Todos os verões assistimos ao mesmo debate. Com mais tempo livre e menos rotinas, aumenta o tempo que crianças e jovens dedicam aos videojogos, o que leva muitos pais a questionarem se esse tempo está a ser bem aproveitado. A preocupação é legítima, mas continua a existir uma ideia que merece ser revista: a de que os videojogos são, por definição, uma atividade solitária e socialmente isoladora.
A realidade é hoje bastante diferente. Os videojogos evoluíram muito nas últimas décadas. Se antes predominavam experiências individuais, hoje muitos dos títulos mais populares assentam na cooperação, na comunicação e no trabalho em equipa. Milhões de pessoas encontram-se diariamente em ambientes digitais para resolver desafios em conjunto, criar estratégias e partilhar momentos de lazer. Tal como acontece numa atividade desportiva ou num jogo de tabuleiro, existe interação, colaboração e aprendizagem.
Durante as férias, esta dimensão social torna-se ainda mais evidente. Para muitas crianças e adolescentes, os videojogos são uma forma de manter contacto com os amigos quando cada um segue para um destino diferente. Enquanto alguns passam o verão na praia e outros no campo ou no estrangeiro, continuam a encontrar-se virtualmente para jogar, conversar e partilhar experiências. A distância física deixa, assim, de ser um obstáculo à manutenção das amizades.
O mesmo acontece entre familiares. Avós, pais, filhos e irmãos podem encontrar nos videojogos uma atividade comum, independentemente da idade ou da experiência de cada um. Jogar em família é uma oportunidade para criar memórias, rir em conjunto e conhecer melhor os interesses das gerações mais novas. Para muitos pais, é também uma forma de compreender o universo digital dos filhos, transformando o tempo de jogo num momento de diálogo em vez de um motivo de conflito.
Importa ainda reconhecer que jogar em equipa implica desenvolver competências que vão muito além do entretenimento. Comunicar de forma eficaz, cooperar para atingir um objetivo comum, tomar decisões sob pressão, gerir frustrações, respeitar regras e assumir responsabilidades são capacidades frequentemente presentes em muitos videojogos atuais. Estas competências, quando enquadradas de forma saudável, podem ser úteis em diferentes contextos da vida, da escola ao futuro profissional.
Naturalmente, isto não significa que todos os videojogos tenham o mesmo potencial nem que o tempo de jogo deva ser ilimitado. O equilíbrio continua a ser fundamental. As férias devem incluir atividade física, convívio presencial, descanso, leitura e contacto com a natureza. Os videojogos não substituem estas experiências; podem, sim, fazer parte de um conjunto diversificado de atividades que enriquecem o tempo livre.
Também é importante que os adultos acompanhem esta realidade. Demonstrar interesse pelos jogos dos filhos, perceber com quem jogam, conversar sobre as suas experiências e utilizar ferramentas como o sistema PEGI e os controlos parentais são formas eficazes de promover uma utilização responsável. Este acompanhamento contribui igualmente para reforçar a literacia digital e para que os videojogos deixem de ser uma “caixa negra”, passando a constituir mais um espaço de partilha entre pais e filhos.
É tempo de ultrapassarmos alguns preconceitos que continuam associados aos videojogos. Como qualquer forma de entretenimento, o seu impacto depende da forma como são utilizados. Quando existe moderação, acompanhamento e escolhas adequadas, os videojogos podem aproximar pessoas, fortalecer relações e contribuir para o desenvolvimento de competências sociais importantes.
Neste verão, talvez valha a pena trocar a pergunta “Quanto tempo estiveste a jogar?” por outra bem diferente: “Com quem jogaste hoje?”. Muitas vezes, a resposta mostra que, por detrás de um ecrã, também existem amizade, cooperação e momentos de verdadeira ligação entre pessoas.
Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.