Podemos ter a sensação de que o mar na praia que frequentamos não anda muito diferente de verões anteriores, arrancando-nos à mesma um “Brrr, que gelo!” quando pomos um pé na água, mas os oceanos do mundo atingiram temperaturas recorde, pelo segundo mês consecutivo, em julho. Segundo o Serviço de Monitorização das Alterações Climáticas Copernicus – que realiza medições utilizando milhares de milhões de dados de satélite e meteorológicos desde 1940 –, no mês passado a temperatura média global da superfície do mar foi de 20,96 °C, superando o anterior recorde de 2023.
Temperatura média. Global. E em julho. Porque, já em agosto e nalguns pontos específicos do planeta, o mar anda ultimamente ainda mais quente.
De acordo com o sistema de monitorização do Centro de Estudos Ambientais do Mediterrâneo (CEAM), cerca de 62% deste mar encontra-se em condições de onda de calor marinha, com uma temperatura média da água superficial de 28,2 °C, quase 2 °C acima do valor médio das últimas décadas. Temperatura média, repita-se. Porque, em várias boias colocadas ao largo das ilhas Baleares, têm sido registados recordes excecionais: na tarde de 5 de agosto, foram medidos 33,02 °C perto do ilhéu Sa Dragonera, a sudoeste de Maiorca; e na tarde do passado sábado, 8, estiveram 32,36 °C na boia de Maó, a leste de Menorca.
O poderoso El Niño que se está a formar no Pacífico “é provavelmente a força motriz” por detrás destas temperaturas excecionalmente quentes em partes do Mediterrâneo e do Atlântico, já afirmou o diretor do Copernicus, Carlo Buontempo. “Estamos perante um El Niño possivelmente sem precedentes em termos de amplitude”, disse o cientista. “E é evidente que a contribuição vinda do Pacífico tropical está a tornar-se bastante importante.”
O El Niño é a fase quente de um ciclo climático natural que funciona como um amplificador temporário das temperaturas no Pacífico tropical. E o que acontece no oceano não fica no oceano – o calor é libertado do mar para a atmosfera, elevando as temperaturas globais de um planeta que não tem parado de aquecer graças aos gases com efeito de estufa.
Os oceanos absorvem a maior parte do excesso de calor causado pelas nossas emissões de carbono. Ainda assim, o mês passado foi o segundo julho mais quente de que há registo, com uma temperatura média do ar à superfície 1,47 °C acima do nível pré-industrial. Os cientistas do Copernicus lembram que o último El Niño contribuiu para que 2023 e 2024 se tornassem o segundo e o primeiro anos mais quentes de que há registo, e preveem um novo recorde para as temperaturas médias globais já este ano ou no início de 2027.
Quase todos os modelos de previsão sazonal disponíveis para cientistas climáticos e meteorologistas estão a prever um evento El Niño sem precedentes, avisou em julho a Union of Concerned Scientists (UCS), uma organização sem fins lucrativos fundada em 1969 por cientistas e estudantes do MIT. “E um super El Niño levará quase certamente as temperaturas a níveis recorde”, lembrou recentemente o investigador Marc Alessi. Existe a possibilidade de atingirmos uma temperatura média global mensal de mais 2,5 °C, bem acima das metas estabelecidas no Acordo de Paris sobre o Clima.
O mar nunca esteve tão quente e já estamos a sentir efeitos em terra.