Não haja ilusões: ver um eclipse total, mesmo por escassos segundos, não tem qualquer comparação com a experiência de assistir a um eclipse parcial – mesmo que a sombra deste esteja para lá dos 99 por cento. O momento em que a Lua tapa o Sol, projetando uma estreita faixa de sombra sobre a área do planeta em que temos a sorte de nos encontrar, é absolutamente único e, creio, irrepetível. Percebemos isso com a beleza que sabemos efémera do momento, mas também com reação da natureza envolvente: das pessoas, dos animais, até das condições atmosféricas, com a ligeira descida da temperatura e o aparecimento de uma brisa que nos abraça a pele, enquanto não conseguimos deixar de olhar para o bailado dos dois astros, num céu que vai mudando de tonalidades.
Um eclipse total permite-nos ainda, em alguns segundos, estabelecer uma ligação física e sensorial com a natureza e o universo. Sentimo-nos parte de um todo, de uma forma para a qual não costumamos olhar. E o momento é partilhado, no local de observação, com um sentido de comunidade que só mesmo os momentos transcendentais nos proporcionam.

Assisti ao eclipse de 12 de agosto na zona mais elevada da pequena aldeia de Paradores de Castrogonzalo, na província de Zamora. Com apenas 18 habitantes registados, num aglomerado de casas que se percebem vazias, com as suas paredes de tijolo, ainda inacabadas, a aldeia é o exemplo perfeito da chamada España Vaciada (Espanha Vazia) – o nome por que é hoje conhecido o interior rural abandonado, sobretudo nas províncias de Castela-Leão, Castela-La Mancha e Extremadura, junto da fronteira com Portugal.
Para ver o eclipse naquele local ermo e pobre, com vista desafogada sobre o extenso planalto, juntaram-se algumas dezenas de forasteiros, todos com o mesmo instrumento distintivo: óculos de “lentes” prateadas, que permitem “filtrar” a luz do Sol sem queimar a retina.
Aos poucos, a comunidade foi-se formando, mesmo com nacionalidades e línguas diferentes. De repente, apareceu um casal de brasileiros – a viver em Lisboa – equipados com um telescópio – rapidamente instalado num local da primeira linha da ravina, junto dos tripés de quem procurava registar o momento único, fosse com câmaras fotográficas ou com telemóveis.
Quando a Lua iniciou o seu movimento sobre o Sol, todos quiseram ir ver de perto o bailado. E o potente telescópio dos dois astrónomos amadores proporcionou alguns “ais” e “uis” aos que pediram licença para olhar pelo visor ou foram convidados a registar algumas imagens, através do vidro do aparelho.

Para proporcionar melhores condições de visualização, um dos habitantes da aldeia apareceu e convidou quem quisesse a subir para o terraço no piso superior de uma velha garagem, com ar abandonado. De imediato, um grupo de jovens ali se instalou, de forma eufórica.
Foi nesse anfiteatro improvisado, numa zona abandonada de Espanha, que se iniciou a contagem decrescente para o momento mais aguardado, já com o Sol reduzido a uma pequena e ténue linha no horizonte. A escuridão súbita fez soltar muitos “ohs” e diversas palmas de entusiasmo. Mas também muitos sorrisos e alguns arrepios. Era o momento de retirar os óculos dos olhos e os filtros das máquinas fotográficas. E deixar-nos envolver pela escuridão efémera, mas sobretudo pela sensação eterna de se ver aquilo que nunca se tinha visto – em comunhão com a natureza e, em simultâneo, percebendo também a nossa privilegiada pequenez no universo.
A vida é feita de memórias. É forjada pelas experiências que nos marcam, pelas sensações que nos surpreendem, pelas emoções que, tantas vezes, desafiam a racionalidade. Um eclipse total do Sol consegue condensar, em instantes, a magia e a beleza do que é efémero. Mas recorda-nos também, de uma forma única e bela, o nosso papel na natureza e no cosmos. Lembra-nos que saber olhar para o céu e compreendê-lo foi decisivo para o avanço do conhecimento e da Humanidade. E lembra-nos também o quanto é importante para nós, humanos, conseguirmos surpreender-nos e maravilhar com a beleza das coisas naturais e simples.
Por isso mesmo, após o eclipse houve uma celebração genuína e sonora a “acordar” o habitual silêncio em que está mergulhado Paradores de Castrogonzalo. Bateram-se palmas, partilharam-se fotografias e até se ergueram taças de espumante, a celebrar o momento. Perante o belo podemos, afinal, ser todos iguais – assim saibamos apreciar e respeitar a natureza e o Universo.
O vídeo do eclipse em 26 segundos: