A história do humano no mundo é de milénios e milénios, não havendo sequer bem noção, se pensarmos nisso, a partir de que momento começa e em que momento poderá, realmente, acabar. O humano, visto à luz do que tem sido, parece ser um agente indissociável do tal mundo, mais parecendo, até, que desenvolveu uma pseudo-relação – porque sabe manifestamente falsa, mas acredita necessariamente verdadeira – de subordinação com tudo o que é mundano.
Aliás, tudo o que preenche e dá forma ao mundo, ou seja, animais, vegetação e clima foram, ao longo de séculos que pareciam não acabar nunca, vistos tão somente como um meio a explorar na louca procura por um desenvolvimento que melhorou condições materiais, não se nega, mas afastou o humano de si mesmo, tem de se dizer. No entanto, esses séculos, em roda de arestas quadradas, acabaram no intervalo do que antecede o nosso, e as coisas mudaram. Ou deviam, pelo menos.
O humano, até esta mudança, em que as suas acções de tradução de mundo em desenvolvimento desmedido não colocavam em causa aquilo que o rodeava, avançou sem aferir, ou compreender, que, por exemplo, cortar uma floresta para fazer papel ignorando o tempo necessário à regeneração do ecossistema em causa, significaria romper um equilíbrio natural construído ao longo de séculos, comprometendo a continuidade da vida que sustentava não apenas aquele espaço verde, mas, em última instância, a própria existência humana, isto é, a sua.
Porém, tanto hoje, como desde logo a partir do intervalo a meio do século passado, o desenvolvimento desmedido deixou de se limitar a um resultado inconsequente de um consumo frenético do mundo e o humano, dali em diante, viu-se confrontado com a inédita possibilidade de destruir aquilo que, desde sempre, havia tomado como garantido. De outro modo: com o mundo a deixar de ser apenas palco da sua história para passar a ser condição da continuidade daquela, o humano descobriu que ao ferir a terra, a água, o ar e os restantes seres que consigo partilham a existência, ferira-se, muito, também, a si mesmo.
De lá para cá, e considerando as sucessivas ondas de calor extremo, os incêndios florestais que devastaram milhares de hectares um pouco por toda a Europa, as secas prolongadas, a perda acelerada de biodiversidade e os fenómenos meteorológicos cada vez mais severos, veio o Serviço Europeu Copernicus anunciar que a Europa Ocidental atingiu o mês de junho mais quente desde que há registos.
Entenda-se, contudo, que, mais do que um recorde climatológico, esta notícia representa a confirmação de que o ambiente, de uma vez por todas, deixou de ser um pressuposto silencioso da história humana, dado como garantido e eterno, para passar, como se vê, a constituir uma das condições da sua própria continuidade.
O ambiente é, agora, cada vez mais frágil, cada vez mais incerto, cada vez mais dependente de ajuda e qualquer semelhança com o estado da humanidade, pelo menos a que se nos tem mostrado, não é coincidência nenhuma.
Na verdade, tudo isto, da necessidade de ajudarmos o ambiente e, ao assim fazer, estarmos a ajudar-nos enquanto espécie, pressupõe um desafio enorme que não é só para as gerações vindouras, mas, justamente, com urgência, neste exato momento, para todos nós: o de perceber que o problema do nosso tempo deixou de residir apenas naquilo que somos capazes de fazer e passou a residir, sobretudo, na forma como decidimos fazê-lo.
Este desafio, que, verdadeiramente, não é novo e que Hans Jonas, em 1979, na obra O Princípio Responsabilidade já antecipava, exige que o humano acrescente à ética tradicional (construída para regular as relações apenas entre pessoas numa época em que o ambiente parecia permanecer indiferente à ação humana) um novo destinatário, tão inevitável quanto irrevogável: o próprio mundo.
Aquilo que Jonas procurava encontrar ao denunciar já na sua altura o perigo agora comprovado do utilitarismo imediatista do humano que produz loucamente, que explora loucamente, que transforma loucamente era, na verdade, um fundamento ético que, hoje, parece-nos, evitasse a maior crise climática que potencia todas as outras: a desertificação do humano em si mesmo.
Atualmente, já nem a ética da responsabilidade proposta, há quase cinquenta anos pelo filósofo alemão conseguiria evitar que sufoquemos sempre um pouco mais, que a atmosfera aqueça sempre um pouco mais, que os oceanos subam sempre um pouco mais e que os fenómenos extremos se tornem sempre um pouco mais frequentes e devastadores. Mas um pouco que pode ser muito e ainda vamos a tempo de tentar é o de dirigirmo-nos rumo a uma nova ética, que inclua o destino do ambiente, e nos aproxime de um mundo feliz, habitável e livre. Caso, claro está, nos tempos loucos que hoje correm, ainda alguém se consiga lembrar do que isso realmente.
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