Há momentos em que a paz pode ser tão difícil de vender politicamente como uma guerra. Israel chegou a um deles. A recusa de Benjamin Netanyahu em aceitar o plano de 15 pontos do Board of Peace de Donald Trump não pode ser lida apenas como mais um episódio da intransigência do primeiro-ministro israelita. Por detrás dela existe uma questão muito mais profunda: depois de 7 de outubro, quem consegue convencer os israelitas de que uma retirada significa paz e não apenas preparar o terreno para a próxima guerra?
O plano parece razoavelmente simples no papel: desarmamento do Hamas, retirada faseada das forças israelitas, uma administração palestiniana tecnocrática e uma força internacional de estabilização. Netanyahu exige que o Hamas esteja genuinamente desarmado antes de qualquer retirada. É uma exigência política, certamente, mas nasce também de uma memória que Israel ainda não conseguiu transformar em passado e ela só aumenta com a incapacidade demostrada pelos EUA na questão do Irão.
O 7 de Outubro destruiu uma das certezas fundadoras do Estado: a de que seria capaz de proteger os israelitas dentro das suas próprias fronteiras. Há comunidades junto a Gaza onde o regresso continua incompleto e famílias para quem voltar significa regressar ao lugar onde descobriram que a cerca, o Exército e a Mossad podiam falhar simultaneamente. É difícil explicar-lhes que desta vez devem confiar.
Sobretudo porque também não convém atribuir ao Board of Peace uma capacidade que ainda não demonstrou. A força internacional deveria ser um dos pilares do pós-guerra, mas continua muito aquém da ambição anunciada. Cinco países manifestaram intenção de contribuir com tropas, mas a mobilização arrastou-se. O primeiro projeto concreto conhecido prevê instalações para cerca de 150 militares marroquinos, quando se falava de milhares. Entregar a segurança a uma força que, por enquanto, existe mais nos organigramas do que no terreno exige uma fé que Israel já não possui.
Mas seria igualmente ingénuo transformar Netanyahu apenas no intérprete do trauma nacional. Israel vai a eleições no final de outubro e o primeiro-ministro enfrenta uma batalha difícil. As sondagens têm colocado o seu bloco longe dos 61 deputados necessários para uma maioria e Gadi Eisenkot transformou-se num adversário perigoso. No final de julho, o Yashar aparecia com 23 lugares, à frente do Likud. Netanyahu pode sobreviver ao isolamento internacional. Ao que dificilmente sobreviverá é à perda da direita israelita.
E essa direita está sentada à mesa do governo. Bezalel Smotrich e Itamar Ben-Gvir representam um eleitorado para quem uma retirada pode ser apresentada como fraqueza e um compromisso territorial como risco existencial. Smotrich enfrenta ainda a possibilidade de ficar abaixo do limiar eleitoral. Para Netanyahu, cada voto perdido à direita não é uma abstração ideológica. Pode ser a diferença matemática entre governar e partir.
Gaza tornou-se, assim, política interna. A emergência favorece um primeiro-ministro cuja principal credencial eleitoral continua a ser a segurança. Isto não significa necessariamente que Netanyahu deseje uma guerra eterna. Significa algo politicamente mais prosaico: qualquer paz terá de ser compatível com a sua sobrevivência.
E existe finalmente a América. Washington continua a ser o aliado indispensável e o principal garante estratégico de Israel. Mas a América de Trump é também transacional, impaciente e imprevisível. Um aliado pode ser indispensável sem ser tranquilizador. Entre Gaza, o Irão e as oscilações da Casa Branca, muitos israelitas descobriram que até a relação mais importante da sua segurança nacional deixou de oferecer certezas absolutas.
Talvez seja esse o erro de origem de muitas discussões sobre Gaza. Fala-se da paz como se bastasse desenhá-la num documento. Israel precisa dela, mas precisa de acreditar que não será apenas o intervalo entre duas guerras. Os palestinianos precisam de um futuro que não seja uma sucessão de ruínas, deslocações e sobrevivência. E Washington precisa de perceber que uma fotografia de paz não é ainda a paz, mas será que Trump quer entender isso?
Netanyahu conhece Trump, conhece a sua direita e conhece, sobretudo, o medo dos israelitas. Pode usar esse medo para ganhar eleições. O problema é que nenhum país consegue construir indefinidamente a sua segurança sobre o medo. E nenhuma paz sobreviverá se aqueles que têm de a viver acreditarem que ela os tornou menos seguros.
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