Há amizades estranhas. Há amigos com quem tomamos café todas as semanas e amigos com quem nunca falámos na vida, mas que nos acompanham como se fossem vizinhos do lado. O meu caso com Tom Cruise é este tipo de amizade: unilateral, fiel, cinematográfica. Ele não sabe, mas crescemos juntos. Quando o vi a entrar num bar em Cocktail achei que o mundo adulto ia ser aquilo: dançar, misturar bebidas com estilo e engatar miúdas bonitas ao som dos Beach Boys. Depois percebi que não, que era só o Tom Cruise a ser Tom Cruise e que o resto de nós tem de se contentar com cafés servidos ao balcão da pastelaria da esquina.
Nos anos 80, todos queríamos ser como ele. Ir às aulas de manhã, ao ginásio à tarde e, à noite, pilotar um F-14 como em Top Gun ou salvar o mundo com um sorriso de miúdo travesso como em Os Marginais. Ainda hoje encontro gente da minha idade que admite, em surdina, ter comprado um par daqueles óculos Ray-Ban aviador por culpa do Tom Cruise. Eu comprei. E um blusão de aviador, também. E, já agora, uma dose de inveja saudável daquele andar confiante de quem parece ter nascido com música de fundo e daquele sorriso que as miúdas derretiam-se todas. Tentei fazer o mesmo com o meu sorriso…
Tom Cruise faz, de facto, parte do meu currículo sentimental. Há memórias que se medem por filmes, não por anos, e a minha juventude foi pontuada por ele: O Clarim da Revolta, Negócio Arriscado, A Cor do Dinheiro, Rain Man-Encontro de Irmãos. Era como seguir a evolução de um “amigo americano”: primeiro as trapalhadas, depois o talento, depois a confirmação absoluta de que estávamos a ver nascer um dos grandes atores da nossa geração. Tom estava a dois anos de mim. Literalmente. Dois anos de diferença. E éramos ambos baixinhos, essa condição tão humana que ele transformou em superpoder, a provar que um homem com 1,70 pode superar edifícios, aviões e expectativas.
Não escondo a admiração. Nunca escondi. Como jornalista, nunca tive o privilégio de me sentar com ele nos tais 20 minutos de um junket de imprensa, como já me aconteceu com tantos outros. Assisti a uma conferência de imprensa em Cannes, isso sim, esmagado no meio do auditório, enquanto Tom Cruise, impecável, sorria com aquele brilho de quem parece genuinamente feliz por estar ali. Mas frente a frente, entrevista a entrevista… nunca aconteceu. Há coisas assim: amizades que se mantêm à distância, como quem espera que o destino nos sente lado a lado numa mesa de um quarto de um hotel durante um festival de cinema. Talvez um dia.
A carreira dele é um manual de resistência. Em Hollywood, onde as modas mudam mais depressa, ele continua firme, igual a si próprio e ao mesmo tempo sempre diferente. Chamam-lhe “o último grande astro”. É injusto. Ele não é o último, é o mais duro de todos, o que ainda acredita que o cinema é um templo e não um passatempo. Numa época de ecrãs minúsculos, Tom ainda tem a mania saudável de querer ver filmes numa sala escura com o som a tremer no peito. Quando recebeu o Oscar honorário, disse: “Fazer filmes não é o que eu faço, é quem eu sou.” E ninguém duvida. Nem mesmo eu, que já ouvi declarações parecidas de políticos e futebolistas, mas nunca com esta e com tanta convicção.
A verdade é que Tom Cruise, com 63 anos, continua a ser o tipo que se atira de penhascos, agarra aviões em pleno voo, corre como se a eternidade dependesse disso e, de caminho, salva o cinema de si próprio. Há quem diga que ele exagera, que é megalómano, que faz acrobacias só para esmagar concorrentes. Talvez. Mas se é para ter megalómanos, prefiro um que arrisca a vida pelas cenas do que outro que arrisca o planeta por votos ou simplesmente por dinheiro.
Claro que Tom tem a sua mácula, a bendita cientologia. E sim, isso faz um bocadinho de comichão. É a nódoa no fato perfeito, o risco no espelho impecável. Mas ninguém é perfeito. E, sinceramente, quando vemos o Tom pendurado num helicóptero, a sorrir como quem está só a apanhar uma brisa, esquecemos a igreja, as polémicas e os saltos no sofá da Oprah, a inevitável separação de Nicole Kidman. Hollywood sempre teve gente mais estranha do que ele. Tom, ao menos, trabalha e mais, goza com o trabalho.
E trabalha muito. É o profissionalismo feito pessoa. O homem que parte tornozelos, mas nunca perde uma marcação. O ator que passa horas a treinar uma acrobacia para que, no final, nós possamos dizer “uau” durante três segundos. O tipo que sabe que uma boa cena não é CGI, é suor, músculo e coragem. Aquele momento em Mission: Impossible em que se pendura num avião em andamento? Não havia duplo. O salto do penhasco em Missão: Impossível – Acerto de Contas-Parte 1? Ele repetiu seis vezes. E eu, que numa manhã de inverno penso duas vezes antes de ir comprar pão, pergunto-me: como é que este homem ainda está inteiro?
Mas Tom Cruise não é só ação. É Jerry Maguire a gritar “Show me the money!”, é Nascido a 4 de Julho a expor feridas da guerra do Vietname, é Magnolia com a sua raiva contida, é O Último Samurai, Collateral, Minority Report. Ele tem aquele talento raro de fazer filmes muito diferentes parecerem todos inteiramente seus, como se cada papel fosse uma extensão natural da sua energia.
E depois há o romance, claro. Eu vivi aquele casamento de sonho com Nicole Kidman quase como se fosse meu. Aquilo era o casal supremo: beleza australiana encontra intensidade americana. E depois veio Olhos Bem Fechados. E depois o fim. A vida, mesmo para super-heróis, às vezes é filme de terror psicológico. O Tom passou por tudo, casamentos, divórcios, tabloides, polémicas, teorias, e continuou a aparecer no ecrã sempre com o mesmo sorriso confiante, pronto para a próxima.
Agora, ao receber um Oscar Honorário, há qualquer coisa de justiça poética. Tom Cruise nunca precisou da estatueta para ser importante, mas merecia este reconhecimento há muito. Os Oscars têm destas manias: demoram vinte anos a perceber o óbvio. E o óbvio é isto: Tom Cruise fez mais pelo cinema do que muitos realizadores, executivos e académicos juntos. De certa forma, ele salvou e continua a salvar essa experiência coletiva, aquela sensação mágica de entrar numa sala e sentir o mundo a ficar maior, mais vibrante, mais possível.
No fim, quando olho para Tom Cruise a segurar a estatueta, quase sinto um orgulho parvo. Como se fosse mesmo meu amigo. Como se tivéssemos começado juntos nos anos 80, ele em Hollywood, eu num Portugal sem internet mas com salas escuras onde aprendi a amar o cinema. Envelhecemos os dois — embora ele talvez disfarce melhor — e continuamos aqui: eu a escrever sobre filmes, ele a fazê-los como quem respira.
Um dia, quem sabe, cruzamo-nos num festival, numa daquelas entrevistas de imprensa entre sessões, e eu digo: “Tom, finalmente.” E ele responde com aquele seu sorriso: “Já era tempo.” Até lá, mantenho esta amizade silenciosa, feita de filmes, memórias e admiração. E continuo a acreditar: pessoas como nós não deviam envelhecer. Deviam morrer sempre jovens ou então fazer como o Tom Cruise e fingir muito bem que o tempo não existe.