Uma rede universal de acessibilidade pode transformar transportes, museus, lojas, cinemas e espaços públicos
A acessibilidade não deveria começar quando alguém encontra uma barreira. Deveria estar incorporada no próprio desenho dos espaços que utilizamos todos os dias. E se uma estação, um supermercado, um museu ou um cinema pudesse comunicar diretamente connosco, de uma forma adaptada às necessidades de cada pessoa?
Foi desta pergunta que nasceu a ideia da Universal Access Network (UAN): uma infraestrutura multimodal capaz de distribuir informação, orientação e áudio através de diferentes meios. O conceito combina Bluetooth Auracast, aro de indução magnética (telecoil), informação visual, sinalizadores interativos e um possível recetor universal disponibilizado pelo próprio espaço.
Imagine-se uma estação ferroviária. Uma mudança de plataforma poderia ser transmitida diretamente para aparelhos auditivos, implantes cocleares, auriculares ou headphones compatíveis com Auracast. Simultaneamente, surgiria nos painéis visuais e poderia chegar a um recetor disponibilizado pela estação. Num aeroporto, aplicar-se-ia às portas de embarque e alertas; no metro, comboio ou autocarro, às paragens, ligações e ocorrências.
Mas porquê parar nos transportes?
Num supermercado ou megastore, pequenos sinalizadores ou botões acessíveis poderiam ajudar a localizar produtos, identificar uma prateleira, obter informação ou pedir assistência. Uma pessoa com baixa visão poderia receber indicações sonoras; uma pessoa com deficiência auditiva, informação diretamente no seu equipamento; um turista poderia selecionar outro idioma. E qualquer consumidor poderia beneficiar do mesmo sistema.
Num museu, a rede poderia disponibilizar audioguias, audiodescrição, orientação entre salas e diferentes idiomas. Num teatro ou sala de espetáculos, transmitir diretamente o áudio do palco, audiodescrição ou tradução. Num cinema, oferecer escuta assistida e audiodescrição, coexistindo com legendagem. Numa arena ou grande evento, acrescentar anúncios, informação de emergência e orientação.
Parte desta visão já é tecnologicamente possível. O Auracast, baseado em Bluetooth LE Audio, permite transmitir áudio para múltiplos recetores compatíveis. Começam inclusivamente a surgir implementações reais em espaços públicos.
Mas a UAN pretende ir além do Auracast. Não proponho substituir indiscriminadamente tecnologias existentes, nem criar mais um sistema reservado “às pessoas com deficiência”. Pelo contrário: proponho juntar áudio, texto, indução magnética, sinalização, vibração e interação numa infraestrutura comum, mantendo alternativas para quem ainda não disponha de equipamentos compatíveis.
É esta diferença que considero essencial. A verdadeira acessibilidade universal não obriga todas as pessoas a utilizarem a mesma solução; garante que a mesma informação pode chegar por caminhos diferentes.
A própria evolução europeia aponta para serviços e informação mais acessíveis e multissensoriais. A acessibilidade pode, portanto, deixar de ser encarada apenas como obrigação ou custo adicional. Pode significar melhor serviço, maior autonomia, segurança, inovação e uma experiência mais simples para todos.
Portugal poderia ser pioneiro através de projetos-piloto em estações, aeroportos, museus, supermercados, cinemas ou equipamentos culturais: começar numa área limitada, envolver pessoas com diferentes deficiências, testar em condições reais, medir resultados e expandir aquilo que funcionar.
Porque uma cidade verdadeiramente inteligente não é aquela que simplesmente acumula tecnologia. É aquela em que a tecnologia permite que mais pessoas compreendam o que acontece à sua volta, se orientem, participem e tomem decisões autonomamente.
Um espaço. Um sinal. Múltiplas formas de lhe aceder.
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