— Ninguém pode trabalhar assim. Vou passar-lhe um atestado.
Foi isto que me disse o psiquiatra quando, em janeiro de 2022, lhe contei o que estava a viver numa das minhas turmas. Olhei para ele e respondi que não podia. Tinha outras turmas de 12.º ano. Alunos que fariam exame nacional. Não podia abandoná-los.
Lembro-me de ele me olhar com estranheza e responder:
— A senhora é que sabe…
Eu sabia? Hoje acho que não.
Sabia apenas que era professora. E que, na minha cabeça, ser professora significava continuar. Mesmo quando já não conseguia.
Naquele ano, tinha turmas de 12.º ano dos cursos Científico-Humanísticos e de Economia. E tinha uma turma do curso profissional de Desporto.
Estes não tinham hábitos de estudo nem de trabalho. Não levavam papel, caneta ou livro. Não queriam ouvir. Não queriam trabalhar. A indisciplina era permanente. Chegaram ao ponto de me mandarem calar.
Não consegui ser professora naquela sala. Fiz-lhes frente. A situação piorou.
Pedi ajuda ao diretor. A solução foi colocar uma colega comigo. Senti-me humilhada. Depois de mais de três décadas de profissão sem um único processo disciplinar, senti-me desapoiada pela direção.
Não me fiquei. Avancei com um processo disciplinar à turma.
Naquela sala, o individual parecia não se separar do todo. Uniam-se na recusa em aceitar ordens, na falta de educação, na recusa em trabalhar.
Procurei testemunhos. Quase ninguém quis falar. Por medo.
Uma colega de Inglês confessou-me que também tinha sido humilhada por aqueles alunos.
— Porque não fizeste um processo? — perguntei.
— Tive medo.
Dias depois, recebi na minha caixa de correio um longo depoimento seu. Tinha finalmente posto por escrito aquilo que vivera e que até então não se atrevera a dizer.
Soube de outros episódios: o carro de uma funcionária riscado, um funcionário ofendido e humilhado até và exaustão. Perguntei como era possível que não houvesse outros processos.
As respostas chegaram sempre em voz baixa. Medo dos alunos. Medo dos pais. Medo do que poderiam fazer aos carros dos professores. Os professores, dizia eu na altura, eram joguetes nas mãos deles. Eu não queria ser.
Aguentei de setembro a junho.
A turma acabou por ser dividida em dois grupos. Não resolveu o problema, mas facilitou. É curioso como, às vezes, uma solução que parece tão simples demora meses a chegar.
Só que, nessa altura, a ansiedade, o cansaço e a exaustão já estavam instalados. As aulas eram às terças e quintas, às oito da manhã. Eu vivia em ansiedade quatro dias por semana: antes da aula, pela antecipação do que poderia acontecer; depois da aula, pelo que tinha acontecido.
Tomei medicação para conseguir dormir e, sobretudo, para conseguir acordar e estar na escola às oito.
Quando chegaram os exames, corrigi a primeira fase. Para a segunda, percebi que já não estava em condições de corrigir exames de forma correta. Foi então que ouvi:
— Há colegas que só adoecem na altura dos exames.
Há frases que passam por nós. Outras ficam. Esta ficou.
Comecei a criar anticorpos em relação à minha escola de sempre. Depois de mais de trinta anos dedicados àquela escola, senti-me maltratada. Pensei: uma direção que não cuida dos seus professores e permite que a indisciplina grasse como cogumelos selvagens não me merece.
Fui ensinar para a Escola Portuguesa de Moçambique. E ali fui acarinhada como nunca antes por alunos, pais, encarregados de educação e direção. Regressei a Portugal por motivos de saúde. Regressei também à minha escola. Fui recebida de braços abertos pelos poucos colegas “do meu tempo” que ainda não se tinham reformado.
Uma colega disse-me:
— Quando te foste embora, a sala dos professores morreu. Agora que voltaste, renasceu.
Dois dias depois de aterrar em Lisboa, sofri um acidente isquémico transitório que me provocou diplopia. Os médicos disseram-me que precisaria de dois a três meses de recuperação.
Depois soube que, por falta de professores de Português, as minhas turmas tinham sido distribuídas por duas colegas. Nunca mais dormi descansada. Pensava no trabalho extra que a minha ausência lhes estava a causar. Mal consegui, ainda a ver tudo a dobrar, arrastei-me para a escola. Muito antes de estar recuperada.
Parece que há professores que precisam de uma autorização por escrito para ficarem doentes. Eu, pelos vistos, precisava de uma autorização do corpo.
No ano letivo passado, tive alunos de Português Língua Não Materna provenientes de oito turmas diferentes. Oito conselhos de turma por período só nesta turma. Fora os outros todos…
No último dia de reuniões do segundo período, depois de uma manhã inteira de reuniões, tinha ainda uma à tarde. Fui almoçar a casa.
Num desses vaivéns, cortei o tendão de um dedo da mão direita. Ensanguentada, liguei para o diretor de turma. Disse-me que iria perguntar à coordenadora se eu podia não estar presente. Revoltada, apresentei-me ainda assim na sala da reunião, com a mão ligada, para mostrar que não podia ficar.
Dali segui para o Hospital de São José e fui operada nesse mesmo dia. Justifiquei os dois tempos da reunião de turma onde tinha apenas uma aluna.
E agora, a poucos dias de começar mais um ano letivo, aconteceu outra vez. Uma intervenção cirúrgica de urgência. Desta vez, porém, decidi parar. Sem contemplações. Não apenas porque o médico me diz que tenho de parar. Também porque eu mereço finalmente parar.
Tenho turmas de 12.º ano com exame em junho. Tenho direção de turma. Tenho aulas de preparação para exame. Tenho responsabilidades. Mas não vou continuar a pagar tudo isso com o meu corpo.
Espero que encontrem rapidamente um professor de Português para me substituir. Se distribuírem as minhas turmas por outras colegas e elas aceitarem, já não é problema meu. E, pela primeira vez, isso não me vai tirar o sono.
Muito se fala dos atestados dos professores. Não posso afirmar que existam atestados falsos. Não tenho essa informação de fonte fidedigna. Em todas as profissões há pessoas com mais ou menos moral, princípios e ética. Mas talvez esteja na altura de fazermos outra pergunta:
O que leva um professor a precisar de um atestado?
Talvez nem sempre seja falta de vontade de trabalhar. Talvez, algumas vezes, seja excesso dela. Há professores que passaram quase quarenta anos em esforço. Que não faltam porque têm exames, reuniões, direção de turma, alunos que precisam deles. Que continuam quando o corpo pede descanso. Que continuam quando a cabeça pede silêncio. Que continuam porque sabem que, se não estiverem, alguém terá de estar.
Eu fui uma dessas professoras.
Durante anos achei que ser profissional era não falhar. Hoje penso que também é saber parar.
Se passaste a vida a abdicar de ti em prol da escola, se deixaste demasiadas vezes de ouvir o teu corpo e a tua mente porque te julgavas insubstituível, lembra-te: não és.
Se não há professores, a culpa não é nossa, colegas. Estamos há quase quarenta anos na escola a dar o litro. A escola há de continuar. Os alunos terão professor. As aulas acontecerão. Os exames realizar-se-ão. Alguém pegará no nosso lugar.
E talvez essa seja a maior aprendizagem que me fica de quase quatro décadas de profissão: podemos ser importantes sem sermos indispensáveis.
A escola há de continuar. Mas nós também precisamos de continuar.
Por isso, quando o teu corpo te pedir para parar, escuta-o. Não esperes que seja ele a gritar.
Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.