A próxima década poderá transformar profundamente a forma como Portugal se move, produz, compete e se posiciona na Europa. Entre o novo aeroporto de Lisboa, a alta velocidade ferroviária, a terceira travessia do Tejo, os investimentos energéticos, os data centers e os grandes projetos urbanos, o País prepara-se para um ciclo de investimento infraestrutural sem precedentes desde a segunda metade do século XX – num esforço económico comparável, em escala anual, à construção de uma nova Expo 98 todos os anos.
Esta transformação não acontece apenas em Portugal. Estima-se que, até 2050, o investimento global em infraestruturas ultrapasse os 140 biliões de euros, impulsionado pela urbanização, transição energética, digitalização e inteligência artificial. Paralelamente, estima-se que cerca de 75% do ambiente construído que existirá em 2050 ainda não exista atualmente.
Este tipo de projetos, pela sua escala, complexidade e impacto no território, economia e sociedade, enquadra-se no conceito de megaprojetos. De facto, enquanto num projeto tradicional (e.g. edifício, estrada, hospital) os objetivos são mais limitados, existem menos interdependências e intervenientes e o impacto é sobretudo local, num megaprojeto o contexto é caracteristicamente global, existem múltiplas entidades públicas e privadas, forte interdependência e dimensão política e institucional, planeamento territorial e impacto urbano e económico estrutural.
Por exemplo, o novo aeroporto de Lisboa não depende apenas da construção das pistas, mas depende também dos acessos rodoviários, da expansão energética, das redes de água, das telecomunicações, da logística, do ordenamento do território e da habitação. Uma alteração numa única componente pode afetar financiamento, cronograma, contratos, mobilidade, impacto ambiental e aprovação política. Esta interdependência torna particularmente complexa a gestão deste tipo de projetos, que, além das vertentes técnica, operacional e financeira, abrangem as dimensões política, institucional, regulatória, social e reputacional; e, além da engenharia, requerem a coordenação de governos, municípios, reguladores, concessionárias, investidores, entidades ambientais, comunidades locais e tribunais. Neste sentido, a governance passa a ser tão importante quanto a engenharia, e o risco deixa de ser local e passa a ser sistémico (e.g. um atraso ambiental pode desencadear pressão política, litigância, atrasos no procurement, inflação de materiais e derrapagens financeiras).
Os megaprojetos podem trazer vários benefícios, como o crescimento económico do país, ao estimularem outras indústrias além da engenharia e construção (e.g. metalomecânica, cimento, energia, tecnologia, logística, imobiliário) e criarem subsequentemente milhares de empregos; o aumento da produtividade nacional, dado que a modernização das infraestruturas potencia a redução de tempos, ineficiências, congestionamentos e custos logísticos; e a atração de investimento estrangeiro, ao serem valorizados países com infraestruturas modernas, boa ligação logística.
Os principais desafios, além de todos os riscos intrínsecos à gestão deste tipo de projetos (e.g. mudanças políticas, alterações de âmbito, oposição ambiental, governance fraca), incluem os problemas estruturais que historicamente afetam o setor da construção como a escassez de mão de obra qualificada (e.g. engenheiros, encarregados, operadores, soldadores, projetistas BIM); a baixa produtividade, cerca de três vezes abaixo da média da economia global (setor pouco industrializado e automatizado e muito dependente de mão de obra); o défice tecnológico (e.g. falta de domínio em automação, BIM, IA); as dificuldades regulatórias (e.g. lentidão dos licenciamentos, contratação pública, avaliação ambiental e decisões administrativas); e a fragmentação institucional (e.g. falta de alinhamento entre ministérios, municípios, entidades ambientais, reguladores e operadores). Estes desafios agravam-se naturalmente com vários megaprojetos em simultâneo.
As medidas a tomar passam, por exemplo, por criar uma estratégia nacional de competências, reforçando o ensino técnico, modernizando a engenharia e atraindo talento internacional; por industrializar a construção, através de tecnologias como a pré-fabricação, modularização, automação, robótica e construção offsite; por capacitar as empresas e pessoas para a gestão de megaprojetos, aprendendo com mercados internacionais e integrando expertise estrangeira; e por ter uma visão integrada de longo prazo, pensando os novos projetos (aeroporto, ferrovia, habitação, urbanismo, energia, logística) como um sistema e não como infraestruturas isoladas. Tudo isto exigirá também estabilidade regulatória e um compromisso político alargado, capaz de garantir continuidade estratégica ao longo de vários ciclos governativos.
Posto isto, as próximas décadas poderão redefinir mobilidade, produtividade, urbanismo, integração ibérica e competitividade económica. Mas os megaprojetos representam também algo mais profundo: um teste à capacidade do país para pensar e executar estrategicamente no longo prazo.
Mais do que construir infraestruturas, o verdadeiro desafio está em saber se Portugal conseguirá transformar este ciclo de investimento numa oportunidade de modernização estrutural, evitando que a dimensão dos projetos amplifique fragilidades históricas de execução, coordenação e visão estratégica.
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