Há duas semanas, tive oportunidade de escrever sobre a tragédia na Venezuela que, se alguma coisa poderíamos aprender com os dois sismos e a catástrofe que se abateu naquele país, é que não devemos dar nada por garantido e aproveitar cada momento e cada bem que de possamos usufruir.
Nem de propósito, independentemente das gravíssimas consequências naquele país nos terem chegado da maior parte das notícias, em Portugal ocorrem dois eventos em simultâneo que nos deviam fazer corar de vergonha.
O primeiro é, obviamente, o escândalo das correções dos exames finais, deixando famílias, seja de professores, seja de alunos em suspenso, cujas consequências se arrastam há semanas e sem fim à vista. Recuperando o início, em jeito de resumo, o sistema de correção foi entregue a uma empresa, sem estar completamente testado, mediante o qual os chamados professores avaliadores corrigiriam, com auxílio do que se usa chamar Inteligência Artificial. O problema é que, obviamente e como tem sido público, tudo neste sistema falhou, aliás à semelhança do que já tinha sucedido com uma pequena parte dos exames do ano passado, submetidos ao mesmo paradigma. Repetir o mesmo duas vezes e, para mais, não testar atempadamente é, mais do que um erro político, uma total falta de responsabilidade.
Falhando o sistema, os professores avaliadores começaram a ter diversos problemas na sua tarefa de correção, fossem eles não lhes chegarem as provas, fossem surgirem apenas parcialmente, fossem terem sido escalados para os exames errados, tendo recebido a extraordinária ordem de, ainda assim, prosseguirem, tornando tudo uma farsa.
Quando o problema se tornou finalmente público, dois eventos marcaram a reação governamental.
Em primeiro lugar, foi contratada nova consultora, por ajuste direto, sem que se saibam os custos, para tentar resolver o que persiste há semanas. Ou seja, mais dinheiro público para resolver um problema que, se não tivesse havido a tentação de automatizar o que não deve ser automatizado, nunca teria acontecido. Importa aqui relembrar que educar não pode corresponder a formatar tudo, dentro de padrões, aliás desconhecidos. E verificar conhecimentos em provas com esta importância não pode ser feito com a displicência com que o Ministério da Educação tem encarado esta situação, parecendo apenas preocupado com que as correções sejam apresentadas, independentemente do seu acerto. A sensação que dá é que se trata da tentação de apresentar resultados, apesar de se saber que os mesmos estarão, com grande probabilidade, errados, fruto das diversas vicissitudes ao longo do processo.
Depois, repare-se que não pela voz do Ministério mas pela do porta-voz do PSD, numa confusão de esferas inadmissível, veio a informação de que os professores avaliadores que trabalhassem fora de horas receberiam uma compensação. Ora, trata-se, uma vez mais, de uma informação surreal, atendendo a que todo o trabalho suplementar deve ser pago e que, se há dinheiro para a contratação de nova consultora, obviamente também que terá que existir para uma das principais vítimas da implementação deste sistema e que são, justamente, os professores (sendo as outras, obviamente, os estudantes e as respetivas famílias).
Em síntese, todo o processo de avaliação se tornou em algo que seria anedótico se não fosse a extrema gravidade, admitindo eu que nova onda se levante quando se tratar dos pedidos de reavaliação, feitos, atentos os atrasos, numa altura em que a maior parte dos professores já estaria de férias. Deixámos de estar perante verdadeiros e próprios exames nacionais para, demonstrando-se que a Inteligência Artificial não é a solução para todos os problemas, chegarmos à fase do vexame nacional.
O segundo atual vexame nacional, embora este circunscrito ao concelho de Almada, prende-se com outra questão que também tem prendido a atenção: a falta de água, principalmente acentuada em plena onda de calor, inicialmente durante dias seguidos e sem qualquer aviso prévio, prejudicando moradores e comerciantes, estes últimos, por vezes, obrigados a encerrarem os seus estabelecimentos.
Aos habitantes do concelho de Almada pouco importa de quem é a responsabilidade, sendo que a mesma parece estar partilhada entre uma autarquia e os seus serviços municipalizados que não se souberam acautelar, tendo tido mais do que tempo para isso, ou o Ministério do Ambiente, que obviamente não pode deixar de fiscalizar as redes públicas de abastecimento. As justificações apresentadas por uns e outros não colhem, designadamente quanto ao aumento da população que se não verificou, seguramente, de um momento para o outro, mesmo atendendo à sazonalidade, parecendo óbvio que está em causa a manutenção do próprio sistema e a verificação dos respetivos níveis.
O que não é próprio de um país que se diz civilizado é ter populações inteiras sem água durante dias e, apesar do problema estar vias de atenuação, a verdade é que parece longe de estar solucionado, circunstância demonstrada pelas proibições entretanto decretadas e pela manutenção dos cortes, agora pelo menos anunciados antecipadamente, embora nem sempre respeitados nos respetivos horários.
Talvez aqui importe relembrar que a água é um bem essencial e sem o qual não se consegue viver. Não acautelar que portugueses, morem onde morarem, têm acesso a algo tão simples quanto necessário é uma vergonha. Um outro vexame nacional, ao qual, mais do que pedidos de desculpa ou de desresponsabilização, importa pôr cobro imediatamente. Longe de ser um assunto exclusivo da margem sul, o problema é de todos.
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