A maioria das crianças e jovens vive com a agenda quase tão preenchida como a de um adulto. Escola, trabalhos de casa, testes, explicações, cursos de inglês, entre muitas outras obrigações. No meio de tantas “atividades”, o desporto vai ficando para depois, para quando houver tempo. O problema é que, muitas vezes, esse tempo nunca chega.
Se repararmos bem, há algo que já nem aparece nesta lista: o brincar livremente. Brincar na rua, nos parques ou nos jardins, como muitos de nós fazíamos. Não falo do tempo passado ao telemóvel, no tablet ou em frente à televisão, isso não conta. A verdade é simples: as nossas crianças quase já não brincam.
Quando o tempo até permite alguma atividade física, regra geral é pouco. E isso obriga pais e avós a viverem permanentemente a correr, transformados em verdadeiros “táxis” dos filhos e netos. Esta realidade ajuda a explicar o porquê de o abandono da prática desportiva acontecer cada vez mais cedo. Não é por falta de vontade, mas porque o sistema não está organizado para a realidade das famílias.
Horários incompatíveis, treinos longe da escola ou de casa, excesso de deslocações e pouca articulação entre quem educa, quem treina e quem gere são sinais claros dessa desorganização.
Quando o desporto é deixado para o tempo que sobra, não é o desporto que falha, é o sistema que falha às crianças e aos jovens.
É aqui que entra o custo invisível do improviso.
Quando o desporto é pensado sem planeamento, transforma-se num problema em vez de ser parte da solução. Em vez de contribuir para hábitos saudáveis e para o equilíbrio físico e emocional das crianças, passa a ser mais uma fonte de stress para pais e alunos.
Improvisar tem consequências: crianças mais sedentárias, menos autónomas, com menos oportunidades de aprender a trabalhar em equipa, a lidar com regras, a ganhar e a perder, a viver com a frustração e com o sucesso. Consequências que não surgem de imediato, mas que se fazem sentir ao longo do tempo.
O desporto precisa de ser pensado de forma integrada. Não como um extra opcional, mas como parte da formação global das crianças e dos jovens. Isso exige planeamento, coordenação e responsabilidade. Exige horários compatíveis com a escola, proximidade territorial, oferta diversificada e comunicação efetiva entre escolas, clubes e entidades públicas.
Não se trata de fazer mais. Trata-se de fazer melhor. De perceber que sobrecarregar as crianças não é sinónimo de lhes dar mais oportunidades. Muitas vezes, é exatamente o contrário.
Quando não planeamos, o desporto perde espaço. Quando planeamos, ganham as crianças, as famílias e a sociedade. O improviso pode parecer mais simples no imediato, mas o seu custo paga-se durante anos.
Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.