Os exames são como as vidas humanas: uma prova não classificada, tal como uma morte, já é de lamentar. Mas o número de 0,1% de provas não classificadas, ou “suspensas”, o que corresponderia a 300 casos, números avançados, no fim de semana, pelo Ministério da Educação, uma espécie de demonstração de que tudo estava sob controlo, não tem paralelo, por exemplo, no Japão, em três décadas, com 0% de provas não classificadas. Um número como 0,01%, ou seja, 30 provas, já exigiria um inquérito ou uma auditoria. Um único aluno afetado pelo problema já estaria em pé de desigualdade com todos os outros. Mas a forma como se relativizam os números desagradáveis – e os falhanços – também é demonstrativa de como (não) funciona o País. Perante baixas expectativas, cumprir os mínimos passa a ser um feito digno de registo. Luís Montenegro pensa que está a escrever um livro de autoajuda: “Nós arriscamos, e se arriscamos podemos falhar, mas é preferível arriscar.” Só que um Governo não é um laboratório e os portugueses não são cobaias. Se o Governo comete um erro, deve, número um, esperar as respetivas críticas, para não falar do escrutínio da imprensa e da oposição, e, número dois, reconhecer o erro, deixar de persistir nele ou emendá-lo. No entanto, este discurso dá para desculpabilizar tudo. É a inversão da definição de incompetência. O Governo falhou? Parabéns! O erro passou a ser virtuoso. Este é um admirável mundo novo, descoberto pelo primeiro-ministro. Temos de errar. O erro traz elogios. É sinal de que estamos a fazer um bom trabalho. O leitor resolveu construir uma casa em cima de uma falésia em risco de derrocada? Parabéns! Arriscou! O senhor ministro autorizou o seu motorista a pisar o pedal e atropelou mortalmente um trabalhador na autoestrada? Felicitações! Arriscou! O senhor agricultor fez uma queimada no quintal quando estavam 40 graus de temperatura e causou um grande incêndio florestal? Espetacular! Arriscou e ainda aproveitou o quentinho para aquilo arder melhor! O Ministério da Educação lançou-se às cegas na digitalização de exames feitos em papel, mesmo depois de uma primeira experiência ter corrido mal? Fantástico! O risco é o preço da inovação! Esta tese não é apenas uma injeção de criatividade no discurso político: é uma revolução cultural. Arrasar tudo para construir de novo. Montenegro é um Pol Pot da política portuguesa.
Mas é preciso fazer reformas. As que não conseguimos fazer passar no Parlamento, por falta de capacidade de negociação, e as que, feitas no gabinete, sem necessidade de irem à Assembleia, não funcionam. Perdão: o que é preciso é dizer que estamos a fazer reformas. Dois dos ministros mais competentes do Governo, os dois geradores de altas expectativas, são precisamente o alvo de todas as críticas. O primeiro, Fernando Alexandre, quadro qualificado, académico de méritos reconhecidos, comunicador nato, chegou a ser o ministro-estrela do Governo. Apesar de, aparentemente, ter recuperado, esta semana, o controlo da situação (e até pode voltar ao estrelato…), precisou, para isso, de recorrer a uma espécie de “trabalho escravo” dos professores e das escolas, dia e noite e fins de semana, para salvar a pele – mas, mais importante, para não estragar ainda mais a vida a estudantes e a famílias. Por entre ameaças aos diretores das escolas, para mitigar incompetências e más decisões próprias, escapa ao escrutínio dos contratos de outsourcing com empresas duvidosas. Optando por recorrer, assim, a meios limitados, perante a exigência da tarefa, revelou total imprudência, irresponsabilidade e displicência. Finalmente, ao “inventar” uma “segunda fase especial”, procurou atalhar situações de desigualdade entre alunos, mas isso, ao contrário do que sempre prometeu, rebentou com todos os prazos de acesso ao Ensino Superior.
Luís Neves tem um problema diferente, que não decorre do seu desempenho, como ministro: ele tem um problema pessoal de postura ética e de transparência. A muitíssimo confusa explicação sobre o “desvio” de um atrelado, apreendido pela PJ, numa operação antitráfico de droga, põe a nu, para já, a indigência do Estado: aparentemente, o risco de explosão causado pelo aumento da temperatura levou a Armada a pedir à Judiciária para retirar das suas instalações, na margem sul do Tejo, o atrelado com os produtos químicos para o fabrico de droga. Mas a PJ, imagine-se, “não tinha verba” para proceder à destruição do material. Logo aqui, há uma falha nos serviços do Estado: se a PJ não podia fazer o trabalho, não havia mais ninguém – o Exército, o Ministério das Infraestruturas, alguém! – que o fizesse? Nessa altura, explicam-nos, o empreiteiro amigo de Luís Neves, então diretor nacional da PJ, ofereceu-se para retirar o atrelado dali e transportá-lo para as instalações da sua empresa, em Barcelos. Mas como é que ele soube da história? Que passarinho lhe contou que havia aquele material à guarda da PJ e que era preciso que a PJ se desfizesse dele? Ofereceu-se?! Ou foi-lhe solicitado? E porquê, para azar dos Távoras, lhe foi solicitado, logo a ele, o homem que estava a fazer obras numa propriedade de Luís Neves, e não a qualquer outro privado? Que tipo de PPP informal foi formada entre o diretor da PJ e o empreiteiro e com o aval de quem? E o que sabemos nós disto? Sabemos que a PJ foi a Barcelos recuperar a “galera”, nome técnico do dito atrelado. Mas se foi recuperá-lo é porque o tinha perdido. É porque ele tinha saído da sua guarda de forma ilícita, ou informal, ou não autorizada oficialmente. Senão, para quê “recuperá-lo”? A história está tão mal contada que o que isto parece é o roubo de Tancos: pela segunda vez, uma entidade do Estado com licença de uso e porte de arma – primeiro o Exército, agora a PJ (e a Marinha) – deixou-se… “assaltar”. E a recuperação das “munições”, leia-se, da “galera”, ocorreu em circunstâncias que, como as de Tancos, também carecem de explicação.
Dito isto, é preciso reconhecer que alguém quis fazer a cama a Luís Neves. Por causa das suas teses sobre segurança, sobre imigração e sobre a relação entre ambas, bem como devido à sua convicção sobre a diminuição da criminalidade – que as estatísticas, objetivamente, confirmam –, ele era um homem marcado. Desviado da direção da PJ, que investigava o primeiro-ministro, para se tornar um colaborador do investigado, foi, assim, parcialmente neutralizado. Agora, com a conveniente revelação do caso de Odemira, é alvo de uma segunda neutralização, que se espera definitiva. Este já não chateia mais. E o líder parlamentar do PSD, que é tudo menos ingénuo, ainda goza, com metáforas sobre piscinas, no Parlamento. Não foi uma gaffe…
Enfim, podemos ter todas as teorias conspiratórias sobre o caso Neves. Até porque a conspiração existe mesmo. Mas o que está a acontecer-lhe só é possível porque ele se pôs a jeito.
P.S. – O Governo continua enredado em casos e casinhos, o Ministério público pede a suspensão das obras – e a demolição do que já está construído – do Hotel Hilton, em Cascais, e de cerca de 100 apartamentos, tudo construído a menos de 500 metros do mar, em edificações mais altas do que as vizinhas e num terreno que integrava a Reserva Ecológica Nacional. A cedência dos terrenos, a alegado “preço de amigo”, pela câmara teve, na maior parte dos casos, a assinatura do ex-autarca Miguel Pinto Luz, atual ministro das Infraestruturas. Mais uma bota para descalçar. Se isto não é o pântano…