Hoje, na Foz, o papel ganhou vida. Transformou-se em vestidos, flores, lobos, sereias, personagens de fábulas e figuras saídas da imaginação de quem passou meses a cortar, coser, colar e dobrar papel crepe. Neste domingo, 30, centenas de pessoas encheram as ruas para assistir a uma das tradições mais singulares do Porto: o Cortejo dos Trajes de Papel de São Bartolomeu.
Eram cerca de 700 os figurantes. Crianças, jovens, pais, avós. Uns estreavam-se. Outros já perderam a conta aos anos em que fazem este caminho.
À frente do cortejo seguia uma imagem inesperada: o padre Jorge Cunha levava nas mãos a cabeça do Diabo. Há oito anos na paróquia, o sacerdote participa sempre nesta festa. Desta vez decidiu vivê-la de dentro. “Já participei algumas vezes como convidado, mas hoje venho como figurante”, contava, enquanto seguia com o cortejo. E a cabeça do Diabo não estava ali por acaso.“É mandar os diabos para o fundo do mar”, explicava.
Para o padre Jorge Cunha, por detrás da alegria popular existe um significado mais profundo. O mar, dizia, é lugar de origem e de renovação. “O mergulho tem um significado muito grande. É uma renovação da vida, um mergulho de pureza. Mudar a pele significa também mudar de vida.”
Muito antes dos vestidos de papel, já São Bartolomeu levava multidões à Foz. A romaria remonta ao século XIX e nasceu ligada a antigas crenças populares. Dizia-se que, por altura do dia de São Bartolomeu, o santo estava nas águas enquanto o Diabo andava à solta. Homens, mulheres e crianças procuravam então o mar na esperança de encontrar proteção contra doenças de pele, gaguez e outros males. O banho ganhou fama de milagroso. Décadas mais tarde, nos anos 30 do século XX, apareceu uma nova tradição: os trajes de papel, associados à chamada “Festa do Banheiro” e cuja introdução é atribuída ao antigo embarcadiço conhecido por “Costa Padeiro”.
O primeiro Cortejo dos Trajes de Papel realizado no dia de São Bartolomeu aconteceu em 1952. Em 1963, Joaquim Picarote, conhecido bairrista da Foz, deu novo impulso à celebração. O tempo mudou a festa, mas não lhe retirou a essência.
Desde finais da década de 1970, a organização passou para a Junta de Freguesia e, depois da criação da União das Freguesias de Aldoar, Foz do Douro e Nevogilde, em 2013, nasceu também o Atelier de São Bartolomeu. Hoje, fazer um fato continua a exigir meses de trabalho.
E talvez seja precisamente aí que esteja parte do segredo desta festa: antes de existir desfile, existe encontro. Três meses à volta do papel. Conceição Mota sabe bem o que isso significa. Participa há mais de 20 anos e, para ela, São Bartolomeu começa muito antes de o primeiro figurante entrar na Rua das Sobreiras. “Estamos três meses a preparar esta festa. Gosto muito de fazer as roupas de papel. É sempre uma alegria e há um convívio muito grande durante estes meses. Sentimo-nos unidos.”
Depois chega o dia do cortejo. E chega também aquele momento difícil para quem passou semanas a cuidar de cada detalhe do vestido: entrar no mar e deixar a água desfazer aquilo que levou meses a criar.
Conceição sorri perante a contradição. “Às vezes custa dar o mergulho com uma roupa tão linda, que fizemos durante três meses. Mas é a tradição. É um banho santo.”
Ao seu lado há histórias ainda mais antigas. Maria nasceu na Cantareira e não sabe separar as memórias da família das memórias desta festa. “Desde a minha avó que participamos”, conta. Este ano saiu à rua vestida de minhota. O traje deu muito trabalho, reconhece, mas basta olhar para ele para perceber o orgulho. “São lindos.” Maria, porém, já decidiu: desta vez não haverá mergulho. “Eu não vou tomar banho. Vou ficar com o fato. ”Mais importante do que molhar o papel”, diz, é garantir que a tradição não se perde. “Participo para passar isto à juventude, para esta festa nunca acabar.”
Foi precisamente essa mistura de gerações que voltou a marcar o cortejo deste ano, dedicado ao tema “Fábulas e Lendas”.
O Atelier de São Bartolomeu, o bloco da União das Freguesias e as escolas EB1 São João da Foz, EB1 São Miguel de Nevogilde e EB1 Paulo da Gama apresentaram “Beleza, Ciúme e Amizade”, numa adaptação livre inspirada nos jardins do Palácio de Cristal.
O Orfeão da Foz do Douro trouxe “O Canto da Sereia”. A Associação de Moradores de Aldoar levou para a rua “O Capuchinho Vermelho”, enquanto a Associação de Moradores do Bairro Social da Pasteleira recriou personagens dos contos dos irmãos Grimm.
O Desportivo Operário Fonte da Moura escolheu “Pedro e o Lobo”, enquanto o Paraíso Sport Club da Foz, acompanhado pela Batucada Radical, desfilou com “A Festa das Rosas”.
Durante toda a manhã, a Foz foi assim uma espécie de enorme livro de histórias aberto junto ao Atlântico. Música. Bombos. Famílias encostadas aos passeios. Telemóveis levantados para guardar uma fotografia e gente à janela a ver passar os vestidos impossíveis, feitos de matéria tão frágil como o papel.
Também no cortejo seguia Cláudia Bravo, presidente da União das Freguesias de Aldoar, Foz do Douro e Nevogilde e uma das grandes impulsionadoras da celebração. Não ficou a assistir de fora. Desfilou também, com um vestido de papel criado sob coordenação de Joana Barbot.
Para Cláudia Bravo, o recente reconhecimento do Cortejo dos Trajes de Papel no Inventário Nacional do Património Cultural Imaterial pertence, antes de tudo, às pessoas da Foz. “Acima de tudo, é uma homenagem à comunidade e às pessoas que, há décadas, dedicam tempo, criatividade e talento para que esta tradição continue a emocionar quem a vive e quem a visita.”
Talvez seja essa a palavra certa: comunidade. Porque os 700 figurantes que hoje percorreram a Rua das Sobreiras, o Passeio Alegre e a Rua Senhora da Luz não apareceram apenas para desfilar. Atrás de cada vestido existem mãos. Existem horas de trabalho. Existem escolas, associações, artesãos, costureiras, voluntários e famílias inteiras.
Existem avós que ensinaram filhos e filhos que agora tentam convencer os netos a continuar.
O cortejo aproximou-se da Praia do Ourigo. Depois de quilómetros de cor, música e festa, lá estava o Atlântico. Era o destino de todos desde o início. A pouco e pouco, os figurantes aproximaram-se da água. Alguns agarravam os vestidos como se ainda fosse possível protegê-los. Outros entravam sem hesitar. E então aconteceu aquilo que acontece há gerações: a entrada no mar.
O papel crepe, cuidadosamente trabalhado durante meses, encontrou finalmente a água. As formas começaram a perder-se, as cores misturaram-se e os vestidos que durante algumas horas tinham transformado a Foz desapareceram lentamente no banho de São Bartolomeu.
Para uns, um banho santo. Para outros, superstição, memória ou simplesmente festa.
Para o padre Jorge Cunha, renovação. Para Conceição, uma tradição que justifica até desfazer no mar três meses de trabalho. E para Maria, que preferiu guardar o seu fato de minhota, uma herança que precisa de chegar aos mais novos. Talvez São Bartolomeu seja tudo isso ao mesmo tempo.
Uma festa feita de papel, mas com raízes demasiado fundas para que a água as consiga desfazer.
Hoje, na Praia do Ourigo, os vestidos voltaram a desaparecer no mar.
A tradição ficou em terra.