Os líderes dos BRICS, bloco de economias emergentes fundado em 2009 pelo Brasil, a Rússia, a Índia e a China, reúnem-se neste fim de semana em Nova Deli. Um dos lemas da cimeira, Humanity First, é o oposto do America First que Donald Trump gosta de apregoar. O contraste não é só retórico: os 11 membros atuais do grupo e os seus dez parceiros constituem 55% da população do planeta. No conjunto, são cerca de 4,6 mil milhões de pessoas – quase seis vezes mais do que os EUA e a UE juntos – e poderão continuar a crescer. É esse o empenho assumido pela cimeira: “Colocar as preocupações do Sul Global na primeira linha da agenda internacional.”
Para a China, a maior economia do grupo, trata-se de uma dimensão concreta do mundo multipolar que os seus líderes desejam ver consagrada nas relações internacionais. Neste caso, será também a segunda reunião do género em que Xi Jinping participará este mês, depois da Cimeira da Organização de Cooperação de Xangai (SCO, em inglês), realizada na semana passada no Quirguistão, e ocorre poucos dias antes da sua primeira visita oficial aos EUA em mais de uma década.
A expressão BRIC foi cunhada no início deste século por um economista do banco Goldman Sachs, Jim O’Neill. No final de 2010, a África do Sul juntou-se ao grupo, acrescentando a letra “S” à sigla. Ficou BRICS. Entretanto, entraram mais seis países (Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, Egito, Etiópia, Indonésia e Irão) e dez outros (Bielorrússia, Bolívia, Cazaquistão, Cuba, Malásia, Nigéria, Tailândia, Uganda, Usbequistão e Vietname) associaram-se com o estatuto de “parceiros”.
Dezassete anos depois da sua fundação, os BRICS não se transformaram numa aliança militar tipo NATO nem se converteram num mercado comum ao estilo da União Europeia. Reúne países com diferentes sistemas políticos e distintos níveis de desenvolvimento. Tem hindus, muçulmanos, budistas e cristãos. Ideologicamente, pouco há em comum entre o regime teocrático do Irão e um governo como o da República Popular da China, que promove o ateísmo. As afinidades culturais entre o Brasil e a Arábia Saudita também não serão muito grandes. Mesmo a Rússia e a China, “apesar da sua comum defesa da multipolaridade, não têm necessariamente a mesma visão do mundo”, salientou um professor chinês de Estratégia e Segurança Internacional, Zhou Bo. “Nostálgica das suas glórias passadas, a Rússia vê-se a si própria como uma vítima da ordem internacional e ressente-se disso. A China, por seu lado, tem sido o grande beneficiário da globalização e abraça-a como nenhum outro país”, acrescentou o analista. O alargamento dos BRICS é visto em Pequim como um sinal da “ascensão coletiva do Sul Global” e um “traço distintivo da grande transformação em curso no mundo”.
Os BRICS já têm um banco próprio, com sede em Xangai. É considerado uma alternativa ao Banco Mundial e ao Fundo Monetário Internacional. Chama-se New Development Bank (NDB, em inglês). Os cinco principais acionistas (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul) detêm participações iguais. Entre as “prioridades” anunciadas pelo novo banco destaca-se o apoio à construção de infraestruturas, nomeadamente transportes e energias renováveis, áreas em que a China é líder mundial. Em dez anos, o banco já financiou 141 projetos, no valor de 44 mil milhões de dólares. Um dos maiores, orçado em mil milhões de dólares, destina-se a obras de saneamento básico, distribuição de eletricidade e tratamento de lixos em quatro cidades sul-africanas. Foi aprovado em junho. O NDB propõe-se igualmente “desenvolver operações nas moedas locais”. Em 2025, quase todo o comércio entre a China e a Rússia, que somou 240 mil milhões de dólares, já foi feito em rublos e yuan.
“Temos de agir como partidários de uma harmoniosa coexistência entre todas as civilizações” e “construir uma comunidade com um futuro partilhado para a Humanidade”, declarou Xi Jinping na cimeira de há dois anos, realizada na Rússia. Ironia da História, o último grande país com governo comunista tornou-se o motor de um bloco económico cujo nome nasceu no seio de um dos maiores bancos de investimento do mundo.
Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.