O meu balanço deste ano é uma homenagem. Um tributo ao imigrante. Àqueles homens e mulheres que procuram um futuro melhor para eles e para as suas famílias e nos homenageiam escolhendo o nosso país para viver e trabalhar.
Sem eles não teríamos tido o maior crescimento económico das últimas décadas; sem eles a agricultura, os restaurantes e os hotéis não funcionariam. Os nossos velhos não teriam quem os aconchegasse, as casas não seriam construídas, as encomendas não chegariam aos destinos e ainda teríamos menos médicos e enfermeiros no SNS. Podia continuar por muito tempo a descrever tudo o que os imigrantes estão a fazer por nós e que a gente que cá sempre viveu ou já não podia ou não queria fazer.
É a sua presença que permite que mais empregos se gerem, que mais portugueses e mais imigrantes tenham melhores e mais empregos. Os imigrantes não tiram trabalho a ninguém e não fazem reduzir os salários, muito pelo contrário: a dinâmica que trazem à economia, o facto de ocuparem postos de trabalho que não estavam preenchidos, cria mais empregos e mais oportunidades.
Gente que faz com que possamos pagar pensões e reformas, que faz com que a nossa Segurança Social esteja de boa saúde. Homens e mulheres que recebem um quinto daquilo com que contribuem. Só posso pedir que fiquem cá por muito tempo, que façam desta terra a deles para que quando chegarem a velhos poderem ter de volta algo do muito que deram. Que tenham os filhos que nós não temos, que façam muitos portugueses e que esses preencham as escolas, creches, e que o Estado os apoie e os ajude a cumprir sonhos.
Os imigrantes fazem o nosso país mais seguro. Vêm trabalhar e a última coisa que querem é um clima de insegurança e que os seus nomes e os seus modos de vida sejam associados a condutas criminosas. Os números estão aí e são inegáveis: não há qualquer aumento de criminalidade associado ao aumento de imigrantes, e como sabemos entraram muitos nos últimos anos.
Apesar de apenas uma ínfima parte dos que nos escolhem como lar ter hábitos, costumes e religiões diferentes dos nossos – aliás, a maioria tem o português como primeira língua –, os imigrantes enriquecem a nossa cultura, o nosso modo de vida, alargam os nossos horizontes. Experimentar ramen e gostar não vai fazer-nos deixar de apreciar um bom cozido à portuguesa, nem me parece que o conforto duma túnica nos faça desistir das calças de ganga (esse trajar tão nosso…) ou que ir a uma roda de samba nos tire o fado.
É notável a forma tão rápida como quem cá chega se integra na nossa comunidade. Muito parecida com os exemplos de países que tiveram fluxos de imigração semelhantes aos nossos, a integração está a ser um sucesso. E sim, a integração de imigrantes na Europa nas últimas décadas é um grande sucesso. Duma maneira quase impercetível, as pessoas que chegaram adotaram a língua, os hábitos e costumes da sua nova terra. Foram todas? Não, claro. Mas a percentagem de quem não se adaptou é ínfima. Serve para fazer uns vídeos de propaganda xenófoba, mas não são representativos.
Os imigrantes não precisam de grandes políticas públicas para poderem integrar-se melhor, precisam que os deixem em paz, que os deixem trabalhar, que lhes sejam reconhecidos direitos e deveres como a qualquer outra pessoa.
Eles tornam-se parte da nossa comunidade, não se tornam alienígenas, e sempre assim foi ao longo da História. Tornam-se nós e nós ficamos melhores porque também aprendemos com eles.
O que aqui escrevo podia ser escrito por um francês, um suíço, um brasileiro, um americano, um inglês, um alemão ou por um qualquer cidadão de um país onde os muitos milhões de emigrantes portugueses tenham chegado. Também nós fizemos esses países mais ricos, mais diversos, mais cosmopolitas.
Eis um comentário que parece despropositado, não é?
Não, não é.
Também os emigrantes portugueses foram maltratados nos países que ajudaram a construir, também eles foram insultados por tão somente ajudarem ajudando-se. Também eles foram à procura de uma vida melhor, de mais horizontes, de mais oportunidades, deram tudo de si, fizeram o que os locais não queriam ou não podiam fazer e foram vítimas de racistas e xenófobos.
Também eles foram acusados de provocar crises na habitação, de viver em bairros de lata ou de ocupar os serviços do Estado enquanto construíam as casas e pagavam com as suas contribuições esses serviços.
Vale a pena fazer um parênteses sobre o tema da habitação. Acusar-se os imigrantes de serem corresponsáveis pela crise da habitação é das coisas mais aberrantes que existe. Para início de conversa, essa crise afeta-os mais do que aos nascidos em Portugal (70% das pessoas que já cá estavam têm casa própria), depois eles vieram porque a economia precisava deles para crescer – se eles não viessem, a economia não cresceria, aí, sim, não seriam necessárias casas. E, claro, não falo da especulação global, dos fundos e sobretudo da negligência criminosa dos poderes públicos das últimas décadas.
O mesmo tipo de argumentos serve para a delirante acusação de que os imigrantes pressionam os serviços públicos.
Tenho muita vergonha como português perante os discursos e atos a que assisto contra os imigrantes. Agradecemos com insultos, despeito, violência, a quem tanto nos ajuda. Portugueses. São os filhos, netos, primos, tios, pais de pessoas que emigram ou emigraram os primeiros a cuspir nos que chegam.
Mas não devia ser preciso invocar isso. São pessoas. São pessoas de carne e osso e que até vêm ajudar-nos.
E, não, não são meia dúzia de boçais, de xenófobos, de gente sem o mínimo de decência e respeito pelo próximo. São centenas de milhares a mostrar ódio e desprezo. São milhões a gritar para quem trata dos nossos velhos, das nossas casas, da nossa economia, para irem para a terra deles. São dezenas de representantes do povo a vociferar contra os imigrantes no Parlamento. São governantes que fazem o discurso redondo do “ah e tal, é só para regular e temos de ser humanos”, mas de facto colaboram no discurso anti-imigração.
Teremos sido sempre assim? Transformámo-nos nisto?
Não sou ninguém para pedir desculpa por quem quer que seja, muito menos por uma comunidade inteira. Mas trago os que amo e abraço os meus irmãos que vieram de todos os lados do mundo para viver comigo. Obrigado e desculpem.
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