As comédias românticas começam normalmente com um rapaz, uma rapariga e um encontro inesperado. Apenas Uma Noite começa com o Governo dos EUA a decidir que os solteiros não podem fazer sexo. Convenhamos que é uma maneira bastante eficiente de estragar logo um primeiro encontro.
Nesta Nova Iorque ligeiramente futurista e talvez “pós-trumpyana” uma vaga acentuadamente conservadora levou à proibição do sexo pré-matrimonial. O cidadão pode trabalhar, pagar impostos, apanhar o metro, comer pizza e discutir política, mas meter-se na cama com alguém sem certidão passada pelo registo civil pode acabar com a polícia à porta. Uma vez por ano, porém, o Estado abre uma janela de doze horas e diz: pronto, agora podem. É uma espécie de tolerância de ponto sexual.
Nessa noite, os biossensores mudam de cor, os preservativos tornam-se bens de primeira necessidade, os preços disparam, o trânsito bloqueia e o metro enche-se de gente com um objectivo bastante mais concreto do que chegar a casa. É como a saga de A Purga (2013), só que em vez de machetes há aplicações de encontros, ansiedade, hormonas e contracepção obrigatória.
O sexo transformado em feriado nacional
Will Gluck pega nesta premissa completamente idiota — e uso “idiota” como elogio — e faz aquilo que melhor sabe: uma comédia romântica rápida, lustrosa, pop e descaradamente comercial. Depois de Todos Menos Tu, o enorme regresso do realizador ao género, Gluck volta aos encontros, desencontros, corpos bonitos, diálogos rápidos e pessoas que passam hora e meia a não perceber aquilo que o espectador percebe ao fim de dez minutos. Apenas Uma Noite estreia-se nas salas portuguesas esta quinta-feira 13 de Agosto, com o calor do verão a apertar os corpos.
Claro que a ideia é tão grande que ameaça engolir o filme. Basta pensar nela durante vinte segundos e surgem perguntas suficientes para abrir um questionário de escolha múltipla, uma comissão de inquérito ou de justiça no Congresso. Quem fiscaliza exactamente? O que conta como sexo? E os casados podem divertir-se quando lhes apetecer? E a masturbação dispara o biossensor? Porque não se casam todos numa segunda-feira e se divorciam na terça? Existem casamentos low-cost? Há pacotes de lua-de-mel de vinte minutos?
O argumento foge destas perguntas como um adolescente foge de uma conversa familiar sobre educação sexual. E talvez faça bem. Porque Apenas Uma Noite não quer ser uma espécie de George Orwell com Viagra. Quer juntar duas pessoas bonitas em Manhattan e ver o que acontece. Owen, interpretado por Callum Turner, gere uma pizzaria e entra na grande noite nacional do sexo convencido de que tem a vida organizada. Naturalmente, não tem. A namorada troca-lhe as voltas e ele acaba subitamente lançado no mercado carnal nova-iorquino com a expressão de quem entrou num supermercado cinco minutos antes de fechar e descobriu que todos procuram exactamente o mesmo produto: preservativos.
Monica Barbaro entra, Callum Turner tenta acompanhar
Turner vem de Eternity – Para Sempre, onde já andava metido num triângulo amoroso, embora nesse caso fosse no além, o que prova que o homem tem algum azar geográfico
no amor. Aqui é encantador, desajeitado quanto baste, com aquela elegância britânica que faz parecer que até amassar massa de pizza exige formação em Oxford. Mas Apenas Uma Noite pertence sobretudo a Monica Barbaro.
Depois de Crime 101 e, sobretudo, da sua estupenda Joan Baez em A Complete Unknown, interpretação que lhe valeu uma nomeação ao Óscar de melhor actriz secundária, Barbaro chega finalmente ao território da grande protagonista romântica e ocupa-o com uma facilidade quase irritante. Já em Top Gun: Maverick se percebia que havia ali muito mais do que mais uma cara bonita ao lado de Tom Cruise. Aqui confirma-se. Barbaro tem timing, presença, sensualidade, ironia e aquela qualidade muito rara no cinema comercial americano de parecer estar efectivamente a pensar enquanto diz uma piada. Allie é uma aspirante a cantora que sobrevive a gravar jingles farmacêuticos — uma profissão que, só por si, merecia outro filme — e continua a acreditar romanticamente que algures em Nova Iorque existe “a pessoa certa”. O azar é procurar essa pessoa precisamente na noite em que milhões de nova-iorquinos estão sobretudo interessados na “pessoa disponível”. E é aqui que Apenas Uma Noite encontra aquilo que nenhuma tecnologia de Hollywood consegue fabricar: química.
Barbaro e Turner funcionam. Picam-se, irritam-se, riem-se, afastam-se, reencontram-se e passam boa parte da noite a ajudar-se mutuamente a encontrar outras pessoas, o que é aproximadamente como entrar num restaurante excelente e perguntar onde fica o McDonald’s mais próximo. Quanto mais tentam não acabar juntos, mais evidente se torna que só podem acabar juntos.
Um daqueles filmes que Hollywood quase deixou de fazer
Ben Marshall surge no meio desta fauna — acompanhado por Maya Hawke, Julia Fox, Molly Ringwald, LeVar Burton e uma quantidade simpática de aparições — e ajuda a transformar Nova Iorque numa gigantesca feira popular sentimental, sexual e hormonal.
A cidade é, aliás, a terceira protagonista. Está filmada como postal turístico, claro, mas um postal com suor, táxis, pizzarias, bares, apartamentos minúsculos, estações de metro e gente a correr desesperadamente para chegar a algum lado antes que às sete da manhã o sexo volte a constituir matéria para o Código Penal.
Apenas Uma Noite é meio tonto? Muito. Há momentos em que parece ter sido imaginado depois de quatro cocktails e aprovado pelo estúdio ao quinto. A sátira política fica pela rama, a lógica tem buracos onde cabia o Lincoln Tunnel e é particularmente divertido descobrir que uma comédia inteiramente construída à volta do sexo consegue ser, afinal, bastante pudica. Mas também é um daqueles filmes que Hollywood praticamente deixou de fazer: duas estrelas adultas, uma cidade verdadeira, diálogo, desejo, encontros, desencontros, música pop e a velha convicção de que talvez seja suficiente pôr duas pessoas interessantes no mesmo enquadramento e deixá-las falar. Portanto, não reinventa a comédia romântica. Nem precisa.
Devolve-lhe movimento, charme, alguma sensualidade e uma bela dose de estupidez saudável. Callum Turner sai muito bem da noite. Monica Barbaro sai ainda melhor: confirma definitivamente que já não está apenas a caminho de ser uma estrela. Chegou.
E no fim talvez a maior fantasia de Apenas Uma Noite nem seja imaginar um Governo americano a proibir o sexo fora do casamento. É Hollywood continuar a acreditar que duas pessoas podem apaixonar-se numa noite sem super-heróis, multiversos, inteligência artificial, dinossauros, terror, suspense, extraterrestres ou uma sequela já marcada para 2029. Hoje em dia, isso sim nos filmes de Hollywood, já começa a parecer ficção científica.