“As mulheres sustentam metade do céu”: é uma das metáforas atribuídas ao fundador da República Popular da China, Mao Tsé-Tung, citadas ainda hoje como ilustração do empenho comunista na emancipação feminina. Demográfica e socialmente, porém, a situação é muito diferente da que vigorou durante os 27 anos do governo maoista. Uma destacada feminista chinesa, Lu Pin, considera que a acentuada e persistente queda da natalidade que se verifica atualmente é “uma forma de desobediência não violenta ao Estado patriarcal”.
Desde o final dos anos 70 até 2016 – o tempo em que os casais urbanos só podiam ter um filho –, o número de crianças do sexo feminino nascidas na China diminuiu drasticamente. A política era drástica, mas a tradição resistiu. São os filhos do sexo masculino que continuam a perpetuar o apelido da família.
O aborto tornou-se prática corrente, mesmo ao fim de quatro meses de gravidez, se o feto não era do sexo masculino. Segundo estatísticas do Ministério da Saúde, em 2008, por exemplo, o número de abortos ultrapassou os nove milhões. Uma ONG cristã, fundada nos EUA por exilados chineses, falava em 13 milhões. Dezenas de milhares de crianças do sexo feminino foram abandonadas e entregues para adoção. Resultado: hoje, ao contrário do que acontece em Portugal e noutros países europeus, na China há mais homens do que mulheres. O défice de mulheres é especialmente acentuado na população entre os 22 e os 37 anos, a idade em que a esmagadora maioria espera casar-se. Espera, mas não consegue: há cerca de 120 homens por 100 mulheres, e o casamento entre pessoas do mesmo sexo – reivindicado há mais de duas décadas pela socióloga Li Yinhe – ainda não foi autorizado, nem está sequer na agenda dos deputados da Assembleia Nacional Popular a quem ela se tem dirigido.
Cada vez mais instruídas, as mulheres constituem já a maioria dos estudantes universitários. Muitas optam por ir adiando o casamento e privilegiam a carreira profissional à maternidade. Mesmo depois da abolição da política de “um casal, um filho” e da concessão de incentivos financeiros à natalidade (prémios, subsídios e abonos), o número de nascimentos não aumentou. Pelo contrário: em 2025 foram apenas 7,92 milhões – menos de metade do que dez anos antes – e em 2022, a população começou mesmo a diminuir. O país mais populoso do planeta, título sempre ou quase sempre ostentado pela China, é agora a vizinha Índia. Numa entrevista publicada em 2024, Lu Pin previu que “o entusiasmo das mulheres pelo casamento e por ter filhos continuará a diminuir”. “Penso que isto é a crise mais importante que a China enfrentará”, acrescentou.
No plano político institucional, a influência das mulheres nunca foi proporcional à “metade do céu”. Por coincidência, a que chegou mais longe na liderança comunista foi a última mulher do próprio Mao Tsé-Tung, Jiang Qing, e não acabou bem. Em outubro de 1976, menos de um mês depois da morte do marido, seria presa e acusada de liderar uma “clique contrarrevolucionária”. Condenada a prisão perpétua, suicidou-se 15 anos mais tarde.
Hoje as mulheres são quase um terço dos cerca de 100 milhões de filiados no Partido Comunista Chinês, mas no Comité Central, constituído por 376 membros efetivos e suplentes, a percentagem não chega a 10%. No Politburo, a cúpula do poder, não há uma única mulher e no Conselho de Estado, o executivo do governo central, com oito elementos, apenas uma: Shen Yiqin, nascida em 1959, que é também presidente da Federação Nacional das Mulheres Chinesas. Entre os 26 ministérios e comissões estatais, há duas mulheres: He Rong, 63 anos (Justiça) e Wang Xiaoping, 62 (Recursos Humanos e Segurança Social).
Na área empresarial, no entanto, muitas mulheres têm tido grande sucesso e detêm algumas das maiores fortunas do país. Uma das mais conhecidas é a CEO da Lens Technology, Zhou Qunfei, fabricante dos ecrãs dos iPhones. Nascida em 1970 numa família pobre da província de Hunan, começou a trabalhar aos 15 anos numa fábrica de vidro de Shenzhen. Em 1993 estabeleceu-se por conta própria.
Em maio passado, no Grande Palácio do Povo, em Pequim, durante o banquete de Estado oferecido por Xi Jinping à milionária comitiva de Donald Trump, aquela antiga operária ficou sentada entre Elon Musk e o patrão da Apple, Tim Cook. Pelas contas da revista Forbes, na lista das dez maiores bilionárias chinesas, Zhou Qunfei ocupa o 4º lugar, com uma fortuna estimada em 11,5 mil milhões de dólares.
Como se dizia outrora acerca da Grande Revolução Cultural Proletária, “metade do céu” está “a avançar a todo o vapor”.
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