Há cerca de 15 anos, surgiu-me uma ideia para uma história de ficção, num futuro próximo. Personagens imigrantes seriam, de súbito, forçadas pelas autoridades a abandonar de imediato o seu local de trabalho e o país, devido às suas origens. Seriam deportadas e assim obrigadas a regressar aos países de origem, sem condições para assegurar a sobrevivência e a dignidade de uma família. À época, esta ideia era demasiado rebuscada e pertencia por completo ao reino da distopia.
O tempo foi passando e a ideia acabou por ficar na gaveta, por culpa minha, que me via sem tempo para desenvolver a história com um princípio, meio e fim. O que não esperava era que algumas das ideias expostas fossem gradualmente contaminar a nossa realidade atual, a um ponto em que nos tornámos todos cidadãos de pleno direito de uma distopia. Basta olhar para a vitória eleitoral nas eleições da Saxónia-Anhalt da AfD (Alternative für Deutschland), um partido da extrema-direita alemão que defende ideias como remigração. Para quem ainda não sabe do que se trata, é uma versão light das limpezas étnicas do séc. XX, com recurso a segregação e deportação de cidadãos não europeus, incluindo cidadãos com residência legal e cidadãos naturalizados, como forma de combater imigração em massa e a “crescente islamização”, que consideram uma ameaça à sua pureza identitária.
À hora da escrita desta crónica, ainda não era possível saber se o partido teria condições para formar governo. O fascismo alemão traz más memórias históricas, mas, não querendo simplificar demasiado este fenómeno, não podemos ignorar que este tipo de fascismo pode irromper de forma organizada e eficiente por falta de respostas sociais e económicas que permitam à população viver com dignidade numa democracia. O descontentamento é real. Os partidos democráticos que já se encontram no poder há longas décadas parecem incapazes de admitir que o voto pode fugir para outros partidos mais extremistas, quando estes aparentemente oferecem uma luz ao fundo do túnel. As desigualdades agravam-se, e chegamos a 2026 com grande parte das instituições democráticas num estado bastante fragilizado.
Há dias, saiu um artigo no New York Times com o título dramático Uma Nova Ordem Mundial Está a Chegar. E Não Estamos Preparados, da autoria de Margaret MacMillan. Descreve como grande parte das elites europeias, desde antes da Revolução Francesa, subestimou a gravidade do descontentamento popular e presumiu que jamais seria removida da sua posição privilegiada. A História provou que estava errada e não faltam exemplos, muitas vezes trágicos. A uma dada altura, a autora esboça paralelos com o mundo atual: “Populações enfurecidas. Elites não eleitas, detentoras de enormes fortunas e do poder de subjugar os governos à sua vontade. Líderes que se recusam a procurar consensos ou a aceitar conselhos.” Mais adiante, reflete: “Mas e se já estivermos nas fases iniciais daquilo que virá a ser um período prolongado de desordem?”
Esta nova realidade grotesca já tem vindo a tomar forma há anos. Uma realidade em que o discurso de ódio cresceu e os imigrantes são gradualmente relegados à condição de párias da sociedade. Mas regressando ao título da crónica, alguém que não está ameaçado de deportação não deixa de ser também cidadão de pleno direito desta distopia. Se uns começam a aceitar que outros deixem de beneficiar dos mesmos direitos, sem compreenderem que todos veem os seus direitos ameaçados, então limitam-se a contribuir para agravar o problema.
Nas últimas páginas do meu livro Líbano, uma Biografia, que conta a história da minha família ao longo de vários séculos num país devastado por sucessivas guerras e violência, a qual foi forçada à escolha da imigração, dou por mim a refletir na tristeza de uma nova ordem mundial dominada por narrativas anti-imigração. Estamos há anos a julgar que o pior não vai acontecer, quando o pior está sucessivamente a acontecer. Políticas que se aproximam perigosamente da lógica de limpezas étnicas vão contra tudo o que defendia o projeto original de União Europeia. Quero acreditar que também não vai encontrar lugar no projeto europeu atual, mas o perigo é real e, ao longe, já se começam a escutar as sirenes.
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