Leio que o meu clube está a fazer obras no estádio. Destinam-se a aumentar as zonas que têm sempre nomes que enunciam o privilégio de quem as ocupa: premium, corporate e coisas do género. Haverá poltronas, conforto especial, um serviço gourmet de comidas e bebidas, meninas simpáticas, televisões para se poder ver melhor os lances ou até ver outra coisa qualquer para desenfastiar e por aí fora. Diz que se quer dar a essas pessoas uma experiência diferente. Não será de futebol ou, pelo menos, daquilo que era entendido como futebol, mas já lá vamos.
Há muito que este tipo de sítios existe nos estádios, mas eram limitados e não se alargavam qual mancha de azeite, como tem acontecido nos últimos anos.
Claro está, quanto mais estes lugares crescem, menos há disponíveis para os sócios comuns. E importa lembrar que para ir para os tais locais especiais não é preciso ser sócio nem sequer ser adepto do clube; só um requisito conta: ter dinheiro, ter muito dinheiro.
Em paralelo, diminuir o número de lugares, digamos, normais acaba por fazer com que o seu preço cresça para valores incomportáveis. Teremos cada vez menos sócios no estádio e os que lá estiverem serão apenas os ricos ou, pelo menos, os que vivem muito bem.
É certo, contudo, que o meu amado FC Porto está longe de ser um pioneiro deste movimento, limita-se a seguir o que está a acontecer por esse mundo fora. Há cerca de dez, anos fui a Madrid ver um Real – Barcelona e não era preciso saber o preço dos bilhetes para perceber a condição económica da maioria das pessoas que estavam a ver o jogo e posso dizer o mesmo de outras minhas idas a estádios de importantes clubes europeus – sim, sou um privilegiado.
O estádio, ou simplesmente o nosso campo, não é um detalhe para um sócio de um clube. Sejam meia dúzia de bancadas de madeira, seja um estádio gigantesco, aquilo é a nossa casa. Um lugar onde estamos todos unidos, onde sentimos que pertencemos, que somos mais do que nós próprios. O Eduardo Galeano escrevia: “O estádio fica sozinho e o adepto também volta à sua solidão, um eu que foi nós.”
Para quem ama um clube não há deslocação ao campo de um rival que se sobreponha a ir ao nosso campo, à nossa casa, a estar com os nossos.
Ser privado de estar no estádio é uma espécie de morte para um adepto, mas é também por aqui que se está a matar o futebol.
O futebol muito cedo deixou de ser um jogo. Os clubes passaram a ser bandeiras das comunidades, símbolos de maneiras de pensar, de agir, da expressão local, regional ou nacional, verdadeiros fenómenos identitários.
E aqui entra de novo o nosso estádio. O futebol tem em si mesmo − ou tinha − um gene de igualdade, de democracia, que se exprimia nas bancadas. Somos todos iguais, estamos todos de braço dado. Brancos e negros, ricos e pobres, cristãos e muçulmanos, de direita ou de esquerda, juntos em defesa de uma causa, ainda que ela se exprima num jogo em que 11 indivíduos se defrontam de forma não violenta.
Ainda há pouco tempo, aquando da vitória do Arsenal no campeonato inglês, um cronista, de que não guardei o nome, escrevia que não se lembrava de uma celebração ter feito tanto pela pacificação das várias comunidades londrinas como a celebração deste título.
Quando no estádio deixarem de estar os que amam os clubes, os que fazem algum tipo de sacrifício para lá estar, para passarem a ser apenas os que podem pagar muito dinheiro, o futebol passa a ser um espetáculo como outro qualquer. Um jogo sem alma, sem a nossa paixão em campo, em que deixa de haver adeptos para passar a haver fãs que tanto aplaudem os golos de uma equipa como da outra. A porcaria dos efeitos de luz e som, das fotos dos beijinhos e das pistolas das camisolas já por lá anda para meu desgosto e de quem gosta de futebol a sério e acha que espetáculos de variedades são noutros lugares.
O facto é que o futebol e os seus clubes são das poucas instituições intermédias que ainda sobrevivem. Não é exatamente uma realidade que nos traga grande contentamento. Ilustra, isso sim, o quão divididos estamos, o termos deixado de ter espaços de convívio físico e de trocas de ideias sem a mediação dum qualquer ecrã. As igrejas, as associações de moradores, recreativas, culturais, as tertúlias e tantas outras formas de nos envolvermos civicamente estão num estertor ou mesmo mortas. Muito rapidamente perceberemos a falta que nos fazem.
E não é que esta crónica era para ser sobre o Mundial?
Talvez seja. Irrita-me o festival de patrioteirice associado à Seleção, como se a pátria se esgotasse na equipa, bem como haver tanta gente que despreza o futebol que nestas alturas acorda para o tema. E sim, também sei que o império do dinheiro já chegou, e de que maneira, ao futebol de seleções.
Sei, igualmente, que o espaço mediático que ocupa serve na perfeição para limitar a discussão pública e a aprovação meio clandestina de iniquidades como as condições de acesso à Prestação Social Única ou para ser esquecido rapidamente que uma vil criatura tenha em pleno Parlamento exibido um objeto que é o pináculo do racismo sem que o Presidente da Assembleia da República tenha sequer franzido a testa.
Como dentro de portas o futebol ocupou, sem ter qualquer culpa, o espaço das referidas instituições intermédias, também a Seleção acabou por substituir os fatores de agregação das nossas comunidades como a língua e os nossos outros valores de referência.
Mas vi com os meus olhos o que a Seleção Nacional representa para tantos portugueses espalhados pelo mundo, o que ela significa de orgulho em ser português. Lembro-me, e nunca vou esquecer, de, na África do Sul, durante um Mundial, ver gente que já não falava português e que nunca cá tinha vindo a chorar durante A Portuguesa com a fotografia de antepassados lusos nas mãos.
Seja como for, não deixarei o Dragão enquanto puder, nem deixarei de gritar pelo meu clube. Como sei que quando tocar o hino as lágrimas não deixarão de me correr pela cara nem deixarei de sofrer com os nossos rapazes.
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