Atualmente, a Europa atravessa um período de transformação social, económica e política que será um dos momentos mais desafiantes desde o final da Guerra Fria. A crescente radicalização do debate político, a perceção de inação política e o aumento do descontentamento dos cidadãos pressionam as instituições e fragilizam as democracias europeias.
Nos últimos tempos, o aumento do custo de vida em todos os países europeus, a dificuldade de muitos jovens europeus em comprarem a sua primeira habitação e a sucessiva instabilidade no panorama internacional face aos conflitos e à imprevisibilidade dos Estados Unidos têm contribuído para o aumento do descontentamento das populações face aos governos e às instituições do Estado de Direito.
Segundo os dados da Pordata e da Fundação Francisco Manuel dos Santos (FFMS), cerca de oito a cada dez cidadãos tendem a não confiar no sistema partidário português e 62% manifestam desconfiança face ao Parlamento português. Estes dados não representam uma crise de credibilidade das instituições, mas sim, uma crescente distância entre as instituições e as pessoas.
Este contexto político no continente europeu tem fortalecido movimentos e partidos populistas que se apresentam como alternativas ao sistema político. Existem diversas formas de populismo face à realidade social e política de cada país, mas uma das características mais evidentes em todos os movimentos é a defesa de uma solução simples para problemas complexos. Esta característica é o reflexo da degradação do espaço político e da perigosidade que o discurso populista pode ter relativamente aos problemas reais das pessoas.
Porém, o fortalecimento do populismo nos países europeus é o exemplo da inação política de muitos atores políticos face às preocupações reais dos eleitores. O imobilismo político é um dos principais motores da ascensão do populismo nas democracias europeias, e torna-se um desafio à capacidade das democracias liberais de defenderem a promoção do debate maduro e sério sobre soluções concretas para os problemas reais.
A inação política não é só uma perceção e um dos principais motivos para o crescimento do populismo, mas um sintoma das transformações rápidas do mundo contemporâneo. Cada vez mais, uma sociedade é marcada pela rapidez da informação e pela exigência de soluções para o imediato, algo em que a democracia já demonstrou, diversas vezes ao longo da sua história, que as soluções reais para os problemas complexos de uma sociedade exigem tempo e negociação para terem a efetividade que todos querem. Nesse sentido, a demora pode ser interpretada como incapacidade de resposta face aos problemas dos cidadãos, apesar de existirem casos em que é evidente a falta de vontade política.
Por outro lado, a aceleração da história faz com que as sociedades não acompanhem as mudanças estruturais do tempo, e as plataformas digitais são exemplo disso face à relação entre governantes e governados. Tanto contribui para uma maior participação política pelos mais jovens, como também fragiliza a democracia com a desinformação e o aumento da polarização política.
O último perigo para a Europa é o crescimento do descontentamento das populações face à realidade europeia e do mundo, mas, acima de tudo, à realidade económica, social e política de cada país europeu, porque a perceção de inação política e o aumento exponencial dos movimentos populistas nas sociedades europeias farão com que os atores políticos não tenham espaço de manobra para solucionar os problemas reais com tempo e credibilidade, tal como a pressão política é muito maior quando o descontentamento se torna combustível político para os populismos.
Neste sentido, as democracias europeias têm de mostrar, mais uma vez, a força da resiliência europeia e a defesa intransigente dos valores da democracia. Os cidadãos precisam de uma política de proximidade, de auscultação, mas, principalmente, de uma política concreta para voltar a trazer a confiança às pessoas e a credibilidade às instituições democráticas.
O mundo de hoje acelera no tempo com mudança e rapidez. A Europa precisa de se reinventar e aproximar-se dos cidadãos. O desafio da minha geração não é só resistir aos populismos, mas também renovar a esperança de que a democracia continua a ser o melhor regime político. Como dizia Winston Churchill, “Democracy may be the worst form of government, except for all the others that have been tried ”. Cabe-nos, por isso, torná-la mais próxima e capaz de responder às preocupações dos europeus.
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