Este ano, a festa ganhou um significado ainda maior: o Andor da Senhora da Pena é já Património Cultural Imaterial, um reconhecimento para uma tradição que o povo guarda no coração há gerações. Há tradições que não se explicam apenas com palavras. Sentem-se.
Sentem-se no olhar de quem regressa à terra depois de meses ou anos longe. Nas mãos de quem trabalha durante semanas para que tudo esteja pronto. No silêncio de uma oração. Nas lágrimas de quem vê passar Nossa Senhora. E, sobretudo, nos ombros daqueles que carregam um andor que é muito mais pesado do que as suas quase três toneladas: carrega séculos de fé, memórias de família e a identidade de todo um povo. Foi assim, neste dia 13 de setembro, que Mouçós voltou a viver a festa de Nossa Senhora da Pena.
A comunidade reuniu-se mais uma vez em redor da sua Santa. Vieram os habitantes das aldeias, os mais novos e os mais velhos, e regressaram também muitos emigrantes que, apesar da distância, continuam a guardar esta data como um compromisso de fé e de pertença às suas raízes.
Entre os presentes estava o presidente da Junta, Hélder Afonso, que conhece esta tradição não apenas enquanto autarca, mas desde menino. “Já participo nesta festa desde criança. Desejava chegar aos 18 anos para poder carregar o andor. Agora, como presidente, ainda sinto mais responsabilidade”, recorda.
Nas suas palavras percebe-se que esta não é uma festa preparada num dia. São meses de esforço e dedicação. “São meses de trabalho. Toda a gente de Mouçós, novos e velhos, trabalha para este dia.” É precisamente aí que está uma das forças da Senhora da Pena: ninguém constrói esta festa sozinho. Cada pessoa dá aquilo que pode. Uns oferecem trabalho, outros tempo, outros dinheiro, outros a força dos braços. E todos oferecem um pouco de si.
Também o padre Márcio Daniel Martins, com a sua energia e proximidade à população, voltou a dar vida à celebração e a reforçar a importância de não deixar que esta manifestação religiosa se perca no tempo. Porque aqui a fé também se aprende em família.
Conceição Amorim, cresceu a viver esta celebração. Para ela, Nossa Senhora da Pena ocupa um lugar muito especial na sua vida e na sua fé. “Esta Senhora é tão importante como Fátima. Desde que nasci sempre vivi esta festa. Para mim é uma honra muito grande participar.”
Este ano teve uma responsabilidade particular: receber as ofertas dos peregrinos e ajudar nos trabalhos de preparação do grande andor. São gestos aparentemente simples, mas é precisamente através deles que uma tradição atravessa gerações.
Ao longo do tempo, os andores foram crescendo. Entre as aldeias existia o desejo de fazer mais alto, mais belo e mais impressionante. Dessa saudável rivalidade nasceu uma tradição singular. E, entre todos, o Andor da Senhora da Pena tornou-se o maior. “Isso diz muito”, afirma Hélder Afonso. “É uma tradição de família, desde o meu bisavô até agora. Isto é tudo manual.”
E talvez seja essa uma das características mais extraordinárias desta manifestação. Por detrás dos números impressionantes existem mãos. Mãos que cortam, montam, decoram, cosem, apertam, levantam e seguram. Todos os anos, centenas de ornamentos e mais de mil metros de tecido revestem a estrutura de madeira, que pode atingir cerca de 23 metros de altura.
Depois chega o momento mais esperado. Uma estrutura que pesa perto de três toneladas é colocada aos ombros de mais de uma centena de pessoas para percorrer mais de um quilómetro. É preciso força. Mas quem participa garante que é preciso muito mais do que força. É preciso fé.
É essa emoção que também se sente nas palavras de Bruno, de 30 anos, natural da aldeia. Desde pequeno que acompanha a festa. Cresceu a olhar para aquele gigante e para os homens que o transportavam. Este ano decidiu que tinha chegado a sua vez. “Venho sempre à festa desde pequeno. Este ano tive coragem e vou levar o andor.” Uma frase curta que encerra uma história muito maior.
Porque, em Mouçós, carregar o Andor da Senhora da Pena é quase um ritual de passagem. Durante muitos anos, os rapazes cresceram a olhar para os pais, avós, tios e vizinhos e a esperar pelo dia em que também teriam força e idade para colocar o ombro debaixo daquela estrutura.
Assim, aquilo que começou com os mais velhos continua nos mais novos. De pai para filho. De avô para neto. De geração em geração.
Quando finalmente o enorme andor avança, a multidão acompanha-o entre devoção, emoção e expectativa.
Os carregadores levantam repetidamente a gigantesca estrutura, num movimento que ficou conhecido como a “dança do andor”. Por alguns instantes, aquelas toneladas parecem desafiar o próprio peso. O andor sobe. A multidão reage. Os carregadores juntam as forças. E Nossa Senhora da Pena ergue-se acima das pessoas, quase a tocar o céu. É um momento de enorme intensidade.
Ali estão os que carregam pela primeira vez e aqueles que já perderam a conta às vezes que colocaram o ombro debaixo do andor. Estão famílias inteiras. Estão aqueles que fizeram promessas. Estão os que regressaram à terra apenas para não faltar à festa. E estão também, na memória de todos, aqueles que já partiram, mas que durante a sua vida ajudaram a manter esta tradição.
A Procissão de Nossa Senhora da Pena é uma manifestação religiosa com raízes que remontam a meados do século XVIII, ligada ao culto e à devoção popular a Nossa Senhora da Pena na região de Mouçós. Ao longo dos séculos, a romaria foi crescendo e transformando-se.
O grande andor, tal como hoje é conhecido, desenvolveu-se posteriormente, tornando-se numa extraordinária expressão da criatividade, da rivalidade saudável entre aldeias e, acima de tudo, da capacidade de uma comunidade se unir em torno da sua fé.
Em 2 de junho de 2026, chegou um reconhecimento histórico: o Andor da Senhora da Pena foi oficialmente inscrito no Inventário Nacional do Património Cultural Imaterial.
A distinção reconhece aquilo que a população já sabia há muito: esta é uma tradição singular, profundamente enraizada na identidade das comunidades de Mouçós e Lamães e que merece ser preservada e transmitida às próximas gerações.
A vereadora da Cultura da Câmara Municipal de Vila Real, Mara Minhava, destacou precisamente essa dimensão: “Esta inscrição representa um reconhecimento nacional do valor cultural, histórico e identitário do Andor da Senhora da Pena, uma manifestação profundamente enraizada na nossa comunidade e que tem sido preservada com dedicação ao longo de gerações.” Também o presidente da Câmara Municipal de Vila Real, Alexandre Favaios, sublinhou a responsabilidade que acompanha esta distinção:
“A integração no Inventário Nacional do Património Cultural Imaterial reforça a importância de continuar a salvaguardar e promover as nossas tradições, valorizando o património vivo que constitui uma parte essencial da identidade de Vila Real e das suas gentes.”
Para alcançar este reconhecimento foi igualmente fundamental o trabalho de investigação coordenado por Vítor Nogueira, através do estudo, documentação e valorização desta manifestação cultural e religiosa. Mas o verdadeiro guardião deste património continua a ser o povo.
São as pessoas que todos os anos regressam. As que trabalham durante meses. As que ensinam aos filhos aquilo que aprenderam com os pais. As que constroem o andor. As que fazem a festa. As que rezam. As que carregam.
O título de Património Cultural Imaterial não encerra a história da Senhora da Pena. Pelo contrário.
É uma responsabilidade para o futuro. Porque património vivo não é aquilo que fica fechado num museu. É aquilo que continua a ser feito, sentido e transmitido. No dia 13 de setembro, isso voltou a acontecer em Mouçós. Quando Bruno colocou o ombro no andor pela primeira vez, continuou uma história iniciada muito antes de ele nascer. Quando Hélder Afonso recordou o bisavô e os seus tempos de criança, várias gerações encontraram-se na mesma memória. Quando Conceição Amorim cumpriu a sua tarefa junto de Nossa Senhora, repetiu gestos de devoção que fazem parte da sua vida desde que nasceu. E quando centenas de braços fizeram erguer aquele gigante de madeira, tecido e ornamentos, não levantaram apenas um andor de quase três toneladas.
Levantaram as memórias dos que já partiram e os sonhos daqueles que agora começam. Levantaram a identidade de uma terra. E, acima de tudo, levantaram a sua fé.
Agora é oficialmente Património Cultural Imaterial. Mas, para as gentes de Mouçós, Nossa Senhora da Pena já era património muito antes de qualquer reconhecimento oficial.
Era e continuará a ser património do coração.