“Sex” (20/11), “Dreams” (27/11) e “Love” (4/12), a chamada Trilogia de Oslo, chegam agora às salas portuguesas — depois da antestreia no LEFFEST — numa cadência semanal, e embora sejam histórias autónomas convém vê-los todos. À primeira vista parecem dramas intimistas sobre desejo, identidade e fragilidade humana, mas, como quase tudo na Noruega, há sempre algo por baixo da superfície: um país inteiro que funciona. Há lugares onde filmar relações humanas é um luxo porque o resto arde; onde o Estado se desagrega aos poucos, a escola pública estagna em burocracias e a política transforma-se num teatro de absurdos. E depois há a Noruega, onde os ministros não acordam a insultar jornalistas no X, os hospitais não são campos de batalha e a igualdade de género não é uma campanha de marketing, mas uma realidade estrutural. Haugerud filma a sua trilogia num terreno que Portugal raramente conhece: o da estabilidade. Não confundir estabilidade com tédio. O realizador não mostra a Noruega das brochuras turísticas, mas a que existe porque a democracia funciona, a escola ensina, o Estado social ampara e os serviços públicos não vivem permanentemente à beira do colapso. É por isso que “Sex”, “Dreams” e “Love” são filmes profundos sem serem melodramáticos, políticos sem serem panfletários. Numa sociedade equilibrada, o drama vem de dentro, não das falhas do país.
Comecemos por “Sex”. Dois limpa-chaminés, amigos, casados e heterossexuais, começam a interrogar-se sobre a própria sexualidade, os papéis de género e certezas identitárias que julgavam inabaláveis. Mas não são vítimas de nada. Não há salários mínimos indignos, nem empregos que corroem a alma, nem vidas esmagadas pela sobrevivência. Na Noruega, até os operários têm casa confortável, tempo livre, educação sólida, acesso à cultura e um Estado social que lhes permite viver sem medo. Vivem bem e isso dá-lhes espaço mental para pensar. Daí que Haugerud consiga fazer um filme inteiro sobre dúvidas sexuais sem cair na culpa católica nem na agressividade que tantas vezes acompanha sociedades em tensão. Aqui ninguém tem de provar virilidade, defender honra ou dramatizar o desejo. A masculinidade discute-se à mesa, com calma e vulnerabilidade. Não há gritaria, pavoneio machista ou moralismos de algibeira: há diálogo. E, sobretudo, há condições sociais para que esse diálogo exista. A vida pública avançada permite que a vida privada avance também.
“Dreams”, vencedor do Urso de Ouro em Berlim 2025, é talvez o mais político dos três. Não por falar de eleições, mas por revelar um ecossistema social robusto: uma escola pública onde pensar não é subversivo; uma família onde três gerações de mulheres discutem literatura e ética; e uma sociedade onde a sexualidade adolescente não é tratada como escândalo, mas como crescimento emocional. Este filme só existe porque a Noruega tem níveis educacionais muito elevados, literacia emocional trabalhada e uma tradição sólida de liderança política feminina. A primeira-ministra Gro Harlem Brundtland abriu caminho; Erna Solberg consolidou o país no século XXI; e no meio passaram ministras da Educação, Justiça e Finanças que não eram figuras decorativas, mas gestoras competentes de uma democracia madura. Quando um país é governado por competência e não por testosterona, a cultura respira melhor. Por isso, em “Dreams”, quando uma adolescente escreve um diário sobre a paixão pela professora, ninguém entra em pânico moral. A mãe lê e pensa. A avó — feminista, escritora e um pouco frustrada — lê e discute. Em vez de linchamento ou castigo, temos debate e compreensão. Em vez de moralismo, análise. Em vez de censura, responsabilidade. O luxo de viver num país onde educação e igualdade funcionam permite filmar a intimidade sem que tudo tenha de se transformar numa histeria nacional.
Por fim, “Love”. O filme passa-se entre um ferry que liga duas margens e um hospital público. E esse detalhe, que em Portugal seria sinónimo de tragédia, tempos de espera e urgências caóticas ou encerradas, na Noruega é apenas cenário. Não há filas intermináveis, corredores entupidos ou profissionais exaustos à beira de ruptura. É um espaço calmo, higiénico e funcional, onde médicos e enfermeiros falam entre si de relações como quem fala do tempo, porque não vivem esmagados pelo desgaste. Marianne, médica pragmática, e Tor, enfermeiro gay com uma visão muito própria dos encontros casuais, cruzam-se no ferry e descobrem que o amor pode ser uma força centrífuga que nos atira contra nós próprios sem provocar devastação. Numa sociedade onde o serviço público funciona, os salários protegem a dignidade, o tempo livre não é miragem e a desigualdade é das mais baixas da Europa, a intimidade pode finalmente ser vivida sem taras económicas ou culpas morais. Tor usa o ferry como espaço liminar para encontros efémeros; Marianne reconsidera o que quer da vida. Ambos exploram o amor como quem explora território seguro, não uma zona de guerra emocional. Num país equilibrado, o amor pode ser experimentação e não sobrevivência.
A Trilogia de Oslo — “Sex”, “Dreams” e “Love” — é, por isso, mais do que cinema: é um espelho. Mostra o que acontece quando um país tem políticas públicas sólidas, igualdade de género efectiva e educação de qualidade: não há ruído social a abafar a vida interior. Em Portugal, continuamos presos a problemas básicos — habitação inacessível, salários curtos, ensino frágil, desigualdade estrutural — que impedem muitos de sequer pensar sobre quem são, quanto mais sobre quem desejam. Na Noruega, o cinema pode finalmente ser adulto. Haugerud lembra-nos o óbvio: a verdadeira liberdade não começa na cama nem no Parlamento, mas num país que deixa os seus cidadãos respirar o suficiente para se interrogarem. E, ao que parece, em Oslo esse oxigénio existe e recomenda-se. Se não viajarem para Oslo pelo menos vão ver os filmes. De