Um claro sinal de velhice é o brocado “dantes é que era bom”. No caso concreto do nosso país, este indicador avançado do passar dos anos vem normalmente acompanhado de falta de memória e de uma bela dose de ignorância. Não é preciso ter chegado sequer aos 40 para não se perceber as grandes e positivas transformações que o País viveu nos seus anos de vida, quanto mais ter a provecta idade de 60, 70 ou 80 anos.
Portugal está melhor do que há dez, 20, 30, 40 ou 50 anos, nem se compara.
Não somos um país exemplar, muito longe disso, mas a nossa trajetória nas últimas cinco décadas é notável e orgulha qualquer português que tenha memória ou o cuidado de olhar para a nossa História.
Confesso que tenho vontade de escrever e dizer isto de cada vez que há uma pessoa disposta a ler-me ou a ouvir-me. Bem sei que não passa de um murmúrio face à gritaria de quem não sai dos média e nos garante que antes do 25 de Abril isto era uma espécie de paraíso – é isso que faz quem diz que os últimos 50 anos foram péssimos –, mas não largo a minha microscópica bandeirinha.
Porém, e desta vez, venho mesmo assumir aquilo que pode ser chamado um discurso à velho: é a propósito das presidenciais.
A degradação da qualidade do nosso pessoal político está chapada perante os nossos olhos. Seja por as pessoas com bons curricula na sociedade civil não quererem estar expostas a toda a vilania e intriga mal pretendem assumir um cargo de serviço público, seja por os partidos se terem convertido em agências de emprego que afastam os mais qualificados, seja por os cargos públicos serem tão mal pagos que só gente pouco capaz quer desempenhá-los, seja por existir um défice de vontade de querer servir a causa pública, o facto é que olhamos, por exemplo, para a Assembleia da República e em boa medida para o Governo e o cenário é assustador: gente pouco qualificada, pouco conhecedora da realidade, carreirista e pouco preocupada com o bem comum.
Estamos nestas eleições presidenciais perante um fenómeno que é exemplo desta perda acentuada de qualidade da classe política? Sim e não.
Qualquer dos candidatos relevantes, António Filipe, Catarina Martins, Jorge Pinto, Cotrim Figueiredo e, num patamar que permite pensar chegar a uma segunda volta, Marques Mendes, Seguro, Ventura e Gouveia e Melo são pessoas com vidas preenchidas em vários campos de atividade, seja político, militar, académico ou outro.
São também pessoas, com a exceção de Ventura, sérias, bem-intencionadas e com vontade de fazer serviço público.
Cinco delas, aliás, já foram líderes de partidos políticos, apesar de apenas três terem concorrido ao cargo de primeiro-ministro (Catarina Martins, Cotrim Figueiredo e Ventura) – com hipóteses de eleição muito limitadas, claro está.
Se olharmos para os candidatos às eleições presidenciais anteriores e sobretudo para os que exerceram o cargo é fácil perceber que há, digamos, um mundo de diferenças. Com todo o respeito pelas pessoas em causa, não é possível pô-las num patamar sequer próximo do de Mário Soares, Cavaco Silva, Jorge Sampaio ou Marcelo Rebelo de Sousa. E não vale a pena insultar a inteligência dos meus estimados leitores para provar o meu ponto.
O próximo Presidente da República vai enfrentar desafios especialmente difíceis nos próximos tempos: a fragmentação partidária no Parlamento que vai exigir uma intervenção de Belém que nunca lhe foi tão exigida, uma situação internacional explosiva, uma ameaça séria à democracia nunca vivida desde o 25 de Abril. Não hesito em dizer que será o exercício do cargo mais difícil desde a normalização da nossa democracia.
Nesse cargo teremos alguém que não é visto como uma referência do regime, a que ninguém reconhece gravitas e que será eleito como um mal menor, seja ele quem for. E, note-se, se Ventura for à segunda volta, nem sequer teremos um nome a correr contra o candidato populista, teremos o que não é o Ventura.
O cenário de não termos o líder do Chega melhora o panorama, mas não muito. Como já percebemos pelos estudos de opinião, os principais candidatos democratas nem a base política dos partidos que os apoiam conseguem agregar. Ou seja, se votarem numa segunda volta nesse homem, fazem-no sem um pingo de convicção sobre a boa aptidão daquele cidadão para o cargo.
A conclusão é simples: os eleitores vão votar num Presidente da República no qual a esmagadora maioria não reconhece nem estatuto, nem experiência, nem força para desempenhar bem o lugar. E é importante referir que o cargo tem um carácter muito pessoal, muito ligado à personalidade do seu detentor. O poder vem, em larga medida, da sua ligação às pessoas, ao mandato que lhe é diretamente conferido. Tem de haver uma forte ligação entre o povo e o Presidente, que claramente não existirá, pelo menos, nos primeiros tempos.
Repito, ter um Presidente da República que é eleito por não ser o outro ou que é um mal menor é uma péssima notícia, sobretudo para o momento que atravessamos.
Portugal não tem nenhum tipo de défice de pessoas de qualidade. Bem pelo contrário. Foi, aliás, mais uma das grandes conquistas de Abril. Temos gestores, políticos, artistas, desportistas de excelência e com um reconhecimento mundial como nunca tivemos.
Não é por não termos ótimos profissionais nas várias atividades que não temos muito melhor gente na política.
No caso concreto da Presidência da República, tínhamos muitas e boas soluções: António Guterres, Jorge Moreira da Silva, Mário Centeno, Passos Coelho, António Costa, Paulo Portas, só para citar alguns. Pessoas que não seriam consensuais – nem isso se deseja –, mas que ninguém se atreveria a contestar perfil, capacidade e desempenho anterior de cargos relevantes.
O que temos perante nós são candidatos de segunda divisão que terão de jogar a Liga dos Campeões. É o que há. Às vezes, há milagres, mas estão pela hora da morte. Dia 18 de janeiro acendo a velinha a São Domingos.
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