“Abri duas provas e, numa delas, nem ampliando se percebe o que está lá escrito. A culpa é do aluno ou da digitalização? Há folhas de continuação de examinandos [alunos] diferentes, mas distribuídos como sendo do mesmo, tendo caligrafias diferentes. A resposta a um item estava toda em preto. Há respostas incompletas por falta das folhas de continuação. Há respostas que não correspondem aos itens que me atribuíram para classificar. Tenho respostas a um grupo sem folha de continuação e uma resposta em que há caligrafias diferentes nas duas folhas. Duas respostas a um item e uma resposta a um grupo não têm folha de continuação. Duas provas não têm nenhuma folha de resposta associada.”
Este é o depoimento de um professor, nas redes sociais, sobre o caos em que parecem ter mergulhado os exames do Secundário, aparentemente, por obra de uma opção pela digitalização das provas. O País, febril com as incidências do Mundial, parece ter passado ao lado desta monumental bronca, nos exames nacionais, que invoca ressonâncias de outros escândalos ou perturbações no passado, quer em época de exames, quer nos calendários de reinício dos anos escolares, as greves, a falta de professores ou os “furos” forçados com falta de docentes a afetar inúmeros alunos. Ciclicamente, os governos reagem, negam e a guerra de palavras e argumentos entre a tutela e os professores entra frequentemente na lógica de “uma palavra contra a outra”. Mas a matéria é particularmente sensível, porque não afeta apenas um grupo profissional ou de utentes, como acontece noutras áreas da administração pública ou dos serviços públicos, mas leva na enxurrada centenas de milhares de famílias que não sabem com o que contar. A opção pela digitalização obedeceu a decisões políticas assumidas. Conforme foi denunciado e não desmentido, algumas estruturas que funcionavam, no modelo anterior, no Ministério da Educação, para fiscalização e correção de anomalias, terão sido desmanteladas, sem que, aparentemente, exista um plano B. Houve exames que desapareceram, folhas de prova em branco ou a negro, respostas cortadas ou trocadas, folhas que se evaporaram dos respetivos testes. Professores, alunos, pais, estão sem saber o que fazer, numa altura do ano em que há férias marcadas e pagas. Vai o Governo ressarcir as famílias dos prejuízos?
Em telechamada, Montenegro, nos EUA para ver a Seleção, fez questão de acompanhar uma reunião da Proteção Civil. Sim, os atuais meios tecnológicos permitem que se governe à distância. Mas o teletrabalho, para um chefe de Governo, não devia ser uma opção
Inicialmente, o ministro da Educação reagiu com irritação e displicência, falando de muito poucos casos de anomalias. Entrou em negação. Depois, não respondeu a perguntas pertinentes da oposição: Quem é que está a gerir a plataforma? Quem forneceu o hardware? Quanto custou a mudança? Quantas provas foram afetadas? Quem está a gerir o sistema?
E há outras perguntas a fazer, sem que o puro e simples adiamento da publicação dos resultados dos exames resolva o problema – só por si, isso já vai obrigar as famílias a alterar os seus planos para o verão: os exames nacionais vão ter de ser repetidos – ou repetidos para os afetados, que (todos os dias aparecem novos relatos) não são assim tão poucos? E repetidos em que moldes ou com que enunciados, para garantir igualdade de tratamento entre os alunos cujas provas foram corrigidas e os que se encontram no limbo? Vai tudo ser transferido para uma “segunda época”? Se sim, como espera o Governo que as famílias façam o seu planeamento, sem saberem se os filhos entram para o Ensino Superior, para que universidade ou, mesmo, para que curso?
São questões tremendas que, até ver, deixam o Governo de calças na mão. O Bloco de Esquerda sugere a abertura de uma comissão parlamentar de inquérito (CPI), presume-se, para que cheguem os esclarecimentos que o ministro ainda não deu. O PS procrastina, pedindo soluções a Fernando Alexandre e dizendo “nim” à CPI. Mas não sejamos ingénuos: nos tempos mais recentes, as CPIs, que nascem como cogumelos, destinam-se, não a apurar responsabilidades e a obter esclarecimentos, mas a pressionar politicamente os governos. A figura da CPI tornou-se uma arma de arremesso política e o Chega, por exemplo, usa-a sistematicamente. Só o ministro, apelando a toda a sua capacidade de comunicação e à competência técnica, que todos lhe reconhecem, pode desmontar essa ideia, vindo a público explicar como tudo se passou, assumir responsabilidades e oferecer soluções, mesmo que estas, como um eventual adiamento das candidaturas ao Ensino Superior, sejam incómodas para as pessoas – o mal está feito. Fernando Alexandre entrou no Governo com a aura de competência e preparação e é, reconhecidamente, o ministro mais qualificado dos executivos de Luís Montenegro. Não havia necessidade de destruir a sua reputação por causa de um “azar”, de que ninguém está livre, pelo que lhe compete, agora, dar a volta por cima. A “barraca” dos exames nacionais de 2026 já não é uma questão técnica: é um problema político. E, pelo seu potencial de destruição de credibilidade, num campo tão sensível como o da Educação – trata-se dos nossos filhos e netos! –, corre o risco de se tornar o grande falhanço deste ano do Governo.
2. Veio um bocadinho de calor e os incêndios começaram a deflagrar: já temos um grande desastre, desta vez, em Vouzela. Num encontro de amigos do BTT, no interior centro do País, por trilhos difíceis e ocultos entre mato e floresta, pude observar, há poucos dias, o total abandono dos terrenos, os eucaliptais desordenados e caóticos, os matos por limpar e a má conservação dos aceiros: nada mudou. E as catástrofes de 2017 têm tudo para se repetirem. Não basta passar, de automóvel, na estrada, para ver o caos do ordenamento do território – e de carro já se vê muito. Mas, se nos internarmos a pé pelos caminhos de cabras, o que vemos é assustador. Sabemos que o País não tem massa crítica: nem agricultores, nem pastores, nem população, nem maquinaria, nem empresas que forneçam o serviço de limpeza. O problema é que também não tem planeamento, nem fiscalização, nem, sequer, qualquer preocupação política com um assunto que dá trabalho e não dá votos, em zonas deprimidas e sem eleitores. As próprias autarquias esperam sempre receber um X pela destruição operada pelos fogos, e nem estamos a falar do negócio do fogo… Teme-se o pior.
E, entretanto, o que faz o primeiro-ministro? Com o País a arder, parte para os EUA, para assistir, ao vivo, aos jogos da Seleção. A demagogia, aqui, faz um bocadinho de sentido: pago pelo nosso dinheiro, como se os bons resultados da equipa de todos nós dependessem da sua presença. Não é caso único: a parolice é contagiosa e outras seleções também veem por lá os dirigentes políticos dos seus países. Para assistirem a jogos que nem sequer são uma final ou uma meia-final. O problema, no caso concreto de Montenegro, é que saiu do seu gabinete em São Bento com o País a arder. Em telechamada, porém, fez questão de acompanhar uma reunião da Proteção Civil. Sim, os atuais meios tecnológicos permitem que se governe à distância. Mas o teletrabalho, para um chefe de Governo, não devia ser uma opção. Muito menos no caso de Luís Montenegro, que, no ano passado, abrilhantou uma lustrosa Festa do Pontal, recheada de ministros bronzeados e a beberricar cocktails, enquanto o País, um pouco mais a norte, ardia e sofria.