As IPSS estão cansadas de responder onde o Estado não chega.
As IPSS estão cansadas de assegurar cuidados a idosos, crianças, pessoas com deficiência e famílias vulneráveis, enquanto lhes exigem sempre mais com cada vez menos.
As IPSS estão cansadas de ver crescer necessidades sociais ao mesmo ritmo a que encolhem recursos humanos, financeiros e técnicos.
As IPSS estão cansadas de acordos de cooperação que não acompanham os custos reais da alimentação, da energia, dos combustíveis, dos seguros e dos salários.
As IPSS estão cansadas de fazer contas todos os meses para perceber se conseguem pagar vencimentos, fornecedores e obrigações legais sem comprometer a missão social.
As IPSS estão cansadas de ter de escolher entre investir em equipamentos, melhorar instalações ou reforçar equipas, porque tudo é necessário e nada chega para tudo.
As IPSS estão cansadas de concursos, candidaturas, plataformas, mapas, relatórios, grelhas e formulários que consomem tempo que devia ser dedicado às pessoas.
As IPSS estão cansadas de burocracias criadas por quem raramente conhece a realidade de um lar às sete da manhã, de uma creche à hora de entrada ou de um apoio domiciliário num dia de chuva.
As IPSS estão cansadas de procurar trabalhadores que não aparecem, de formar profissionais que saem e de manter equipas exaustas a funcionar por sentido de missão.
As IPSS estão cansadas de ouvir falar em valorização do setor social enquanto continuam carreiras pouco atrativas, horários difíceis e escassez de reconhecimento.
As IPSS estão cansadas de direções técnicas que acumulam funções de gestão, recursos humanos, acompanhamento familiar, emergência operacional, qualidade, fiscalização e ainda disponibilidade permanente.
As IPSS estão cansadas de inspeções que procuram falhas sem antes reconhecer o esforço diário de estruturas que funcionam no limite.
As IPSS estão cansadas de responder a famílias aflitas que precisam de vaga imediata, quando não existem lugares, pessoal ou financiamento para aumentar respostas.
As IPSS estão cansadas de ser chamadas essenciais apenas em tempos de crise, esquecidas quando chega o momento de decidir políticas públicas.
As IPSS estão cansadas de substituir silenciosamente aquilo que devia estar garantido por sistemas robustos de apoio social, saúde e proximidade.
As IPSS estão cansadas de sobreviver entre a vocação e a tesouraria, entre a missão e a folha salarial, entre a urgência humana e a lentidão administrativa.
Pede-se às IPSS que inovem, modernizem, digitalizem, qualifiquem, expandam, cumpram rácios, retenham talento e respondam a novas exigências sociais.
Pede-se às IPSS que façam mais, melhor e depressa.
Mas continua a pedir-se quase sempre sem se dar condições para cumprir.
E, se possível, pede-se às IPSS que não se queixem, porque assim torna-se mais fácil fingir que está tudo assegurado.
Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.