaremos contactáveis e deixar previamente definido um plano com outros colegas para nos substituírem em verdadeiras emergências.
Mas nenhuma ferramenta é tão essencial como isto: tem de haver um compromisso individual para não trabalhar durante as férias.
Quando o nosso relógio também muda de horário
Há outra explicação possível para o cansaço do regresso: durante as férias alteramos frequentemente os sinais pelos quais o organismo acerta o seu relógio.
O nosso ritmo circadiano recebe informação da exposição à luz, dos horários das refeições, da atividade e da socialização. Se durante algumas semanas passamos a deitar-nos e a acordar mais tarde, ficamos mais tempo na cama, fazemos sestas tardias e comemos a horas diferentes, o organismo vai-se adaptando.
Podemos, por isso, nem sequer terminar as férias particularmente cansados e, ainda assim, começar a primeira semana de trabalho com fadiga. De um dia para o outro, o despertador volta a tocar às sete da manhã, embora durante semanas tenhamos estado a dizer ao nosso corpo que podia dormir e acordar mais tarde.
O ritmo circadiano não se reajusta instantaneamente e pode precisar de alguns dias para se adaptar. Por isso, devemos começar a preparar o regresso antes do fim das férias: aproximar progressivamente as horas de deitar e de acordar dos horários habituais e evitar concentrar noites tardias precisamente nos últimos dias das férias. Esta é uma estratégia importante também para os estudantes que em breve regressam à rotina escolar – idealmente, a adaptação aos horários escolares deve começar progressivamente uma a duas semanas antes do regresso às aulas.
E se o cansaço não passar?
Esta é uma situação diferente. Se já entrámos de férias cansados, tivemos oportunidade de descansar, dormimos, reduzimos estímulos e nos desligámos do trabalho e, mesmo assim, continuamos exaustos, talvez seja importante tentar perceber porquê.
O cansaço persistente pode ser um sintoma de algo que merece ser avaliado, desde uma perturbação do sono a ansiedade, burnout ou outro problema de saúde.
As férias são importantes, mas não conseguem compensar uma rotina que não deixa espaço para recuperar. Mantemos ainda uma cultura laboral muito assente na disponibilidade, nas horas extra e na dificuldade em estabelecer uma fronteira clara entre trabalho e vida pessoal.
Há culturas laborais, nomeadamente em países do norte da Europa, em que o fim do horário de trabalho estabelece uma fronteira muito mais clara. Quando o trabalho termina, termina mesmo. Talvez também precisemos de repensar a forma como encaramos a disponibilidade permanente e a ideia de que dedicação profissional significa estar sempre contactável.
As férias são importantes, mas o descanso não pode acabar quando regressamos ao trabalho. Precisamos de repensar também a forma como encaramos as nossas obrigações profissionais e de criar, ao longo do ano, espaço para o descanso e para o sono. Para não chegarmos às próximas férias novamente a precisar de recuperar.
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