A Perturbação de Hiperatividade e Défice de Atenção (PHDA) é uma das perturbações do neurodesenvolvimento mais frequentes na infância, afetando cerca de 5% a 7% das crianças em idade escolar. Apesar de amplamente estudada, continua rodeada de mitos que dificultam o seu reconhecimento precoce e a intervenção adequada.
Durante décadas, esta condição foi interpretada como resultado de falhas educativas ou ausência de regras. Hoje, a evidência científica demonstra tratar-se de uma perturbação de base neurobiológica, com forte componente genética, que afeta circuitos cerebrais responsáveis pela atenção, controlo dos impulsos e regulação da atividade.
As crianças com PHDA não são “mal comportadas” por escolha. Apresentam dificuldades reais em manter a atenção, organizar tarefas, controlar impulsos e adaptar o comportamento às exigências do contexto, tornando-se particularmente evidentes em ambientes estruturados, como a escola. Convém, porém, relembrar que a PHDA não se limita à hiperatividade. Em muitos casos, predomina a desatenção, manifestando-se por distração frequente, esquecimento, desorganização e dificuldade em concluir tarefas, sendo, frequentemente, subdiagnosticada.
O diagnóstico é clínico e exige uma avaliação rigorosa e multidisciplinar, envolvendo a família, a escola e, sempre que possível, o próprio jovem. Não existe um exame único que confirme esta perturbação, sendo essencial compreender o funcionamento global da criança.
Sem intervenção adequada, pode ter impacto significativo ao longo da vida, incluindo dificuldades académicas, problemas relacionais, baixa autoestima e maior risco de comportamentos de risco. Contudo, quando identificada precocemente e acompanhada de forma consistente, é possível melhorar significativamente o funcionamento e a qualidade de vida.
A intervenção deve ser individualizada, contínua e ajustada à gravidade dos sintomas e ao contexto da criança. A psicoeducação constitui sempre a base de qualquer plano terapêutico, devendo abranger a criança ou jovem, família, professores e outros cuidadores. Esta inclui esclarecer o que é a PHDA, as suas causas, evolução, comorbilidades e opções terapêuticas, bem como identificar crenças e dúvidas, nomeadamente em relação à medicação.
As estratégias não farmacológicas são fundamentais e incluem intervenção comportamental, treino parental e adaptações no contexto escolar. É importante capacitar pais e professores para identificar padrões de comportamento, estabelecer rotinas consistentes, definir regras claras e utilizar reforço positivo de forma sistemática. Pequenas adaptações, como dividir tarefas, dar instruções claras e usar feedback imediato, podem ter impacto significativo.
Nos casos moderados a graves, a medicação pode desempenhar um papel central e eficaz no controlo dos sintomas nucleares. A decisão deve ser partilhada com a família, baseada em informação clara sobre os benefícios e possíveis efeitos adversos, e integrada num plano terapêutico mais amplo. A medicação não substitui as intervenções educativas e psicológicas, mas potencia a sua eficácia.
Qualquer plano terapêutico deve reconhecer a PHDA como uma condição crónica, com possibilidade de persistência na vida adulta. Torna-se, por isso, essencial construir uma aliança terapêutica sólida entre criança, família, profissionais de saúde e escola, promovendo uma abordagem coerente e consistente. O acompanhamento regular permite ajustar estratégias, monitorizar a evolução e reforçar comportamentos adaptativos.
Este tema é desenvolvido no livro Compreender a PHDA (LIDEL), que reúne, com base na evidência científica e na experiência clínica, orientações práticas dirigidas a profissionais, famílias e todos os interessados nesta área.
Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.