Estávamos ontem deitados na relva, ao sol, algures no Alentejo, ao pé de uma piscina de água gelada e a beber uma sangria branca.
Normalmente não gosto de sangria mas ali parecia que tudo estava certo. Foi um daqueles momentos perfeitos em que não queremos pensar que temos coisas para fazer em Lisboa ou que temos uma crónica para entregar no dia seguinte. “Sobre o que escrevo?” Perguntei eu. “Escreve sobre o sol, sobre como o sol nos faz bem.” Ri-me, mas inconscientemente fiquei a pensar no Sol. Aqueles dias em que depois de meses de chuva ele aparece subitamente num sábado e o mundo inteiro sai cá para fora. As ruas de Lisboa cheias de gente a passear os óculos escuros, os piqueniques coloridos pelos jardins, todo o paredão de Belém cheio de famílias, as praias onde os mais arrojados tomam os primeiros banhos do ano, e nós ali naquele relvado, sem uma única preocupação, pelo menos ali, cheios de sol, sem precisar de mais nada. Que coisa é esta que nos acontece, que faz com que os momentos mais felizes das nossas vidas sejam os mais despojados? Há muitos anos estava sentado numa praia da Costa da Caparica.
Devia ser inverno porque a praia estava vazia, mas estava sol, e por trás de mim ela varria o alpendre de uma daquelas casas de pescadores feitas de madeira em cima da areia. Éramos só amigos, acho eu. Trouxe aquele momento até hoje como o quadro perfeito de tudo o que se precisa para ser feliz.
O barulho enternecedor do mar, ela de vestido a tratar da sua casa, e todo o ar a explodir de serenidade e despojamento.
Não me lembro se estava sol naquele dia em Calcutá.
Naquela casa, kaligat, a luz vinha de uma claraboia na divisão central, onde estavam os tanques onde lavávamos a roupa, e que iluminava as divisões à volta. Não me lembro se o sítio em que estavam os pacientes tinha vista para o exterior. A verdade é que andávamos tão atarefados a trabalhar de um lado para o outro que nem tínhamos cabeça para pensar em coisas como o tempo que fazia lá fora. Lembro-me de parar e olhar à volta.
Lembro-me que naquela altura a felicidade se confundia com uma revolta interior vinda da consciência da miséria a que se consegue chegar, misturada com o sentido de serviço e com uma sensação única de me sentir útil, e no sítio mais certo de todos. Não estou a dizer que a Índia era o meu lugar certo, estou a dizer que a parte em que eu já não era importante, sendo-o, dando-me, me completou.
Hoje, numa altura em que os Panamá Papers nos revelam todo um novo-velho mundo, pensei em escrever sobre corrupção. Mas estou cansado. Já todos sabemos que estas pessoas existem. Quantos jornalistas pagos pelo GES? Já todos sabemos que vai sempre existir esta gente fraca, mesquinha, a manipular, a escavar em todo o lado como se o País não estivesse já todo esburacado pela ganância dos que chegam primeiro às pás. Estou cansado. Cansado que este país esteja entupido de idiotas que o castram, vendem e afundam até não haver mais País. O que será que eles querem? O que ganham quando lá chegam? É isto que penso quando vejo esta insanidade cada vez mais evidente. Onde é que estas pessoas querem chegar? É numa mansão de milhões de euros com a preocupação de a perder que se é feliz? É dentro de um Porsche ou de um Rolls Royce que se é feliz? É que eu já estive em carros muito bons e em casas incríveis e nada me pareceu melhor que aquele areal invernoso da Costa da Caparica. Estou farto de corrupção, farto de impunidade, farto destes parasitas, destas histórias, destes esquemas… Lá estou eu a falar de corrupção em vez de falar do sol… que canseira!…