“Viver é o que há de mais raro. A maioria apenas existe.”
Oscar Wilde
Vivemos permanentemente conectados mas nunca estivemos tão desligados da vida e das grandes causas. A nossa capacidade de ação, de luta pelo que acreditamos, designadamente por um mundo melhor nas suas múltiplas vertentes, reconduz-se, muitas vezes, ao designado “ativismo de sofá”, através do qual julgamos que uns meros cliques podem fazer a diferença. Raramente o fazem, mas continuamos na crença de que o mundo virtual se equipara ao real e que o que nos é dado a ver é o estado do mundo, mesmo quando este último é muito mais amplo, complexo e, simultaneamente, bonito.
Estamos, na verdade, cansados, vergados sob o peso de múltiplas micro-tarefas, confinados no trabalho e incapazes de termos tempo para a verdadeira reflexão. Nada disto surge por acaso, da mesma forma que a dependência da dita “Inteligência Artificial” nos está a tornar cada vez mais preguiçosos e pouco lestos nas decisões que temos que tomar.
O que foi trazido sob a promessa de nos aproximar e de nos facilitar a vida tornou-se num verdadeiro obstáculo para a vida e para as relações pessoais, encontrando-se hoje o nosso quotidiano – e não já apenas o horário de trabalho – condicionado por uma série de plataformas, de redes sociais ou de emails, no âmbito das quais raramente vivemos mas, pelo contrário, tentamos sobreviver.
No meio disto, à falta de tempo para pensar, para ler um bom livro ou, apenas, para pensar, gastamos minutos a ver vídeos promocionais de natureza duvidosa, seguimos os ditos influencers, profissão cujos contornos sempre me causaram grande perplexidade, e fazemos tudo aquilo que não nos remeta para o lugar que, efetivamente, devíamos ocupar na sociedade e para o que deveríamos estar a fazer por forma a que esta melhore.
Na verdade, a maior parte de nós escolheu passar pela vida como um mero passageiro, conduzido por forças que desconhece, numa viagem cujos contornos também não controla minimamente e cujo destino é desconhecido.
Enquanto estivermos adormecidos, nesta sonolência que nos aparta da vida, os verdadeiros donos disto tudo seguem o seu caminho. A esmagadora maioria do dinheiro concentra-se cada vez mais nas mãos dos mesmos, enquanto o povo se limita a tentar fazer face às cada vez mais difíceis exigências do quotidiano. Não há riqueza sem força de trabalho alheio mas as pessoas parecem alheadas desse facto, limitando-se a contentarem-se com os restos que lhes dão.
Somos ratos de laboratório, contentes por correr na rodinha que puseram na nossa gaiola. Raros são os jovens que, mesmo quando logram ter um contrato de trabalho, conseguem ter casa própria, assim como raras são as famílias que conseguem manter uma habitação condigna, mesmo quando se acumulam trabalhos sobre trabalhos. Não raras vezes, muito antes de chegarem à idade da reforma, trabalhadores que, durante décadas, deram o que de mais precioso tinham para oferecer, o seu tempo e dedicação, são atirados para o desemprego, sob a mera invocação de que as suas funções desapareceram ou que estão obsoletos.
Enquanto aceitarmos tudo quanto nos acontece com aquele sentimento de fatalismo tão tipicamente português, enquanto a vida corre através de nós sem lhe tocarmos, não podemos esperar outro destino, embalados que estamos pelo pouco que nos dão de volta.
Feito o diagnóstico, como podemos começar a melhorar o estado das coisas?
Desde logo, não aceitando de forma acrítica tudo que vemos nas redes sociais, que nos últimos tempos se têm tornado um local mal frequentado, repleto de “velhos do Restelo”, embora com uma imagem de jovens.
Depois, percebendo a lógica do capital e sem ter a ilusão de que o jogo não está viciado à partida, porque está. Não se enriquece de um momento para o outro a trabalhar com este sistema. Aliás, a forma como está montando apenas permite que sobrevivamos para continuarmos a fornecer mão-de-obra, de preferência barata, o mais barata possível.
Por último, percebendo que a vida não ocorre nos ecrãs, agarrar com ganas uma causa (ou, de preferência, mais do que uma…) e lutar por ela. Sejam os idosos, os animais, as condições de vida dos trabalhadores ou, mais genericamente, os desequilíbrios sociais. Enquanto as decisões se tomam nos gabinetes, ainda que virtuais, a verdadeira luta não mudou de local: é na rua, todos os dias, em cada gesto, em cada pensamento.
Viver pode ser muito mais do que aquilo a que nos querem remeter. Cabe-nos a nós quebrar os grilhões.
Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.