Maria passou 65 anos da sua vida como a Lua. Com todas as suas fases. Iluminada como uma lua cheia, apagada como uma lua nova, crescente como uma avó e minguante como uma filha sem mãe.
Sempre inteira, embora quebrada nos pedaços da vida que colava a cola quente, que fervia nos dedos, mas era mais eficaz no tempo, esse amigo do Diabo que corre depressa de mais, esfola profundo e demora na cura, na crosta, na ferida.
Maria era uma mulher-sombra de um astro maior e sempre de resposta pronta, o corpo entregue às balas e as mangas arregaçadas às vontades sociais da porta trancada, casa limpa, roupa lavada, cabelo aprumado, lábios discretos e saia comprida. Um rancho de filhos e o cumprimento exímio dos deveres amorosos de número singular e género oposto. Em quarto nunca só seu, em vontades próprias não pronunciadas e em grito submisso, de quem aceitava o que a vida oferecia, nem sempre plena de graça.
Uma voz silenciada por outros e pelos monstros que a habitavam no medo que lhe corroía os neurónios e outras células boas que lutavam para se multiplicar, e que, Maria insistia, não precisavam de vencer. Já não. Maria não suportava mais as repetições das falas inconstantes das suas personagens e dos duelos sem sentido de direção. Das quedas iminentes e das descidas íngremes ao calvário. Era uma luta diária fecundada nas primeiras estrelas cadentes, luzes brilhantes que aterraram em terra de ninguém, sem tempo para que ela pedisse a realização do seu desejo mais íntimo. Ser livre.
E Maria escondia-se. Por vezes, espreitava pelo buraco da fechadura, nos autores que lia fechada na dispensa, entre as paletes de leite meio-gordo sem lactose e os garrafões de água alcalina. Tanto nutriente para fortalecer os ossos e o sangue, para viver sem sentido de vida; que virasse a mesa, atravessasse o jogo e desalinhasse a linha torta em que se cosera.
Subia porque seguia o cheiro das flores, o som dos pássaros e a ambição das nuvens. Mas subia a custo de uma cabeça latejante e de braços pouco firmes, no segurar da tocha que iluminava o caminho ou do Sol, que não se deitava na hora devida e ficava em brincadeiras celestes. Maria temia o próprio medo de ser fraca, artificial, e ficar suspensa entre o acordar com vontade e já não saber viver o sonho.
Há vários eclipses ao longo da nossa vida, que iluminam outros infinitos destinos e indicam outras mil direções. Muitos chegam sem qualquer pré-aviso, já outros até nos dão sinais mais ou menos óbvios. Hesitamos. Olhamos para trás. Lemos na diagonal e não nas entrelinhas.
No silêncio da escuridão em que repousamos e somos movidos a coração, de forma lenta ou acelerada, conforme o tipo de sangue e a finura da guelra, nesses instantes mais ou menos demorados aparecem as letras, que se encadeiam em pensamentos e racionalizam o que a cabeça insiste em distorcer.
E algo nos lembra de que aquilo não basta e não é o nosso fim até que este chegue. Só no escuro se pode acender a luz. Só no eclipse se inunda a escuridão de ver além do óbvio, do que foi sombra e agora é Sol. Uma direção atenta do olhar, uma escolha certeira de uma coragem não antes tida, não antes provocada.
Não é a correr que se vê a paisagem. Não é sentada que se espera um propósito. É naquela luz esbanjada e focada para aquele lugar para onde temos receio de olhar. Está desarrumado, com livros empilhados, cadernos encavalitados nas histórias que ficaram por contar, cheio de palavras por brincar, de futuro por escolher.
Sempre que há um eclipse, é aberta, de forma lenta e cerimoniosa, a porta de uma livraria antiga, na qual se ajeitam e equilibram as escolhas que vamos fazer. E assim foi, quando Maria enfartou em coração cansado de chorar em silêncio. E lembrou-se. E soube. E entrou.
Escolherá uma leitura superficial ou uma história profunda? Um autor que a leve por uma noite de insónia ou um protagonista de uma história de amor de perdição? Fará uma escolha rápida ou uma inclinação ponderada? Quantas voltas dará à livraria para escolher o seu próximo livro? Uma ou dez? Sairá sem livro?
Na livraria, Maria será sempre seduzida pelos livros que estão ao nível do seu olhar, que não implicam movimento corporal, além da adaptação da íris e de pouco movimento da retina. Lerá os títulos dos que se dispõem em fila para se apresentar, cotados por um sucesso dúbio de vendas. Contornará os livros de digestão fácil, os do caminho para o sucesso e os dos segredos mais bem guardados para uma vida feliz.
Escolherá algum destes? Continuará a fazer o caminho do rebanho? O caminho dos lugares do costume? Deixará que a sirvam? Ou demorará, sem vergonha, na escolha, e chegará às preciosidades do pensamento, às leituras difíceis e aos encantos do desconhecido? Seja o que for, a escolha será sempre inevitável.
Não menos que o céu para aqueles que reescrevem diariamente a sua história, com a coragem de não saber o caminho certo, com humildade de saber receber o amor que lhes é dado no caminho e com muita esperança de estar a dar não menos do que o que recebem, não menos do que aquilo que a sua vida merece.
Maria passou de mão em mão, de memória em memória, até que nesse dia regressou a si própria, como um regresso a uma casa há muito abandonada. Sem medo do fim e com esperança de escolher a sua nova história.
A vida é um romance com tendência dramática que se escreve diariamente, se revê, se corrige, se reescreve, e não termina até que esteja pronto. E só termina no fim. No fim da nossa vida.
Até ao próximo eclipse, vivamos as nossas inevitáveis escolhas como elas merecem.
Intensamente.
Inventário do Eclipse é uma associação entre a VISÃO e o Clube das Mulheres Escritoras
